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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Aquelas coisas medonhas estão no quarto de despejo – ela disse quando Lestrade entrou. – Gostaria que o senhor as levasse daqui imediatamente.

– Pois não, senhorita Cushing. Eu as deixei aqui para que meu amigo, sr. Holmes, as visse em sua presença.

– Por que em minha presença, senhor?

– Para o caso de ele querer fazer-lhe algumas perguntas.

– O que adianta me fazer perguntas se eu já lhe disse que nada sei a respeito disso?

– Está certo, madame – disse Holmes, conciliador. – Tenho certeza de que a senhorita já se aborreceu o suficiente com este negócio.

– De fato, senhor. Sou uma mulher pacata e vivo sozinha. É uma coisa inteiramente nova para mim ver meu nome nos jornais e ter a polícia aqui em casa. Não quero aquelas coisas aqui, sr. Lestrade. Se o senhor quiser vê-las, vá para a casinha do terreiro.

Era um compartimento apertado no pequeno jardim, na parte traseira da casa. Lestrade entrou e trouxe uma caixa de papelão amarelo, com um pedaço de papel marrom e um barbante. Havia um banco ali perto, e nós nos sentamos enquanto Holmes examinava o conteúdo que Lestrade lhe entregou.

– Este barbante é extremamente interessante – disse ele, examinando-o e cheirando-o. – O que acha disso, Lestrade?

– Foi besuntado.

– Exatamente. É um pedaço de barbante besuntado. Você também deve ter notado que a senhorita Cushing cortou o barbante com uma tesoura, o que pode ser visto pelos fiapos em cada ponta. Isto é importante.

– Não vejo por quê – disse Lestrade.

– A importância está no fato de o nó ter ficado intacto, e este nó é especial.

– Está muito apertado. Já tinha notado isso – disse Lestrade com complacência.

– Basta quanto ao barbante – disse Holmes, sorrindo. Agora, o papel do embrulho. Marrom, com forte cheiro de café. Como? Não tinha observado isso? Acho que não há dúvida a respeito disso. Endereço escrito com letras bastante irregulares: “Senhorita S. Cushing, Cross Street, Croydon”. Feito com pena de bico grosso, provavelmente uma J, e tinta vagabunda. A palavra “Croydon” foi escrita inicialmente com “i” e depois mudada para “y”. O pacote, portanto, foi mandado por um homem – e a caligrafia é tipicamente masculina – de pouca cultura e não acostumado com a cidade de Croydon. Até aqui, tudo bem! A caixa é amarela, pesa meia libra, nada tem de especial a não ser duas marcas de polegar no canto inferior esquerdo. Cheia de sal grosso, do tipo usado para conservar peles e outros produtos comerciais. E no meio dele é que está esse estranho conteúdo. – Ele tirou as duas orelhas enquanto falava e as colocou sobre uma tábua nos joelhos, examinando-as detalhadamente; eu e Lestrade, inclinados ao lado dele, olhávamos para as relíquias medonhas e para o rosto pensativo e ansioso do nosso amigo. Finalmente ele as recolocou na caixa e ficou sentado, meditando profundamente.

– Você notou, é claro – ele disse, por fim –, que as orelhas não são de uma só pessoa.

– Sim, eu tinha observado isso. Mas se isto for uma brincadeira de mau gosto de alguns estudantes da sala de dissecação, seria fácil para eles enviarem duas orelhas diferentes, como se pertencessem a uma só pessoa.

– Exatamente. Mas isto aqui não é uma brincadeira de mau gosto.

– Tem certeza?

– Tudo indica que não é. Corpos da sala de anatomia recebem injeções de um fluido conservante. Estas orelhas não o têm. São frescas, também. Foram arrancadas com um instrumento sem muito corte, o que dificilmente aconteceria se tivesse sido feito por um estudante de medicina – ele usaria o conservante líquido, não o sal grosso. Repito que nós não temos aqui uma travessura de estudantes, mas estamos frente a um crime grave.

Um vago arrepio percorreu meu corpo enquanto ouvia as palavras de meu amigo, e vi a gravidade do assunto estampada em suas feições. Este prelúdio brutal parecia lançar um horror estranho e inexplicável no passado. Lestrade, no entanto, sacudiu a cabeça como uma pessoa não inteiramente convencida.

– Há objeções à teoria da brincadeira, é claro – disse ele –, mas há razões mais fortes contra a outra. Sabemos que esta mulher levava uma vida tranqüila e respeitável em Penge e também aqui durante os últimos vinte anos. Ela quase nunca ficou fora de casa, por um dia sequer, durante esse tempo. Por que, então, um criminoso lhe enviaria as provas de sua culpa, principalmente quando ela entende tão pouco do assunto quanto nós, a não ser que seja uma atriz consumada?

– Este é o problema que nós temos de resolver – respondeu Holmes –, e de minha parte eu vou partir do pressuposto de que meu raciocínio está correto e que foi cometido um duplo assassinato. Uma destas orelhas é de mulher, pequena, delicada, furada para uso de brinco; a outra é de homem, queimada de sol, descorada e também com um furo para brinco. Provavelmente essas duas pessoas estão mortas, ou já teríamos ouvido o caso antes. Hoje é sexta-feira. O pacote foi enviado na quinta de manhã. A tragédia aconteceu, então, na terça ou na quarta, ou mesmo antes. Se as duas pessoas foram mortas, quem, a não ser o assassino, mandaria para a srta. Cushing a prova de seu crime? Podemos supor que o remetente do pacote seja o homem que queremos. Mas ele deve ter tido um motivo muito forte para enviar o pacote à srta. Cushing. Que motivo? Deve ser o de comunicar a ela que o destino se cumpriu, ou para feri-la, talvez; mas, neste caso, ela saberia quem é ele. Será que ela sabe? Duvido. Se soubesse, por que chamaria a polícia? Ela teria enterrado as orelhas e ninguém ficaria sabendo de nada. Isso é o que ela faria se quisesse proteger o criminoso. Mas, se não quisesse protegê-lo, diria seu nome. Há um nó aqui que precisa ser desfeito.

Ele estivera falando em voz alta, rapidamente, olhando absorto por cima da cerca do jardim; mas levantou-se bruscamente e se dirigiu para a casa.

– Tenho algumas perguntas a fazer à srta. Cushing.

– Neste caso, vou deixá-lo aqui – disse Lestrade –, porque tenho de cuidar de um outro assunto. Creio que nada mais tenho a ouvir da srta. Cushing. Você me encontrará na delegacia.

– Passaremos por lá quando formos pegar o trem – respondeu Holmes.

Pouco depois Holmes e eu estávamos de volta ao quarto da frente, onde a mulher, impassível, continuava trabalhando. Ela deixou o trabalho no colo quando entramos, e nos observou com os olhos azuis perscrutadores, e francos.

– Tenho certeza, senhor – disse ela –, de que tudo isso é um engano, e que o pacote, na verdade, não se destinava a mim. Já disse isso várias vezes ao cavalheiro da Scotland Yard, mas ele simplesmente ri de mim. Não tenho nem um inimigo no mundo inteiro, pelo que sei. Então, por que alguém iria pregar-me uma peça?

– Também estou chegando à mesma conclusão, srta. Cushing – disse Holmes, sentando-se ao lado dela. – Acho que é mais do que provável...

Ele fez uma pausa e eu fiquei surpreso ao ver que observava, com um interesse especial, o perfil da srta. Cushing. Pude ver, em seu rosto arguto, surpresa e satisfação, embora ele tenha readquirido sua expressão impassível quando ela se virou para ver o motivo de sua pausa. Olhei para os cabelos grisalhos dela, a touca caprichada, os brinquinhos dourados, feições calmas, e nada vi que justificasse a emoção evidente do meu amigo.

– Havia uma ou duas perguntas.

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