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A Romana [La romana - pt]

Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:

Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.
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Naturalmente eu não deixava transparecer os meus sentimentos para não a magoar, sem contar que havia certas coisas que deveria dizer primeiro a mim antes de as dizer a ela. Mas de tempos a tempos escapavam-me gestos de contrariedade. Tinha a impressão de gostar menos dela, agora que estava grande e gorda e caminhava rolando as ancas, do que quando berrava, corria e se chorava todo o dia, desgrenhada e ávida. Chegava por vezes a perguntar a mim própria: “Se tivesse conseguido o bem-estar por meio de um bom casamento, a minha mãe teria engordado desta maneira?” Hoje penso que sim; não sei que sintoma ignóbil eu julgava notar na sua gordura; atribuo-o agora ao olhar que lhe lançava, carregado, mesmo sem querer, de clarividência e remorso.

Não escondi durante muito tempo a Gino a minha nova condição. Tive mesmo a ocasião de lha revelar bem depressa, a primeira vez em que o vi, quinze dias depois de nos termos encontrado em casa dos seus patrões. Uma manhã minha mãe veio acordar-me e, com voz embargada e cúmplice, disse-me:

— Sabes quem está ali à porta e te quer falar? O Gino!

— Diz-lhe que entre — respondi simplesmente.

Um pouco decepcionada com a resposta, abriu a janela e saiu. Passado um momento, Gino entrou e percebi logo que estava perturbado e furioso. Nem me deu os bons-dias. Girou em torno da cama e olhou-me, estendida e ensonada como estava. Depois perguntou:

— Ouve lá… No outro dia não trouxeste por engano um objecto que estava em cima do toucador da senhora?

“Ele aqui está”, pensei eu. Não experimentava qualquer sentimento de culpa, enquanto que, mais uma vez, a assustada servidão de Gino me fazia pena.

— Porquê? — disse-lhe.

— Desapareceu uma caixa de grande valor… de ouro… com um rubi… A senhora fez uma fita dos diabos, e como de qualquer maneira foi a mim que a casa ficou confiada, não me dizem, mas compreendo muito bem que me supõem… Felizmente que só deu por isso ontem, uma semana depois de ter voltado: assim é possível que tenha sido uma das criadas de quarto que a tenha roubado… Se não fosse isso, já me teriam acusado, despedido, preso… sei lá?

Tive medo de culpar algum inocente e perguntei:

— Mas já fizeram alguma coisa às criadas de quarto?

— Não — respondeu, muito nervoso. — Mas pediram ao comissário para nos interrogar; há dois dias que não se respira naquela casa.

Hesitei um momento, depois declarei:

— Fui eu quem a tirou.

Semicerrou os olhos, com uma careta maldosa de todo o rosto.

— Foste tu quem a tirou… e é assim que o dizes?

— Como deveria dizer?

— Mas isso chama-se roubar!

— Pois chama.

Olhou-me e de repente encolerizou-se; talvez tivesse medo das consequências do meu acto, ou pressentia, de uma maneira confusa, que a primeira responsabilidade deste roubo era dele.

— Diz-me lá — gritou. — Que te passou pela cabeça? Ah! Foi para isso que quiseste ir para o quarto da senhora… agora percebo! Mas eu, minha querida, não quero estar misturado nisto. Se tu queres roubar, rouba onde muito bem te parecer, mas não na casa onde trabalho. Uma ladra! Estava fresco se tivesse casado contigo… teria casado com uma ladra!

Deixei-o dar livre curso à sua raiva, observando-o atentamente. Admirava-me de o ter achado durante tanto tempo perfeito. Não havia dúvida, bem perfeito! Quando me pareceu que acabara as reprimendas, disse-lhe por fim:

— Mas porque te zangaste tanto, Gino? Não te acusam de teres roubado… Vão falar ainda nisso durante algum tempo e depois passará à história. Meu Deus, com tantas caixas que tem a tua patroa, vale bem a pena!

— Mas porque a roubaste? — perguntou-me.

Era claro que queria ouvir dizer aquilo que vagamente adivinhava.

— Porque sim! — disse-lhe.

— Porque sim não é resposta.

— Então, se tu queres realmente saber — disse-lhe tranquilamente —, roubei-a, não por inveja nem porque precisasse, mas porque de futuro até já posso roubar.

— Que queres dizer? — disse-me. Mas eu não o deixei continuar.

— A noite — expliquei-lhe — vou pelas ruas, procuro um homem, trago-o para aqui e ele paga-me. Se faço isto, posso também roubar, não é verdade?

Compreendeu e teve uma reacção característica.

— Também fazes isso?… Mas é perfeito!… Estava fresco se tivesse casado contigo!

— Não o faria — respondi-lhe. — Comecei a fazê-lo no momento em que soube que tinhas mulher e filha.

Ele esperava já esta frase.

— Não, minha rica — respondeu-me. — Não deites agora as responsabilidades para cima das minhas costas. Só se torna prostituta ou ladra quem o quer ser.

— Então é porque eu já o era sem o saber — disse-lhe. — E tu não fizeste outra coisa senão oferecer-me a ocasião de o chegar a ser de facto.

A minha calma mostrou-lhe que era inútil discutir. Mudou então de táctica.

— Bem… O que és ou o que fazes não é da minha conta… Mas essa caixa, é preciso que ma devolvas… Senão, mais tarde ou mais cedo, perderei o meu lugar… Preciso que ma dês e fingirei que a encontrei… no jardim, por exemplo.

— Porque me dizes tudo isso? — respondi-lhe. — Se é para não perderes o lugar… podes levá-la… está aí na primeira gaveta do armário.

Com ar aliviado, precipitou-se para o armário, abriu a gaveta, agarrou na caixa e meteu-a no bolso. Depois olhou-me de uma maneira onde havia desejo de reconciliação. Mas não tive coragem de enfrentar a cena embaraçosa que este olhar me fazia prever.

— Tens lá em baixo o carro? — perguntei-lhe.

— Tenho.

— Está bem! É tarde, é melhor que não demores; tornaremos a falar nisto na próxima vez que nos virmos.

— Estás zangada comigo?

— Não.

— Sim, estás!

— Já te disse que não.

Suspirou, curvou-se sobre a cama e deixei que me beijasse.

— Mas telefonas-me? — insistiu, da porta.

— Está descansado.

Foi desta maneira que Gino aceitou o meu novo género de vida. Mas no dia em que nos tornámos a ver não falámos nem da caixa, nem do meu trabalho, como se de futuro essas coisas não tivessem importância e cujo único interesse tivesse sido apenas a novidade. Portou-se um pouco como minha mãe, salvo que não pareceu experimentar, nem por um instante, o pavor manifestado por ela a primeira vez em que eu trouxe Jacinto para casa, e que me parecia por vezes sentir ainda perpassar por entre a sua satisfação, ver por debaixo da sua gordura balofa. O importante do carácter de Gino era, pelo contrário, uma espécie de finura tola e desentendida. Imagino que logo que conheceu a mudança que a sua traição operara na minha vida encolheu os ombros dizendo: “Matei dois coelhos de uma cajadada. Assim não me pode acusar de coisa alguma e continuarei a ser seu amante.” Há homens que consideram uma sorte conservar o que possuem, seja o dinheiro, a mulher e até a própria vida, nem que seja pelo preço da dignidade. Gino era desses.

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