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A Romana [La romana - pt]

Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:

Um livro de Alberto Moravia, escrito durante a Segunda Grande Guerra, que se centra na vida simples e aparentemente desinteressante de Adriana, uma jovem habitante de Roma. Traída pelo seu primeiro amor, a romana entrega-se à prostituição como quem se entrega a uma vocação. Numa trajetória de inúmeros amantes, três homens se destacam: um jovem revolucionário, um criminoso foragido e um alto funcionário do governo facista, a romana interliga o destino desses homens, quem têm um final dramático e inesperado. No romance de Moravia o sexo tem um valor sobretudo simbólico.
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— Telefonar-te-ei.

Olhou-me esperançado, mas a sua expressão mostrou-se espantada quando me viu a cara banhada de lágrimas. Mas não teve tempo de falar; fiz-lhe um gesto de despedida acompanhado de um sorriso contrafeito e afastei-me.

9

Foi assim que a minha vida começou a girar sempre para o mesmo lado e com as mesmas personagens, como o carrocel do Luna Parque que eu via, rapariguinha, da janela da minha casa e do qual o brilhante girar me enchia de alegria o coração.

Também no carrocel há poucas personagens e sempre as mesmas. Ao som de uma música estridente e desafinada, vêem-se desfilar o cisne, o gato, o automóvel, o cavalo, o trono, o dragão e o ovo e assim por diante, durante toda a noite. Eu também via girar as silhuetas dos meus amantes, quer fossem homens que eu já conhecesse quer fossem desconhecidos, em tudo parecidos com os primeiros. Jacinto vinha de Milão, donde me trazia meias de seda, e durante algum tempo via-o todas as noites. Depois Jacinto tornava a partir e recomeçava a ver Gino, uma ou duas vezes por semana. Noutras noites ia com outros homens que encontrava na rua ou que Gisela me apresentava. Havia os jovens, os menos jovens e os velhos; alguns simpáticos, que me tratavam com gentileza, outros desagradáveis, que me consideravam como um objecto comprado e vendido; mas no fundo, como decidira não me prender a alguém, era sempre a mesma música. Encontrávamo-nos na rua, ou no café, íamos por vezes jantar juntos, depois corríamos para minha casa. Aí fechávamo-nos no quarto, eu entregava-me, falávamos um pouco, depois o homem pagava e ia-se embora e eu passava para a sala grande, onde minha mãe me esperava. Se tinha fome comia e em seguida deitava-me. Algumas vezes, mas muito raramente, se ainda era cedo, tornava a sair e voltava à cidade a procurar outro homem. Mas havia também os longos dias em que ficava em casa sem fazer nada e sem querer ver ninguém. Tornara-me muito preguiçosa, de uma indoléncia triste e voluptuosa, e assaltava-me uma sede de repouso e de tranquilidade que não era somente a minha, mas a da minha mãe e de toda a raça de seres sempre fatigados e sempre pobres, a que eu pertencia. Frequentemente, ao ver a gaveta das economias vazia, isso bastava para me fazer sair de casa e me levar a calcorrear as ruas em busca de um companheiro; mas também com frequência a minha preguiça me vencia, e preferia pedir dinheiro emprestado a Gisela ou mandar minha mãe comprar a crédito nas lojas.

E, no entanto, não poderia dizer que realmente esta vida me desagradava. Depressa percebi que a minha inclinação por Gino nada tinha de especial ou de única e que no fundo quase todos os homens, por uma razão ou por outra, me agradavam. Não sei se isto acontece a todas as mulheres que levam a mesma vida que eu, ou se indica a presença de uma particular vocação; o que sei é que sentia todas as vezes um frémito de curiosidade e de expectativa que raramente resultava em decepção.

Dos jovens, gostava dos corpos compridos, magros, ainda adolescentes, os gestos desajeitados, a timidez, os olhos acariciadores, os lábios e os cabelos cheios de frescura. Dos homens maduros, gostava dos braços musculosos, largos peitos, um não sei quê de maciço e de possante que a virilidade empresta aos ombros, ao ventre e às pernas; por fim até mesmo os velhos me agradavam, pois o homem não é, como a mulher, escravo da idade; até na velhice eles conservam um encanto particular. O facto de mudar todos os dias de amante permitia-me distinguir à primeira vista qualidades e defeitos com a precisão e a penetração de observação que só a experiência permite adquirir. Além disso, o corpo humano era para mim uma fonte inesgotável de um prazer misterioso e nunca saciado; mais de uma vez me surpreendi a acariciar com os olhos ou a tocar com as pontas dos dedos os membros dos meus companheiros de uma noite, com se quisesse, para além das superficiais relações que nos uniam, penetrar o sentido do seu interesse por mim e explicar a mim própria por que motivo me atraíam tanto. Mas procurava esconder esta atracção o mais que podia, porque estes homens, na sua vaidade sempre desperta, podiam tomá-la por amor e imaginar que me apaixonara por eles, quando na realidade o amor — pelo menos como eles o entendiam — nada tinha a ver com o meu sentimento, o qual se parecia mais com o respeito e a vibração que experimentava antigamente quando frequentava a igreja assistindo a certos actos religiosos.

O dinheiro que ganhava desta maneira não era tanto como poderia imaginar-se. Primeiro, nunca chegava a ser tão ávida e venal como Gisela. Decerto que esperava que me pagassem porque se eu “ia” com os homens não era para me divertir; mas a minha natureza levava-me a entregar-me mais por uma espécie de exuberância física do que por espírito de lucro, e não pensava no dinheiro senão no momento em que me pagavam, o que era tarde. Sempre tive a convicção de que a mercadoria que eu fornecia aos homens nada me custava e não se pagava; recebia esse dinheiro mais como um presente do que como um salário: parecia-me que o amor não devia pagar-se e nunca estava bem pago; presa a esta modéstia e a esta presunção, sentia-me incapaz de fixar um preço que não me parecesse arbitrário; também quando me davam muito, agradecia com uma excessiva gratidão, e quando me davam pouco nunca me sentia roubada nem protestava. Só mais tarde, levada por algumas decepções amargas, é que me decidi a imitar Gisela, que discutia as suas condições antes de chegar a acordo. Mas ao princípio corava, murmurava os preços entre dentes; muitos não me percebiam; tinha sempre que repetir.

Havia ainda outro motivo que tornava insuficiente o dinheiro que ganhava. Olhando às despesas muito menos que dantes, permitindo-me a compra de muitos mais vestidos, perfumes, artigos de toilette e outros objectos semelhantes necessários à minha profissão, o dinheiro que recebia dos meus amantes não era mais do que aquele que outrora ganhava sendo modelo e ajudando minha mãe a trabalhar. Como dantes, e ainda com mais frequência agora, havia dias em que não tínhamos um centavo em casa. E como antigamente, e até mesmo pior, a despeito do sacrifício da minha honra, sentia-me pobre e pensava com angústia na insegurança do dia de amanhã. Sou de natureza alegre e calma; esta inquietação nunca tomou em mim um carácter de obsessão, como noutras pessoas menos equilibradas e menos indiferentes. Mas estava na minha consciência obscura como um verme de um velho móvel; advertia-me constantemente de que eu estava desprovida de tudo, que não podia esquecer esta precária condição e descansar, nem melhorar definitivamente com a profissão que escolhera.

Aquela que nada sentia, ou pelo menos parecia não sentir qualquer inquietação, era minha mãe. Dissera-lhe logo que não era necessário que desperdiçasse a sua vida cosendo o dia inteiro. Como se toda a vida ela não esperasse outra coisa que esta advertência, abandonou imediatamente a maior parte do trabalho e limitou-se à execução desinteressada de uma ou outra encomenda, mais para passar o tempo que pelo desejo de ganhar alguma coisa. Era como se o esforço de todos estes anos, a começar no tempo em que eu era rapariga e servia uma família como criadinha, se afundasse bruscamente sem deixar resíduos e sem remédio, à maneira das velhas casas que logo que se desmoronam desaparecem, entram em si próprias, se bem que não tenham uma única parede de pé; nada fica senão um montão de poeira. Para uma pessoa como minha mãe, o dinheiro queria dizer comer e descansar até à saciedade. Comia mais que nunca e permitia-se pequenos luxos que na sua ideia distinguiam os ricos dos pobres: levantar-se tarde, dormir depois do almoço, passear de vez em quando. Devo dizer que o efeito que produziu nela esta mudança de hábitos foi talvez o lado mais desagradável da minha nova vida. Sem dúvida, os que estão habituados a trabalhar nunca deviam parar: o descanso, o bem-estar, mesmo de uma origem boa e lícita — não era porém o caso —, corrompem-nos. Ao mesmo tempo que a nossa situação melhorava, minha mãe engordava, ou, para ser mais exacta, dada a rapidez com que desapareceu a sua magreza ofegante e angulosa, ela inchava de uma forma doentia e de uma maneira que me pareceu significativa, embora isso não me surgisse com clareza. As suas ancas agudas arredondaram-se, os ombros secos cobriram-se, as faces, que sempre foram cavadas, encheram-se e refloriram como se tivessem sido assopradas. Mas o pormenor mais triste da sua transformação física foram os olhos. Outrora grandes e dilatados, com uma expressão excitada e inquieta, reflectiam agora uma luz equívoca e ambígua. Tinha engordado, mas sem beleza nem rejuvenescimento. Parecia-me que era ela quem trazia no corpo e na cara a marca visível da nossa mudança de vida; nunca a podia olhar sem experimentar um sentimento penoso misturado de remorso, compaixão e repugnância. Ela aumentava o meu mal-estar assumindo atitudes de gulosa e feliz satisfação. Na realidade, rejubilava por não ser forçada a trabalhar e estas atitudes eram as de uma mulher que durante toda a sua vida nunca comera nem descansara o suficiente.

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