A Romana [La romana - pt]
- Автор: Моравиа Альберто
- Год: 1972
- Язык: португальский
- Год: Abril Cultural
- Переводчик: Marina Colassanti
- Жанр: Классическая проза
Электронная книга - «A Romana [La romana - pt]». Краткое содержание книги:
— Tenho fome!
Era verdade; no restaurante, com o nervosismo, quase não tinha comido.
— O teu jantar está pronto — respondeu-me, contente por eu lhe oferecer um meio de se tornar útil e de fazer uma coisa que fazia todas as noites. — Vou preparar-to.
Saiu e fiquei só.
Sentei-me em frente da mesa, no meu lugar habitual, e esperei que ela voltasse. Sentia a cabeça oca; de tudo o que se passara ficara-me apenas o cheiro acre e doce do amor entre os dedos e o traço seco e salgado das lágrimas no rosto. Olhei, imóvel, as sombras que o candeeiro suspenso projectava nas grandes paredes nuas da sala. Minha mãe voltou. Trazia um prato com carne e legumes.
— A sopa não ta aqueci — disse-me —, porque não ficava boa. E depois, já não há muita.
— Não faz mal. Isto chega!
Deitou-me vinho tinto no copo e ficou de pé na minha frente, como sempre que eu comia… imóvel, atenta às minhas ordens.
— O bife está bom? — perguntou-me ansiosamente.
— Está bom, está.
— Pedi tanto ao homem do talho para me dar um bocado tenro!
Parecia ter acalmado; tudo parecia igual às outras noites. Acabei lentamente de comer, bocejei, abri os braços e espreguicei-me. De repente senti-me bem; este gesto bastava para dar ao meu corpo uma sensação de juventude, força e contentamento.
— Tenho sono! — declarei.
— Espera… vou fazer-te a cama! — disse minha mãe, atenciosa, fazendo menção de sair.
— Não, não; eu faço!
Levantei-me; minha mãe levou o prato vazio.
— Amanhã de manhã deixa-me dormir! — recomendei-lhe. — Não me acordes.
Respondeu-me que me deixaria dormir, e, depois de lhe dar as boas-noites é de a beijar, retirei-me para o meu quarto. A cama estava na desordem em que eu e Jacinto a tínhamos deixado. Limitei-me a ajeitar a almofada e a colcha, despi-me e enfiei-me nos lençóis. Fiquei durante uns instantes com os olhos abertos no escuro, sem pensar em nada.
— Sou uma prostituta! — disse por fim em voz alta, para ver o efeito que isso me produzia.
Tive a impressão de que não me fazia qualquer efeito: fechei os olhos e adormeci logo a seguir.
8
No decurso dessa semana tornei a ver Jacinto todas as noites. Ele tinha telefonado a Gisela no dia seguinte de manhã e Gisela tinha-me dado o recado. Jacinto devia voltar a Milão na véspera da noite do dia que eu tinha marcado para me encontrar com Gino; fora esta a razão pela qual consentira em encontrar-me com ele todas as noites. Doutra maneira, teria recusado, porque jurara a mim mesma que não teria encontros seguidos com qualquer homem. Pensava que era preferível, já que tinha que ter esta vida, fazé-lo francamente, mudando de amante de cada vez, em lugar de me enganar a mim própria e de me dar a ilusão de não o fazer deixando-me sustentar por um homem só, com o risco de me afeiçoar a ele ou de o deixar afeiçoar-se a mim, e perder assim não só a liberdade física mas também a dos sentimentos. De resto, guardara intactas as minhas ideias sobre a vida conjugal e regular; pensava então que se tivesse de me casar não seria com um amante que me sustentasse e que por fim decidisse tornar legais, mas não morais, relações de interesse; isso aconteceria com um rapaz que eu amasse e por quem fosse amada, que fosse da minha condição, com os mesmos gostos e as mesmas ideias que eu. Queria, em resumo, que a vida que escolhera ficasse bem distinta das minhas velhas aspirações, sem contágios nem compromissos. Porque me sentia, num certo sentido, levada a ser uma boa esposa e uma boa cortesã, mas incapaz de escolher, como entendia que devia fazer Gisela, o meio termo hipócrita e prudente entre as duas soluções. Sem contar que, feitas as contas, se podia obter mais do escrúpulo de muitos que da generosidade de um só.
Durante todas aquelas noites, Jacinto levou-me a jantar ao seu restaurante habitual e acompanhou-me a minha casa onde se demorava. Minha mãe renunciou a falar destas noites; limitava-se a perguntar-me se dormira bem quando de manhã entrava no meu quarto, a uma hora avançada, para me levar o café num tabuleiro. Este café, já o disse, costumava engoli-lo na cozinha, muito cedo, de pé, junto da chaminé, ainda com o frio da água nas mãos e na cara. Mas agora minha mãe trazia-mo ao quarto e eu bebia-o na cama, enquanto ela abria as persianas e tratava de dar alguma arrumação ao quarto. Não lhe dizia nunca mais do que já lhe dissera, mas ela percebera por si própria que tudo tinha mudado na nossa vida e mostrava pelo seu comportamento que compreendia que espécie de mudança se operara. Agia como se entre nós houvesse um acordo tácito e parecia, pelas suas atenções, pedir-me humildemente que lhe permitisse, na nossa vida nova, servir-me e tornar-se útil como outrora. Devo dizer que este hábito de me trazer o café à cama devia tranquilizá-la num certo sentido, por que muita gente — e minha mãe era dessas — atribui aos hábitos um valor positivo, mesmo que não tenham, como este, essa característica. Manifestou o mesmo zelo introduzindo todos os dias pequenas mudanças da mesma ordem na nossa vida quotidiana: tanto assim que me preparou uma grande panela de água quente para me lavar ao levantar, pôs flores numa jarra no quarto e assim por diante.
Jacinto dava-me sempre a mesmo soma de dinheiro e eu, sem dizer nada a minha mãe, ia-a depositando no fundo de uma gaveta, numa caixa onde até agora ela guardara as suas economias. Ficava com pouco dinheiro para mim. Imaginava que ela já se tinha apercebido destas adições diárias ao nosso património, mas nunca trocámos uma única palavra a tal respeito. Durante a minha vida pude observar que mesmo aqueles cujo dinheiro tem uma origem lícita não gostam de falar nisso, não só com estranhos, mas até mesmo com os íntimos. Sem dúvida liga-se ao dinheiro um sentimento de vergonha ou talvez de pudor que o risca das conversas normais e se relega para o plano das coisas secretas inconfessáveis, nas quais não se deve falar. Como se, qualquer que seja a sua origem, ele fosse sempre mal adquirido. Talvez também ninguém goste de mostrar o sentimento que o dinheiro suscita na sua alma: um sentimento muito forte, quase sempre inseparável de uma sombra de culpa.
Numa dessas noites, Jacinto exprimiu o desejo de dormir comigo no meu quarto, mas eu, com o pretexto de que os vizinhos notariam a sua presença de manhã, quando ele saísse, não consenti. Na realidade, depois da primeira noite, a nossa intimidade não avançara; mas não por minha culpa. Até ao dia da nossa separação continuou a portar-se exactamente como na primeira noite. Era na verdade um homem de valor nulo ou quase nulo na intimidade, e tudo o que eu podia sentir por ele já o sentira na primeira noite, enquanto dormia. A ideia de dormir com um homem assim repugnava-me; depois receava que me aborrecesse, porque tinha a certeza de que me obrigaria a estar acordada uma parte da noite para me fazer confidências e falar-me dele. No entanto, ele não se apercebeu nem do meu aborrecimento nem da minha antipatia e partiu convencido de ter sido, durante aqueles dias, extraordinariamente simpático.
Chegou o momento do meu encontro com Gino. Aconteceram tantas coisas no decurso destes dez dias que eu tinha a impressão de que se tinham passado cem anos depois do tempo em que o via antes de ir para o atelier a fim de ganhar dinheiro e montar a minha casa e me considerava como uma noiva prestes a casar-se. Ele foi pontual e chegou à hora que lhe tinha marcado; quando subi para o carro, tive a impressão de que ele estava extremamente pálido e parecia atrapalhado. Ninguém gosta de sentir que se lhe atira à cara uma traição, mesmo o traidor mais corajoso; ao longo destes dez dias de interrupção das relações habituais ele deve ter reflectido muito e feito muitas suposições. Todavia, eu não mostrava qualquer ressentimento, e verdadeiramente não necessitava de fingir, porque o meu espírito estava tranquilo; passada a primeira dor da desilusão, a minha alma inclinava-se para uma espécie de indulgente e céptica afeição. Em resumo, ainda gostava de Gino e foi o que percebi logo que lhe deitei o primeiro olhar. Já era muito.