O jardim de Rama
- Автор: Ли Джентри, Кларк Артур Чарльз
- Серия: Рама #3
- Год: 1991
- Язык: португальский
- Год: Nova Fronteira
- ISBN: 85-209-0584-6
- Переводчик: Barbara Heliodora
- Жанр: Научная фантастика
Электронная книга - «O jardim de Rama». Краткое содержание книги:
Kenji parou defronte à vitrine de uma loja e consertou a gravata. No reflexo distorcido pôde ele com facilidade imaginar-se como um idealista adolescente de Kioto a caminho de seu encontro com um rival. Mas isso foi há muito tempo, sem nada em jogo a não ser nossos egos. Agora todo o destino de nosso pequeno mundo…
Sua mulher, Nai, não queria que ele fosse encontrar-se com Nakamura.
Encorajara Kenji a pedir a Nicole uma segunda opinião. Nicole também se opusera a qualquer encontro entre o governador e Toshio Nakamura. “Ele é desonesto, um megalômano louco pelo poder”, dissera Nicole. “Nenhum bem poderá vir de um tal encontro. Ele quer apenas descobrir quais são os seus pontos fracos.”
“Mas ele disse que poderia reduzir a tensão na colônia.”
“A que preço, Kenji? Fique de olho no preço. Aquele homem jamais oferece alguma coisa por nada.”
E então por que razão viera? perguntou uma voz dentro de Kenji quando este olhou para o palácio que seu companheiro de infância construíra para si.
Não tenho certeza, exatamente, respondeu uma outra voz. Talvez por honra. Ou auto-respeito. Alguma coisa das profundezas de minha herança.
O palácio de Nakamura e as residências em torno dele eram construídos de madeira, em estilo clássico de Kioto. Telhados de telhas azuis, jardins cuidadosamente tratados, árvores frondosas, calçadas imaculadamente limpas — até o cheiro das flores lembravam Kenji de sua casa naquele planeta distante.
Foi recebido na porta por uma linda moça usando sandálias e quimono, que se curvou e saudou-o com toda a formalidade japonesa. Kenji deixou seus sapatos na prateleira e calçou sandálias também. Os olhos da moça ficaram no chão enquanto o guiava através de alguns dos poucos cômodos ocidentais do palácio até a área recoberta por tatames onde, dizia-se, Nakamura passava a maior parte de seu tempo, divertindo-se com suas concubinas.
Ao final de um curto caminho, a moça parou e afastou para um lado um biombo de papel decorado com garças voando. “Dozo” disse ela, apontando para que entrasse. Kenji entrou no cômodo de seis tatames e sentou-se, de pernas cruzadas, em uma das duas almofadas defronte de uma brilhante mesa de laca preta. Ele virá com atraso, pensou Kenji. É parte da estratégia.
Uma jovem diferente, também bonita, discretíssima e vestida com um quimono em tom pastel, entrou na sala sem fazer barulho, carregando água e chá japonês. Kenji tomou o chá lentamente enquanto passava os olhos pela sala. Em um canto havia um biombo de madeira de quatro painéis. A uma distância de poucos metros, Kenji pôde perceber que era delicadamente esculpido. Levantouse de sua almofada para observá-lo mais detalhadamente.
O lado virado para ele retratava as belezas do Japão, cada painel dedicado a uma das quatro estações. O quadro do inverno retratava uma estação de esqui nos alpes japoneses recobertos por metros de neve; a primavera mostrava cerejeiras em flor ao longo do Rio Kama em Kioto. O verão era um dia de cristalina clareza com o cume nevado do Monte Fuji a dominar uma paisagem verde. O outono apresentava um delírio de cores nas árvores que cercam o altar e o mausoléu da família Tokugawa em Nikko.
Toda essa espantosa beleza, refletiu Kenji, sentindo-se repentinamente tomado de saudades de seu país natal. Ele tentou recriar o mundo que deixou para trás. Mas por quê? Por que gastaria tanto de seu dinheiro sórdido em arte tão magnífica? Ele é um homem estranho e incoerente.
Os quatro painéis no reverso do biombo falavam de um outro Japão. A riqueza de cores mostrava a batalha do Castelo Osaka, no início do século XVII, depois da qual Ieysu Tokugawa ficou praticamente sem oposição como xogum do Japão. O biombo estava coberto de figuras humanas — guerreiros samurais na batalha, homens e mulheres da corte espalhados pelo terreno do castelo, até mesmo o próprio Senhor Tokugawa, maior do que os outros e parecendo contentíssimo com sua vitória. Kenji divertiu-se ao notar que o xogum esculpido ostentava semelhança mais do que casual com Nakamura.
Kenji estava a ponto de tornar a sentar-se na almofada quando o biombo se abriu e seu adversário entrou. “Omashido sama deshita” disse Nakamura, fazendo ligeiro cumprimento em sua direção.
Kenji curvou-se por sua vez, um tanto canhestramente porque não conseguia tirar os olhos de seu compatriota. Toshio Nakamura estava vestido em traje samurai completo, inclusive sabre e punhal! Tudo isso é parte de alguma manobra psicológica, disse Kenji a si mesmo. Foi concebido para confundir-me ou assustar-me.
“Ano, hajememashoka”, disse Nakamura, sentando-se na almofada defronte à de Kenji. “Kocha ga, oishii desu, ne?”
“Totemo oishii desu”, respondeu Kenji, tomando mais um gole. O chá era realmente excelente. Mas ele não é meu xogum, pensou Kenji. Tenho de alterar esta atmosfera antes de iniciar qualquer conversa séria.
“Nakamura-san, nós somos ambos homens ocupados”, disse o governador Watanabe em inglês. “É importante para mim que dispensemos as formalidades e entremos direto no essencial. Seu representante disse-me pelo telefone, hoje pela manhã, que você está ‘perturbado’ quanto aos acontecimentos das últimas vinte e quatro horas e tem algumas ‘sugestões positivas’ que poderiam reduzir a tensão no Novo Éden. É por isso que vim aqui conversar com você.”
O rosto de Nakamura não demonstrava nada; no entanto, um ligeiro sibilar enquanto falava expressava seu desprazer com a objetividade de Kenji.
“Está esquecido de suas maneiras japonesas, Watanabe-san. É gravemente impolido começar uma discussão de negócios antes de haver cumprimentado seu anfitrião pelo que o cerca e indagado sobre sua boa disposição. Esse tipo de impropriedade sempre leva a discordâncias desagradáveis, que podem ser evitadas…”
“Sinto muito”, disse Kenji com ligeiro traço de impaciência, “mas não preciso de lições, logo suas, sobre minhas maneiras. E além disso nós não estamos no Japão, não estamos sequer na Terra, e nossos costumes antigos japoneses são hoje em dia tão apropriados quanto o figurino que está usando…”
Kenji não tinha a intenção de insultar Nakamura, mas não poderia ter utilizado melhor estratégia para levar seu adversário a revelar suas verdadeiras intenções. O magnata pôs-se abruptamente de pé. Por um momento, o governador chegou a pensar que ele iria puxar da espada.
“Pois muito bem”, disse Nakamura, com olhos implacavelmente hostis, “vamos fazer tudo à sua moda… Watanabe, você perdeu o controle da colônia. Os cidadãos estão muito infelizes com a sua liderança e minha gente me informa de que há muitos boatos de impeachment e/ou insurreição. Você meteu os pés pelas mãos tanto na questão do RV-41 quanto na ambiental, e agora sua juíza preta, após uma série de adiamentos, anunciou que um crioulo estuprador não será julgado por júri. Alguns dos coloniais mais bem-pensantes, sabendo que você e eu temos antecedentes comuns, pediram-me que intercedesse, tentando convencê-lo de afastar-se antes que o derramamento de sangue e o caos se alastrem”.
Isto é inacreditável, pensou Kenji, enquanto ouvia Nakamura. O homem está absolutamente insano. O governador resolveu falar o menos possível na conversa.
“Então, você crê que eu deveria pedir demissão?”, perguntou Kenji após um prolongado silêncio.
“Creio”, respondeu Nakamura, com seu tom se tornando cada vez mais imperioso. “Porém, não imediatamente. Só amanhã. Hoje você tem de exercer seu privilégio executivo para tirar a jurisdição do caso Martinez das mãos de Nicole des Jardins Wakefield. Ela obviamente tem preconceitos quanto ao caso. Os juízes Ianella ou Rodriguez, um ou outro, seriam mais adequados. “Note”, disse ele forçando um sorriso, “que não estou sugerindo que o caso seja transferido para o tribunal do juiz Nishimura.”