A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
Continuei a encontrar-me com ele, porque, como já disse, me agradava ainda, apesar de tudo, e porque não tinha alguém que me agradasse mais do que ele, e também porque, se bem que pensasse que de futuro tudo estava terminado entre nós, não queria que este fim fosse brusco e desagradável. Nunca gostei dos cortes decisivos nem de interrupções bruscas. Acho que as coisas da vida devem morrer por si, assim como nascem, por indiferença ou por hábito, uma vez que o hábito é uma variedade de fiel aborrecimento; gosto de as sentir morrer assim, naturalmente, sem que seja por minha culpa nem por culpa de outrem, e vê-las pouco a pouco ceder o lugar a outras. Além de tudo, estas mudanças claras e precisas não existem; quando se quer mudar precipitadamente, corre-se o risco de ver desabrochar com viva tenacidade, quando menos se espera, os velhos hábitos que se tinha a ilusão de ter arrancado de um só golpe e de uma maneira definitiva. Queria que as carícias de Gino acabassem por me ser tão indiferentes como as suas palavras; temia, se não deixasse o tempo agir, vê-lo ressuscitar a cada instante na minha vida, obrigando-me contra vontade a retomar as nossas antigas relações.
Uma outra pessoa que tornou a entrar na minha vida naquele momento foi Astárito. Com ele foi tudo ainda mais simples do que com Gino. Gisela via-o às escondidas e eu supus que ele tinha relações com ela só para ter ocasião de saber notícias minhas. Fosse como fosse, Gisela espiava o momento favorável para me falar dele; quando lhe pareceu que já tinha passado bastante tempo e que eu já estaria mais calma, chamou-me de parte para me dizer que ele lhe pedira notícias minhas.
— Nada me disse de preciso — acrescentou —, mas senti que ainda estava apaixonado por ti… Até me fez pena… parecia muito infeliz… Nada me disse, repito-te, mas percebi que tinha grande desejo de te tornar a ver… Agora, depois de tudo…
Interrompi-a para lhe dizer:
— Ouve, é inútil continuar a falar dessa maneira.
— De que maneira?
— Com tantas precauções! Diz antes francamente que te mandou, que me quer ver e que te comprometeste a levar-lhe a minha resposta.
— Admitindo que seja assim — concordou, desconcertada. — Então?
— Então? — respondi, tranquila. — Diz-lhe que nada me impede de o ver… mas como também tenho outros, bem entendido que é de tempos a tempos, sem compromisso.
Ela ficou estupefacta com a minha calma; estava convencida de que eu odiava Astárito e nunca consentiria em tornar a vê-lo. Não compreendia que o ódio e o amor tinham morrido para mim. Como sempre, pensou que escondia qualquer intenção.
— Tens razão — disse, passados uns instantes, com ar reflectido —, eu no teu lugar faria o mesmo… Há casos nos quais tem que se passar por cima das antipatias. Astárito ama-te de verdade. Era capaz de anular o seu casamento para casar contigo… Não és parva, tu! E eu que te julgava uma ingênua!
Gisela nunca me tinha compreendido; sabia por experiência que seria tempo perdido tentar abrir-lhe os olhos; por isso fitei-a com ar desenvolto e respondi-lhe:
— É assim mesmo — deixando-a num estado de alma onde a inveja se misturava com a mais injuriosa admiração.
Comunicou a minha resposta a Astárito e tornei a vê-lo na mesma pastelaria onde encontrei pela primeira vez Jacinto. Gisela tinha razão; ele continuava a amar-me freneticamente; logo que me viu ficou pálido como um morto, perdeu toda a segurança e não abriu a boca. Esta paixão era mais forte do que ele. Penso que certas mulheres do povo, simples, como minha mãe, por exemplo, tem razão quando, contando histórias de amor, declaram que certos homens foram enfeitiçados pela amante. Sem querer e sem dar por isso, eu exercia sobre Astárito uma espécie de sortilégio; ele tinha consciência disso, e se bem que tentasse livrar-se com todas as forças não o conseguia. Tinha, de uma vez para sempre, feito dele um subordinado; de uma vez para sempre tinha-o desarmado, paralisado e reduzido a nada. Explicou-me mais tarde que por vezes, quando estava sozinho, tentava estudar o papel da personagem fria e desdenhosa que queria representar comigo, indo até ao ponto de decorar frases, mas que quando me via o sangue fugia-lhe do rosto e uma espécie de angústia oprimia-lhe o peito, o espírito turvava-se-lhe, a língua recusava-se a falar. Tinha a impressão de não poder suportar o meu olhar, perdia a cabeça, experimentava o desejo irresistível de se lançar de joelhos diante de mim e de me beijar os pés.
Realmente, ele não era como os outros homens; quero dizer que dava a impressão de estar obcecado. Na noite em que nos tornámos a encontrar, depois de termos ido jantar juntos ao restaurante, sempre num silêncio terno e crispado, apenas chegados a minha casa, obrigou-me a contar em pormenor, sem nada omitir, toda a minha vida depois do dia do passeio a Viterbo até ao meu rompimento com Gino.
— Mas porque te interessa isso tanto? — perguntei, muito admirada.
— Por nada — respondeu. — Mas para ti que mal tem isso? Não te preocupes comigo, conta!
— Pela minha parte não me importo! — respondi, encolhendo os ombros. — Se isso te dá prazer!
E minuciosamente, como me recomendara que o fizesse, contei-lhe tudo o que se passara depois do passeio: como fora a explicação com Gino, como seguira os conselhos de Gisela, como encontrara Jacinto. Só não contei a história da caixa de pó-de-arroz, nem sei bem porquê, talvez para não o colocar numa situação falsa, sendo ele, como era, polícia. Fez-me imensas perguntas, particularmente sobre o meu encontro com Jacinto. Parecia que nunca tinha os pormenores suficientes: dir-se-ia que não queria só saber as coisas, mas vê-las, tocá-las e participar nelas, em suma. Não sei quantas vezes me interrompeu para me dizer:
— E tu, que fizeste?
Ou ainda:
— Mas ele, que te fez?
Quando eu acabava beijava-me, gaguejando:
— Tudo isto foi por minha culpa!
— Não — respondi, um pouco contrariada. — Não foi culpa de ninguém.
— Sim! Foi por minha culpa! Fui eu quem te destruiu! Se não me tivesse portado daquela maneira em Viterbo, tudo se teria passado de uma maneira diferente!
— Enganas-te! — disse-lhe vivamente. — Se alguém está em falta é Gino: tu nada tens que ver com isto! Em Viterbo, meu caro, quiseste possuir-me à força. As coisas que se obtêm dessa maneira não contam! Se Gino não me tivesse enganado, eu teria casado com ele; depois contar-lhe-ia o que se havia passado e seria como se nunca te tivesse conhecido!
— Não, foi por minha causa! Aparentemente a culpa pode ser de Gino… mas no fundo só eu fui o culpado, só eu!
Parecia ter grande empenho em considerar-se culpado: mas julguei compreender que, longe de sentir remorsos, tinha prazer em pensar que me tinha corrompido e desnudado. Sentia prazer… é dizer muito! Excitava-o. Talvez fosse esse o motivo principal da sua paixão por mim. Compreendi isso logo que me apercebi de que muitas vezes, durante os nossos encontros, insistia para que lhe contasse com pormenores o que se passava entre os meus amantes ocasionais e eu. No decorrer destas descrições ficava com uma cara alterada, tensa, atenta, que me desagradava e me fazia corar. Logo a seguir atirava-se para cima de mim, e enquanto me possuía repetia-me com uma intensa paixão palavras injuriosas, brutais, obscenas, que eu não posso repetir e que me pareciam ofensivas até para a mulher mais depravada. Como esta estranha atitude podia estar ligada à sua adoração por mim nunca o compreendi; do meu ponto de vista, é impossível amar uma mulher sem a respeitar; mas no seu caso, o amor e a crueldade pareciam misturar-se, emprestando um ao outro a sua cor e a sua força. Algumas vezes pensava que esta singular volúpia que sentia em me julgar degradada por sua culpa era-lhe sugerida pelo seu trabalho de polícia, o qual consistia precisamente, como o percebi, em procurar o ponto fraco dos acusados, corrompê-los e aviltá-los de maneira que se tornassem inofensivos. Chegou mesmo a dizer-me, já não sei a que propósito, que todas as vezes que conseguia fazer confessar ou domar um acusado, de uma maneira ou de outra, sentia uma satisfação particular, quase física, parecida com a da posse amorosa. “O acusado é como uma mulher — explicava-me. Enquanto resiste tem a cabeça alta. Mas quando cedeu, uma vez só que seja, não é mais que um farrapo que se pode retalhar como e onde se quiser.” Portanto, parecia-me mais provável que o seu carácter cruel e voluptuoso fosse nele uma coisa inata, e se escolhera esta profissão era porque tinha feitio para ela e não o caso contrário.