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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– “Ah! Sabe onde mora o sr. Beddoes?”

– “Sei onde moram todos os meus velhos amigos”, disse o sujeito com um sorriso sinistro.

– E afastou-se com a criada em direção à cozinha. O sr. Trevor murmurou alguma coisa a respeito de ter sido companheiro daquele homem no navio quando voltava do trabalho nas minas. E, deixando-nos no gramado, entrou em casa. Uma hora depois, quando entramos, o encontramos estirado e totalmente embriagado no sofá da sala. O incidente deixou-me uma impressão desagradável e não lamentei quando fui embora de Donnithorpe no dia seguinte, porque senti que a minha presença era motivo de embaraço para o meu amigo.

– Tudo isso ocorreu no primeiro mês das férias longas. Voltei ao meu apartamento de Londres, onde passei sete semanas fazendo experiências de química orgânica. Um dia, quando o outono já ia adiantado e as férias estavam no fim, recebi um telegrama do meu amigo implorando que voltasse a Donnithorpe e dizendo que precisava muito de meu conselho e ajuda. Claro que larguei tudo e mais uma vez segui para o norte.

– Ele estava à minha espera na estação com um veículo pequeno e percebi de saída que os dois últimos meses haviam sido muito difíceis para ele. Estava magro e preocupado, perdera o jeito barulhento e cordial que era sua característica.

– “Meu velho está morrendo”, foram as suas primeiras palavras.

– “Impossível!”, exclamei. “O que aconteceu?”

– “Apoplexia. Choque nervoso. Esteve por um triz o dia inteiro. Não sei se o encontraremos com vida.”

– Como deve imaginar, Watson, fiquei horrorizado ao ouvir aquela notícia inesperada.

– “Qual foi a causa?”, perguntei.

– “Ah! Eis a questão. Entre e conversaremos no caminho. Lembra-se daquele sujeito que apareceu na véspera da sua partida?”

– “Lembro-me perfeitamente.”

– “Sabe quem permitimos que entrasse em casa naquele dia?”

– “Não tenho a menor idéia.”

– “O Demônio, Holmes!”

– Olhei para ele, espantado.

– “Sim, o próprio Demônio. Não tivemos uma única hora de descanso desde então. Meu pai nunca mais ergueu a cabeça a partir daquela noite e agora a vida o aniquilou. Está de coração partido. E tudo por causa do maldito Hudson.”

– “Que poder ele tinha?”

– “Eu daria tudo para saber. Meu pai, um homem bom, caridoso! Como teria caído nas garras daquele miserável? Estou tão satisfeito porque você veio, Holmes! Confio no seu julgamento e na sua discrição e sei que me aconselhará da melhor maneira possível.”

– Disparávamos pela estrada branca e regular, com um longo trecho da planície estendendo-se à nossa frente e cintilando na claridade avermelhada do poente. Numa colina à esquerda avistei as altas chaminés e a bandeira que indicavam a residência do senhor da região.

– “Meu pai empregou o sujeito como jardineiro”, disse meu amigo. “E como isso não o satisfez, foi promovido a mordomo. Ele parecia dominar a casa. Ele a percorria à vontade e fazia o que bem entendia. As criadas queixaram-se de sua constante embriaguez e da linguagem grosseira. Papai aumentou o ordenado de toda a criadagem para compensar o aborrecimento. O sujeito era capaz de pegar a barca e o melhor rifle de meu pai e sair para pequenas caçadas. E tudo isso com um ar tão zombeteiro e insolente que eu seria capaz de esmurrá-lo vinte vezes por dia se fosse um homem de minha idade. Precisei controlar-me ao máximo durante todo esse tempo, Holmes, e agora me pergunto se não teria sido mais sensato tomar uma atitude.”

– “As coisas foram de mal a pior, e aquele animal, Hudson, passou a ficar cada vez mais ousado, até que por fim, quando respondeu de modo insolente ao meu pai na minha presença, agarrei-o pelo braço e expulsei-o da sala. Afastou-se lívido, com um olhar venenoso, murmurando mais ameaças do que sua língua poderia expressar. Não sei o que se passou entre meu pobre pai e ele depois disso, mas papai me procurou no dia seguinte perguntando se eu me importaria de pedir desculpas a Hudson. Eu me recusei, como você bem pode imaginar, e perguntei por que ele permitia que um miserável como aquele tomasse essas liberdades com ele próprio e com sua casa.” ‘Ah, meu filho, falar é fácil, mas você não sabe em que situação eu estou. Um dia saberá, Vítor. Eu farei com que saiba, aconteça o que acontecer! Você não acredita que seu pai seria capaz de cometer algo de mau, não é mesmo?’

– “Estava muito comovido e trancou-se o dia inteiro no escritório. Vi pela janela que estava escrevendo.”

– “Naquela noite aconteceu uma coisa que nos causou um grande alívio: Hudson disse que iria embora. Entrou na sala onde estávamos sentados depois do jantar e anunciou sua intenção, com a voz pastosa de um homem meio embriagado.” ‘Estou farto de Norfolk. Vou para a casa do sr. Beddoes, em Hampshire. Ele ficará tão satisfeito em me ver quanto você ficou.’ ‘Não está saindo daqui aborrecido, não é, Hudson?’, disse meu pai, num tom humilde que fez meu sangue ferver. ‘Ainda não recebi o meu pedido de desculpas’, falou, sombrio, olhando na minha direção. ‘Vítor, você reconhece que foi um tanto brusco com este sujeito?’, perguntou meu pai, virando-se para mim. ‘Pelo contrário. Acho que nós dois fomos excessivamente pacientes com ele’,  respondi. ‘Acha mesmo?’, ele rosnou. ‘Muito bem, rapaz. Veremos!’

– “Saiu da sala no seu andar desleixado e meia hora depois foi embora da casa, deixando meu pai extremamente nervoso. Noite após noite eu o ouvia caminhando de um lado para o outro no quarto. Quando ele começava a recuperar a tranqüilidade, ocorreu o golpe.”

– “Como?”, perguntei, ansioso.

– “Da maneira mais extraordinária. Ontem à noite chegou uma carta endereçada a meu pai, com o carimbo de Fordingham. Papai a leu, apertou a cabeça com as mãos e começou a correr pelo quarto em pequenos círculos, como alguém que estivesse fora de si. Quando finalmente consegui obrigá-lo a deitar-se no sofá, vi que a boca e as pálpebras dele estavam repuxados para um lado e percebi que havia sofrido um derrame. O dr. Fordham veio imediatamente e nós o pusemos na cama; mas a paralisia aumentou e não há sinais de que vá recuperar os sentidos. Acho que dificilmente o encontraremos com vida.”

– “Estou horrorizado, Trevor! O que haveria nessa carta para provocar um efeito tão terrível?”

– “Nada. Este é o ponto inexplicável do caso. A mensagem era absurda e banal. Ah, Meu Deus. Era o que eu temia!”

– Enquanto ele falava, contornamos a curva da alameda e vimos, à luz do crepúsculo, que todas as janelas da casa estavam fechadas.

Corremos para a porta, meu amigo transtornado pela dor. Um senhor vestido de preto veio ao nosso encontro.

– “Quando foi, doutor?”,  perguntou Trevor.

– “Assim que você saiu.”

– “Ele recuperou a consciência?”

– “Por um instante, antes de morrer.”

– “Algum recado para mim?”

– “Somente que os documentos estão na gaveta do fundo do armário japonês.”

– Meu amigo subiu com o médico até os aposentos do morto e eu fiquei no escritório, analisando o caso e sentindo-me deprimido como nunca me sentira antes. Qual seria o passado de Trevor – pugilista, viajante, mineiro – e como ficara à mercê daquele marinheiro agressivo? Por que teria desmaiado ao ouvir uma alusão às iniciais quase apagadas, tatuadas no seu braço, para depois morrer de susto ao receber uma carta de Fordingham? Então lembrei-me de que Fordingham ficava em Hampshire e que o tal sr. Beddoes, a quem o marinheiro iria visitar e provavelmente chantagear, morava naquela região. Portanto, a carta poderia ser de Hudson, o marinheiro, dizendo que tinha revelado o terrível segredo que parecia existir, ou então de Beddoes, prevenindo um velho amigo de que a traição era iminente. Até aí tudo parecia bem claro. Mas, neste caso, como aquela carta poderia ser banal e grotesca, segundo a descrição do filho? Não devia tê-la entendido. Neste caso deveria ser um daqueles engenhosos códigos secretos que dizem uma coisa e parecem significar outra. Eu precisava ler a carta. Se houvesse algum significado oculto, eu tinha a certeza de conseguir descobri-lo.

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