A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
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Enquanto o carro se dirigia para a moradia, perguntou-me, passados uns instantes:
— Então, o teu confessor mudou de ideias?
Tinha um tom brincalhão, mas ao mesmo tempo pouco seguro. Respondi-lhe simplesmente:
— Não… eu é que mudei de ideias…
— E esse trabalho para a tua mãe acabou?
— Por agora.
— É estranho.
Não sabia o que dizia; mas era claro que procurava picar-me para ver se as suas suposições eram verdadeiras.
— É estranho porquê?
— Falei por falar.
— Não acreditas que o tenha feito?
— Não acredito nem deixo de acreditar.
Decidi atrapalhá-lo, mas à minha maneira, fazendo o jogo do gato e do rato, sem as violências aconselhadas por Gisela e que não eram para o meu feitio. Perguntei-lhe com coquetterie:
— Estarás com ciúmes?
— Eu, com ciúmes? Pelo amor de Deus!
— Estás com ciúmes, estás! Se fores sincero, tens de o confessar!
Mordeu o anzol que lhe preparara e declarou:
— No meu lugar qualquer pessoa estaria com ciúmes!
— Porquê?
— Ora! Como queres que te acredite! Um trabalho tão importante que não te permite dispensar cinco minutos para me falar… Vamos!
— E no entanto é a verdade: trabalhei muitíssimo — disse-lhe tranquilamente.
Era verdade. Que outra coisa era senão trabalho o que eu tinha com Jacinto todas as noites?
— E ganhei com que pagar as nossas prestações e o meu enxoval — acrescentei, troçando de mim própria. — Assim, pelo menos, podemo-nos casar sem dívidas!
Ele nada disse. Estava quase convencido a acreditar na verdade das minhas afirmações e a abandonar as suas primeiras desconfianças. Tive então um gesto que me era habitual dantes: passei-lhe um braço em torno do pescoço enquanto conduzia e beijei-o por baixo da orelha, murmurando-lhe:
— Porque tens ciúmes? Sabes bem que só tu existes na minha vida!
Chegámos à moradia. Gino entrou com o carro no jardim e, fechando o portão, dirigiu-se comigo para a porta de serviço. Era ao entardecer; brilhavam já as primeiras luzes nas janelas das casas vizinhas; pareciam vermelhas na bruma azulada desta tarde de Inverno. O corredor da cave estava muito escuro e sentia-se um cheiro a bafio. Parei e disse-lhe:
— Esta tarde não quero ir para o teu quarto!
— Porquê?
— Quero que vamos para o quarto da tua patroa.
— Tu estás doida! — gritou, escandalizado.
Tínhamos ido muita vez aos quartos lá de cima, mas as nossas relações tínhamo-las tido sempre na cave.
— É um capricho… Que mal há nisso? — disse-lhe.
— Há muito… pode partir-se alguma coisa… que sei eu? Se eles descobrem, que vou eu fazer?
— Olha a grande coisa! — gritei com ar trocista. — Despedem-te e pronto!
— Vês como dizes isso?
— Como querias que dissesse? Se me quisesses de verdade, não pensarias um minuto.
— Amo-te, mas não me peças isso; nem é bom pensar nisso; não quero sarilhos!
— Mas nós tínhamos cuidado… eles não dariam por isso!
— Não! Não!
Eu estava perfeitamente calma. Continuei a fingir uma atitude que não sentia e gritei:
— Então eu, que sou a tua noiva, peço-te para me fazeres um gosto, e tu, com medo que eu ponha o meu corpo onde a tua patroa põe o seu e que apóie a minha cabeça onde ela apóia a sua, recusas-mo? Mas que imaginas tu? Que ela vale mais do que eu?
— Não, mas…
— Valho dez mulheres como ela — continuei. — Pior para ti! Não tens mais que ir para a cama com os lençóis e a almofada da tua patroa… Eu vou-me embora!
Já o fiz notar: o respeito e a timidez que lhe inspiravam os patrões eram grandes; orgulhava-se ingenuamente deles, como se de qualquer maneira a sua riqueza fosse a dele; no entanto, quando me ouviu falar desta maneira e me viu disposta a ir-me embora com uma decisão nova a que ele não estava habituado, perdeu a cabeça e correu atrás de mim, gritando:
— Mas espera… aonde vais? Falei por falar… vamos para cima se isso te dá prazer!
Fiz-me ainda um pouco rogada, tomando ares ofendidos, depois aceitei. Foi assim que, enlaçados e parando de tempos a tempos sobre os degraus para nos beijarmos, exactamente como da primeira vez, mas com um estado de espírito bem diferente, pelo menos no que me dizia respeito, subimos ao andar superior. Uma vez no quarto da sua patroa, ele objectou:
— Queres mesmo meter-te na cama?
— E porque não? — respondi tranquilamente. — Não estou disposta a apanhar frio!
Calou-se, desnorteado. Eu, depois de ter preparado a cama, passei para a casa de banho, acendi o esquentador e abri a torneira da água quente muito pouco, de maneira que a tina não se enchesse muito depressa. Gino seguiu-me inquieto e descontente. Protestou de novo:
— Vais tomar banho também?
— Eles também não tomam banho antes de irem para a cama fazer o que nós vamos fazer?
— Eu é que sei o que eles fazem? — respondeu-me encolhendo os ombros.
Eu via que lá no fundo estas audácias não o desgostavam; somente, custava-lhe a aceitá-las. Era um homem pouco corajoso que não gostava de desobedecer. Mas as infracções às regras atraíam-no, até porque raramente se permitia praticá-las.
— Afinal tens razão — disse, passados uns momentos, com um sorriso ao mesmo tempo mortificado e desejoso, apalpando os colchões. — Está-se melhor aqui que no meu quarto!
Sentámo-nos na beira da cama.
— Gino — disse, deitando-lhe os braços à roda do pescoço. — Como vai ser bom, quando tivermos uma casa para nós os dois… Não será como esta, mas será a nossa.
Não sei bem porque falava assim. Provavelmente porque sabia de antemão que todas estas coisas eram impossíveis e gostava de me ferir onde mais me doesse.
— Sim, sim — disse abraçando-me.
— Eu sei o que quero da vida — continuei com o sentimento cruel de falar numa coisa para sempre perdida. — Não preciso de uma bela casa como esta. Bastam-me dois quartos e uma cozinha, mas com tudo o que é necessário e asseada como um espelho. Viver tranquila lá dentro, sairmos juntos ao domingo, comer juntos, dormir juntos… Pensa bem como vai ser bom, Gino!
Ele nada disse. Para dizer a verdade, falando assim, eu já não sentia a menor emoção. Tinha a impressão de representar um papel; estava no palco. Mas já não me parecia agora tão amargo. Esta personagem, tão fria e exterior, que não suscitava da minha parte a menor participação, tinha sido eu própria dez dias antes. Entretanto, enquanto eu falava, Gino despia-me impaciente e apercebi-me uma vez mais, como no momento em que subi para o carro, de que continuava a gostar dele, o que me fez pensar com tristeza e despeito que era talvez mais o meu corpo, sempre pronto a aceitar o prazer, do que o meu espírito, agora distante, que me tornava tão indulgente e disposta a perdoar. Ele acariciava-me e beijava-me e as suas carícias e os seus beijos faziam-me arder o cérebro: o prazer dos sentidos era mais forte do que a revolta do coração.