A Tormenta de Espadas
- Автор: Мартин Джордж Рэймонд Ричард
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Год: Leya
- ISBN: 9788580442625
- Переводчик: Jorge Candeias
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «A Tormenta de Espadas». Краткое содержание книги:
Um súbito e torturante ataque de tosse obrigou Davos a se dobrar. Salladhor Saan aproximou-se para ajudá-lo, mas, com um gesto, ele pediu que se afastasse, e após um momento se recuperou.
– Ninguém? – rouquejou. – O que quer dizer com ele não receber ninguém? – sua voz soava úmida e espessa, até mesmo aos seus ouvidos, e por um momento a cabine pareceu oscilar ao seu redor.
– Ninguém além dela – disse Salladhor Saan, e Davos não precisou perguntar o que ele queria dizer. – Meu amigo está se cansando. É de uma cama que está precisando, não de Salladhor Saan. Uma cama e muitas mantas, com uma compressa quente no peito e mais vinho e cravo.
Davos sacudiu a cabeça
– Vou ficar bem. Conte-me, Salla, preciso saber. Ninguém além de Melisandre?
O liseno lançou um longo olhar de dúvida para ele e prosseguiu com relutância.
– Os guardas estão mantendo todos os outros afastados, até sua rainha e a filhinha. Criados trazem refeições que ninguém come. – Inclinou-se para a frente e baixou a voz. – Ouvi estranhas conversas sobre fogos esfomeados dentro da montanha, e sobre como Stannis e a mulher vermelha descem juntos para observar as chamas. Há poços, dizem, e escadas secretas que descem até o coração da montanha, até lugares quentes onde só ela pode caminhar sem se queimar. É mais do que suficiente para aterrorizar um velho, a tal ponto que às vezes quase não arranja forças para comer.
Melisandre. Davos estremeceu.
– A mulher vermelha fez isso a ele – disse. – Enviou o fogo para nos consumir, para punir Stannis por tê-la posto de lado, para lhe ensinar que não tem esperança de vencer sem seus feitiços.
O liseno tirou uma gorda azeitona da tigela que se encontrava entre os dois.
– Não é o primeiro a dizer isso, meu amigo. Mas se eu fosse você, não estaria falando tão alto. Pedra do Dragão está cheia daqueles homens da rainha, ah, sim, e eles têm ouvidos aguçados e facas afiadas. – Enfiou a azeitona na boca.
– Eu também tenho uma faca. Capitão Khorane deu-me de presente. – Puxou a adaga e colocou-a na mesa, entre eles. – Uma faca para arrancar o coração de Melisandre. Se é que ela tem um.
Salladhor Saan cuspiu um caroço de azeitona.
– Davos, bom Davos, não deve andar dizendo tais coisas, nem mesmo brincando.
– Não é brincadeira. Pretendo matá-la. – Se ela puder ser morta por armas mortais. Davos não tinha certeza se isso era possível. Tinha visto o velho Meistre Cressen despejando veneno no vinho dela, viu com os próprios olhos, mas quando ambos beberam da taça envenenada, foi o meistre quem morreu, e não a sacerdotisa vermelha. Mas uma faca no coração... até os demônios podem ser mortos pelo ferro frio, segundo dizem os cantores.
– Essas são conversas perigosas, meu amigo – preveniu-o Salladhor Saan. – Acho que ainda está doente do mar. A febre cozinhou seu cérebro, sim. É melhor que vá para a cama para um longo descanso, até ficar mais forte.
Até que a minha determinação enfraqueça, você quer dizer. Davos se levantou. Realmente sentia-se febril e um pouco tonto, mas não importava.
– É um velho patife traiçoeiro, Salladhor Saan, mas um bom amigo mesmo assim.
O liseno afagou a pontiaguda barba prateada.
– Então ficará com este bom amigo, certo?
– Não, vou andando. – Tossiu.
– Andando? Olhe para si mesmo! Tosse, treme, está magro e fraco. Aonde irá andando?
– Para o castelo. Minha cama está lá, assim como o meu filho.
– E a mulher vermelha – disse Salladhor Saan com suspeita. – Ela também está no castelo.
– Ela também. – Davos voltou a enfiar a adaga na bainha.
– Você é um contrabandista de cebolas, o que sabe de ataques à surdina e punhaladas? E está doente, nem sequer consegue segurar a adaga. Sabe o que acontecerá com você, se for apanhado? Enquanto estávamos ardendo no rio, a rainha queimava traidores. Servos da escuridão, ela lhes chamou, pobres homens, e a mulher vermelha cantava enquanto as fogueiras eram acendidas.
Davos não se surpreendeu. Eu sabia, pensou, sabia antes de ele me contar.
– Tirou Lorde Sunglass das masmorras – adivinhou – e os filhos de Hubard Rambton.
– Exatamente, e queimou-os, tal como queimará você: se matar a mulher vermelha, vão queimá-lo por vingança, e se não a matar, vão queimá-lo pela tentativa. Ela cantará, e você gritará, e depois morrerá. E você acabou de voltar à vida!
– E foi esse o motivo – disse Davos. – Para fazer isso. Para pôr fim em Melisandre de Asshai e em todas as suas obras. Por que mais o mar teria me cuspido? Conhece a Baía da Água Cinzenta tão bem como eu, Salla. Nenhum capitão com bom senso levaria seu navio para passar entre as lanças do rei bacalhau, arriscando-se a ter o casco rasgado. O Dança de Shayala nunca deveria ter passado perto de mim.
– Um vento – insistiu Salladhor Saan em voz alta –, um mau vento, foi só isso. Um vento empurrou a embarcação mais para sul do que deveria.
– E quem enviou o vento? Salla, a Mãe falou comigo.
O velho liseno olhou-o pestanejando.
– Sua mãe está morta...
– A Mãe. Ela abençoou-me com sete filhos, e no entanto eu permiti que a queimassem. Ela falou comigo. Disse que nós convocamos o fogo. E também convocamos as sombras. Eu levei Melisandre, num barco a remo, até as entranhas de Ponta Tempestade e vi-a dar à luz um horror. – Ainda vislumbrava a cena em seus pesadelos, as mãos negras e descarnadas puxando as coxas da mulher enquanto se contorcia para se libertar de seu ventre inchado. – Ela matou Cressen, Lorde Renly e um homem corajoso chamado Cortnay Penrose, e também matou meus filhos. Agora é hora de alguém matá-la.
– Alguém – disse Salladhor Saan. – Sim, é isso mesmo, alguém. Mas não você. Está fraco como uma criança, e não é nenhum guerreiro. Fique, eu lhe suplico, voltaremos a conversar, você vai se alimentar, e talvez velejemos até Bravos para contratar um Homem sem Rosto para fazer essa coisa, sim? Mas isso, não, você precisa se sentar e comer.
Ele está tornando isso muito mais difícil, pensou Davos, fatigado, e já era mortalmente difícil.
– Tenho vingança nas entranhas, Salla. Não deixa espaço para comida. Agora deixe-me ir. Por nossa amizade, deseje-me sorte, e deixe-me ir.
Salladhor Saan pôs-se em pé.
– Não é um amigo verdadeiro, estou aqui pensando. Quando estiver morto, quem trará suas cinzas e ossos à senhora sua esposa e lhe dirá que perdeu um marido e quatro filhos? Só o triste e velho Salladhor Saan. Mas, que assim seja, bravo sor cavaleiro, corra para a sepultura. Irei reunir seus ossos numa sacola e os darei aos filhos que deixa para trás, para que os tragam em saquinhos em volta do pescoço. – Brandiu uma mão zangada, com anéis em todos os dedos. – Vá, vá, vá, vá, vá.
Davos não queria deixá-lo assim.
– Salla...
– VÁ. Ou melhor, fique, mas se é para ir, vá.
E foi.
A caminhada desde o Farta Colheita até os portões de Pedra do Dragão foi longa e solitária. As ruas junto às docas onde soldados, marinheiros e pessoas simples outrora se aglomeravam encontravam-se vazias e desertas. Por onde antes caminhara entre porcos grunhindo e crianças nuas, fugiam agora ratazanas. Suas pernas, sob seu corpo, pareciam feitas de pudim, e por três vezes a tosse torturou-o de tal modo que teve de parar a fim de descansar. Ninguém veio ajudá-lo, ninguém sequer espiou por uma janela para ver o que se passava. As janelas estavam fechadas, as portas trancadas e mais da metade das casas ostentava algum sinal de luto. Milhares subiram a Torrente da Água Negra, e centenas retornaram, refletiu Davos. Meus filhos não morreram sós. Que a Mãe tenha piedade de todos eles.