Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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Um minuto depois já estávamos na área. Mal tínhamos chegado ao lugar protegido pelas sombras quando ouvimos em cima os passos de um policial, andando no meio da neblina. Quando o som cadenciado desapareceu, Holmes começou a trabalhar na porta inferior. Eu o vi curvar-se e forçar a porta até que, com um estalo seco, ela se abriu. Pulamos para o interior escuro e ele a fechou. Subimos a escada em curva, sem tapete. A luz amarela de sua lanterna brilhou nos vidros de uma janela baixa.
– Aqui estamos, Watson; deve ser esta...
Abriu a janela e nessa hora ouvimos um som baixo e áspero que foi aumentando até transformar-se num rugido alto quando um trem passou por nós, na escuridão, como uma flecha. Holmes iluminou o peitoril da janela. Havia uma camada da fuligem deixada pelos trens que passavam, mas a superfície preta estava raspada e esfregada em alguns lugares.
– Veja onde eles colocaram o corpo. Ora, Watson, o que é isto? Não há dúvida de que se trata de uma marca de sangue.
Apontava a marca desbotada no peitoril.
– Aqui também, na pedra da escada. A prova está completa. Vamos ficar aqui até que pare um trem.
Não tivemos de esperar muito tempo. O trem seguinte surgiu do túnel, como o anterior, mas diminuiu depois a velocidade e então, com os freios gemendo, parou exatamente embaixo do lugar onde estávamos. A distância da janela até o teto dos vagões não era mais do que 1,5 metro, se tanto. Holmes fechou cuidadosamente a janela.
– Fomos recompensados até aqui – disse. – O que você acha, Watson?
– Uma obra-prima. Você está se superando.
– Não concordo com você. A partir do momento em que concebi a idéia de que o corpo estava no teto de um vagão, o que, afinal, não era assim tão absurdo, todo o resto foi inevitável. Se não fossem os altos interesses envolvidos, o caso até este ponto seria insignificante. Mas ainda temos dificuldades pela frente. Talvez possamos achar algo aqui que nos ajude.
Subimos a escada de serviço e entramos nos aposentos do primeiro andar. O primeiro era uma sala de jantar sobriamente mobiliada, mas que não tinha nada que nos interessasse. O segundo era um quarto de dormir, nas mesmas condições. O seguinte pareceu-nos mais promissor e meu amigo fez um exame metódico. Estava cheio de livros e papéis e, evidentemente, tinha sido usado como escritório. Com rapidez e cuidado, Holmes revistou o conteúdo de cada gaveta e de cada armário, mas não descobriu nada que animasse seu rosto austero. Ao fim de uma hora não tinha conseguido nenhum progresso.
– O cão matreiro apagou as pistas – disse. – Não deixou nada que pudesse incriminá-lo. Ele destruiu ou carregou sua correspondência comprometedora. Esta é nossa última esperança.
Era uma caixinha de estanho que estava em cima da escrivaninha. Holmes a abriu, com uma ferramenta. Dentro, vários rolos de papel, cobertos de números e cálculos, mas sem nenhuma indicação do que se tratava. A repetição das palavras “pressão da água” e “pressão por polegada quadrada” sugeria alguma possível relação com um submarino. Holmes, impaciente, jogou-os de lado. Restou apenas um envelope que continha pedacinhos de jornal. Despejou-os sobre a mesa e vi logo, pelo seu rosto ansioso, que as esperanças haviam renascido.
– O que será isto, Watson? Hein? O que será? Registro de uma série de mensagens nos anúncios de um jornal. Pelo tipo de letra e pelo papel, os classificados do Daily Telegraph. Lado superior direito de uma página. Sem datas... mas as mensagens têm seqüência. Esta deve ser a primeira:
“Esperava receber notícias mais cedo. Condições aceitas. Escreva detalhadamente para endereço fornecido no cartão.
Pierrot.”
– Em seguida temos:
“Complexo demais para entendimento. Necessito relatório completo. Grana o aguarda quando entregar mercadoria.
Pierrot.”
– Depois vem:
“Assunto pressiona. Devo retirar proposta se não cumprir contrato. Marque encontro por carta. Confirmarei em anúncio.
Pierrot.”
– E finalmente:
“Segunda à noite, depois das nove horas. Duas pancadas. Só nós. Não fique tão desconfiado. Pagamento em dinheiro vivo quando entregar mercadoria.
Pierrot.”
– Um registro bem completo, Watson! Se nós pudéssemos chegar até o homem na outra ponta!...
Sentou-se, perdido nos seus pensamentos, batendo com os dedos na mesa. Finalmente levantou-se:
– Bem, talvez não seja tão difícil, afinal de contas. Não há nada mais que possamos fazer aqui, Watson. Acho melhor irmos até a redação do Daily Telegraph para encerrar nosso trabalho de hoje.
Mycroft Holmes e Lestrade compareceram ao encontro marcado para depois do café-da-manhã, no dia seguinte, e Sherlock contou-lhes o que havíamos feito na noite anterior. O detetive profissional sacudiu a cabeça ao ouvir nossa confissão de arrombadores.
– Não podemos fazer essas coisas na polícia, sr. Holmes – disse Lestrade. – Não é de espantar que obtenha mais resultados do que nós. Mas qualquer dia desses o senhor irá longe demais e, juntamente com seu amigo, vai se meter em complicações...
– Pela Inglaterra, pelo lar e beleza... hein, Watson? Mártires no altar do país. Mas, o que você acha disso tudo, Mycroft?
– Excelente, Sherlock! Admirável! Mas o que pretende fazer com isso?
Holmes pegou o Daily Telegraph que estava em cima da mesa.
– Você viu a mensagem de Pierrot no jornal de hoje?
– O quê? Outra?
– Sim, aqui está:
“Hoje à noite. Mesma hora. Mesmo lugar. Duas pancadas. Importância vital. Sua própria segurança em jogo.
Pierrot.”
– Por Deus! – exclamou Lestrade. – Se ele comparecer, nós o pegaremos!
– Foi esta a minha idéia, quando mandei colocar o anúncio. Creio que seria melhor ambos virem conosco ali pelas oito da noite até Caulfield Gardens, onde possivelmente chegaremos mais perto de uma solução.
Uma das características mais notáveis de Sherlock Holmes era sua capacidade de afastar da cabeça a ação e concentrar todos os seus pensamentos em coisas mais leves, quando se convencia de que não podia mais fazer um trabalho proveitoso. Lembro-me de que durante a maior parte daquele dia memorável ele ficou absorvido numa monografia que estava escrevendo sobre os Moteles Polifônicos de Lassus. Eu, de minha parte, era totalmente desprovido dessa capacidade de abstração, de modo que o dia pareceu-me interminável. A grande importância nacional do assunto, o suspense nos altos escalões, a natureza da experiência que iríamos tentar – tudo se combinou para meus nervos. Foi um alívio para mim quando, finalmente, depois de um jantar leve, começamos nossa expedição.
Lestrade e Mycroft, de acordo com o combinado, encontraram-se conosco diante da estação de Gloucester Road. A porta traseira da casa de Oberstein havia ficado destrancada na noite anterior, e eu tive de entrar por ela e abrir a da frente, já que Mycroft Holmes se recusara, indignado, a pular as grades. Às nove horas nós estávamos sentados no escritório, aguardando pacientemente o nosso homem.
Passou-se uma hora, depois outra. Às 11, a batida compassada do relógio da igreja parecia soar como o naufrágio de nossas esperanças. Lestrade e Mycroft agitavam-se nos seus assentos e olhavam repetidamente para seus relógios. Holmes estava sentado quieto e calmo, as pálpebras semicerradas, mas com todos os sentidos alertas. Ao escutar um barulho, ergueu a cabeça.
– Ele vem vindo – murmurou.
Ouvimos passos furtivos do lado de fora, um arrastar de pés e depois duas batidas secas com a aldrava. Holmes se levantou, indicando-nos com um gesto que deveríamos continuar sentados. A iluminação a gás do vestíbulo nada mais era do que um fiozinho de luz. Ele abriu a porta da rua, e quando uma figura negra passou rapidamente por ele, Holmes fechou e trancou a porta.