A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
— Matas-me — murmurei cheia de desejo, caindo sobre a cama.
Mais tarde enfiei as pernas debaixo dos lençóis; ele fez o mesmo e ficámos deitados com a colcha bordada deste leito luxuoso puxada até ao queixo. Uma espécie de dossel, suspenso sobre as nossas cabeças, deixava cair em torno do travesseiro várias camadas de tule branco e vaporoso. Todo o quarto era branco, com cortinados leves nas janelas, lindos móveis baixos encostados às paredes e objectos brilhantes de vidro, de mármore e de metal. Os lençóis finos e sedosos pareciam acariciar-me o corpo, o colchão cedia docemente a cada movimento, acordando nos membros um profundo desejo de dormir e de repousar. Da casa de banho, pela porta aberta, o ruído da água caindo na tina chegava-me aos ouvidos como um gorjeio tranquilo. Sentia o maior bem-estar e nenhum rancor contra Gino. O momento pareceu-me propício para lhe dizer que sabia tudo, porque estava certa de lho dizer gentilmente, sem sombra de ressentimento.
— Então, Gino — disse-lhe com voz acariciadora, depois de um longo silêncio —, a tua mulher chama-se Antonieta Partini?
Com certeza que dormitava, porque teve um violento sobressalto, como se o sacudissem bruscamente pelos ombros.
— Mas, que estás a dizer? — perguntou.
— E a tua filha chama-se Maria, não é?
Quis protestar de novo, mas olhou-me nos olhos e compreendeu que seria inútil. Tínhamos a cabeça na mesma almofada, os rostos lado a lado e eu falava-lhe quase sobre a sua boca.
— Pobre Gino! — continuei. — Porque me disseste tantas mentiras?
— Porque te amava! — respondeu-me com violência.
— Se me amasses realmente, devias ter pensado que logo que descobrisse a verdade iria sofrer muito… Mas não pensaste nisso, não foi, Gino?
— Amava-te, perdi a cabeça…
— Isso basta — interrompi —, de momento magoou-me muito… Não pensava que fosses capaz… Mas agora acabou-se… não falemos mais nisso… Para já, vou tomar banho.
Desembaracei-me das roupas, levantei-me e fui para a casa de banho. Gino deixou-se ficar onde estava.
A tina estava cheia de água quente e azulada, que contrastava de forma agradável com as cerâmicas brancas e as torneiras cintilantes. Entrei na tina e pouco a pouco mergulhei no líquido escaldante.
Uma vez estendida no fundo da tina, fechei os olhos. Não vinha qualquer ruído do quarto ao lado. Gino ruminava com certeza a minha declaração e procurava elaborar um plano para não me perder. Sorri ao pensar nele, perdido na grande cama de casal com a notícia dada em pleno rosto, como uma bofetada. Mas sorria sem maldade, como se ri de uma coisa cómica e que em nada nos afecta, porque não sentia o menor rancor contra ele. Conhecendo-o agora como ele era na realidade, tinha quase a impressão de nutrir por ele uma espécie de afeição. Em seguida, ouvi-o andar no quarto; devia estar a vestir-se. Passado um momento, apareceu à porta da casa de banho e olhou-me com olhos de cão batido, como se não ousasse entrar.
— Então não nos tornamos a ver?… — disse-me em voz baixa depois de um longo silêncio.
Compreendi que realmente gostava de mim, embora à sua maneira, sem que lhe repugnasse mentir-me e atrair-me a uma armadilha.
Lembrei-me de Astárito e pensei que Astárito também me amava — mas também à sua maneira. Respondi-lhe, enquanto ensaboava um braço.
— Porque não nos havemos de ver mais? Se não te quisesse tornar a ver, não teria vindo hoje. Continuaremos a ver-nos… mas menos vezes.
Estas palavras pareceram dar-lhe coragem.
— Queres que te ensaboe? — perguntou-me entrando na casa de banho.
Não pude deixar de pensar em minha mãe, também ela cheia de atenções e cuidados comigo.
E respondi secamente:
— Se quiseres… As costas, que eu não chego lá.
Gino agarrou o sabonete e a esponja; pus-me de pé e ele ensaboou-me as costas todas. Olhava-me no espelho que estava em frente da tina, a toda a altura, e parecia-me ser a dona de todas aquelas belas coisas. Ela também se poria de pé como eu estava agora e uma criada de quarto, uma pobre rapariga como eu, a ensaboaria e a lavaria respeitosamente e com mil cuidados para não a arranhar. Pensava em como devia ser agradável, em lugar de se usar as próprias mãos, ser-se servida por outra pessoa, ficar tranquila e inerte enquanto outra, cheia de respeito e solicitude, se incomodaria para nos servir.
A ideia que me assaltou quando entrara pela primeira vez nesta casa de que toda nua, desembaraçada dos meus trapos, eu valia tanto como a patroa de Gino, voltou a assaltar-me. No entanto, o meu destino era diferente do dela; era uma injustiça. Irritada, disse a Gino :
— Já chega!
Ele foi buscar um roupão de banho e enquanto eu saía da tina pousou-mo nos ombros para que me pudesse enrolar nele. Tentou beijar-me, talvez para ver se eu lho permitiria. Eu, de pé, envolta no tecido branco, deixei-o beijar-me o pescoço. Em seguida começou a friccionar-me em silêncio, o corpo todo, começando pelos tornozelos e subindo até ao seio com um zelo e uma habilidade como se não tivesse feito outra coisa durante toda a vida; fechei os olhos imaginando de novo que eu era a patroa e ele a criada de quarto. Gino tomou a minha atitude passiva por uma entrega e bruscamente senti que deixara de me friccionar e me acariciava. Então repeli-o, deixei cair a toalha, e com o corpo já bem seco tornei a entrar no quarto, nas pontas dos pés. Gino ficou na casa de banho a despejar a tina. Vesti-me à pressa e olhei em torno examinando o mobiliário. Parei em frente do toucador, semeado de objectos de madrepérola e ouro. Reparei, num canto, no meio de escovas e de frascos de perfume, numa pequena caixa de pó de arroz toda de ouro. Peguei nela e olhei-a. Era muito pesada e parecia maciça. Era quadrada, inteiramente cinzelada e um grande rubi servia de fecho. Tive uma impressão, não tanto de tentação como de descoberta; de futuro podia fazer tudo, até mesmo roubar. Abri a mala e meti nela a caixa, que caiu com todo o seu peso entre as moedas miúdas e as chaves de casa. Experimentei ao tirá-la uma alegria sensual muito parecida com a que me inspirava o dinheiro recebido dos amantes. Para dizer a verdade, não sabia o que iria fazer com uma coisa tão preciosa, que não dizia nem com as minhas toilettes nem com a vida que levava. Tinha a certeza de que nunca me serviria dela. Mas roubando obedeci à lógica que determinava daí em diante as vicissitudes da minha vida. Pensava que uma vez a casa construída era preciso pôr-lhe um tecto.
Gino entrou no quarto. Com um cuidado servil, arranjou a cama e todos os objectos que lhe pareceram ter sido desarrumados.
— Ora! Ora! — disse-lhe com desdém, quando o vi, depois deste trabalho, olhar em volta com ansiedade, para se certificar se tudo estava no seu lugar habitual. — Ora! A tua patroa não dá por coisa alguma. Ainda não é desta vez que vais para a rua!
Notei que ao ouvir as minhas palavras o seu rosto se crispou dolorosamente e senti remorsos por té-las dito, porque eram maldosas e nem sequer eram sinceras.
Não abrimos a boca, nem enquanto descíamos a escada interior nem depois no jardim, quando subimos para o carro. Tinha anoitecido havia muito. Assim que o carro começou a percorrer as ruas do bairro elegante, como se eu esperasse apenas por esse momento, comecei a chorar docemente. Não sabia porque chorava, mas a minha amargura era enorme.
Não sou feita para representar papéis de mulher desiludida ou desesperada, e durante toda a tarde em que me tinha esforçado por parecer serena, muitos dos meus gestos e muitas das minhas palavras traziam a marca da desilusão e da raiva. Pela primeira vez, através das lágrimas, experimentava um verdadeiro rancor contra Gino, cuja traição me levava a sentimentos que não gostava de sentir e que não estavam de acordo com o meu carácter. Pensava que sempre fora doce e boa e que talvez doravante já não o fosse, e esta ideia enchia-me de desespero. Teria querido perguntar a Gino: “Porque fizeste tudo isto? Como poderei esquecer?” Mas calei-me, deixando correr as lágrimas e sacudindo de vez em quando a cabeça para as fazer tombar dos olhos, como se sacode um ramo para fazer cair os frutos mais maduros. Atravessámos a cidade toda quase sem que eu desse por isso. O carro parou, desci e estendi a mão a Gino dizendo :