Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
Электронная книга - «Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]». Краткое содержание книги:
– Eles partiram, sr. Holmes. Partiram no último trem. A mulher fugiu e eu a trouxe num cabriolé.
– Excelente, Warner! – exclamou Holmes, levantando-se de um salto. – Watson, nossos problemas estão se acabando rapidamente.
A mulher estava no carro, quase inconsciente por causa de uma exaustão nervosa. Trazia, no rosto aquilino e magro, sinais de uma tragédia recente. A cabeça estava caída no peito, e quando ela a ergueu e fixou os olhos amortecidos em nós, vi que suas pupilas eram pontos negros no centro de grandes íris cinzentas. Ela tinha sido drogada com ópio.
– Fiquei de guarda no portão, como o senhor mandou, sr. Holmes – disse nosso emissário, o jardineiro despedido. – Quando a carruagem saiu, eu a segui até a estação. Ela parecia uma sonâmbula, mas quando eles tentaram empurrá-la para dentro do trem, ela acordou e lutou. Eles a arrastaram para dentro do vagão, mas ela escapou novamente. Eu a socorri e a coloquei no cabriolé, e aqui estamos nós. Jamais vou me esquecer do rosto que vi na janela do vagão quando eu a puxei. Minha vida não valeria nada se ele voltasse aqui – o olho negro, carrancudo, do diabo amarelo.
Nós a levamos para cima, até nosso aposento, e a deitamos num sofá, e alguns goles de café forte fizeram seu cérebro sair da névoa da droga. Holmes havia chamado Baynes e explicou-lhe rapidamente a situação.
– Sim senhor! Pegou a prova que eu queria – disse o inspetor com veemência, apertando a mão de meu amigo. – Eu estava desde o início na mesma pista.
– O quê? O senhor estava atrás de Henderson?
– Ora, sr. Holmes, enquanto o senhor ficava rastejando nas moitas em High Gable, eu estava em cima de uma árvore do pomar a observá-lo. Era apenas uma questão de ver quem pegaria a prova primeiro.
– Então, por que prendeu o mulato?
Baynes deu um risinho.
– Eu tinha certeza de que Henderson – como ele diz chamar-se – estava desconfiado e que ficaria quieto no mesmo lugar enquanto se sentisse seguro. Prendi o homem errado para fazê-lo crer que não estávamos na sua pista. Sabia que ele tentaria fugir e assim nos daria uma chance de chegar até a srta. Burnet.
Holmes pôs a mão no ombro do inspetor.
– O senhor vai longe na sua profissão. Tem instinto e intuição – ele disse.
Baynes corou de prazer.
– Deixei um guarda à paisana na estação durante toda a semana. Onde quer que o pessoal de High Gable vá, ele estará vigiando. Mas deve ter sido difícil para ele quando a srta. Burnet fugiu. Felizmente seu agente a pegou e está tudo bem. Não podemos efetuar nenhuma prisão sem o testemunho dela, de modo que, quanto antes obtivermos um depoimento dela, será melhor.
– Ela está melhorando rapidamente – disse Holmes, olhando para a governanta. – Mas, diga-me, Baynes, quem é Henderson?
– Henderson – respondeu o inspetor – é dom Murillo, antes conhecido como o Tigre de San Pedro.
O Tigre de San Pedro! A história completa do homem surgiu rapidamente em minha cabeça. Ele criou fama como o mais cruel e sanguinário tirano que já governou um país com a máscara de civilização. Forte, destemido e enérgico, ele conseguiu impor seus vícios hediondos a um povo amedrontado durante dez ou 12 anos. Seu nome era um terror em toda a América Central. No final daquele período houve um levante geral contra ele. Mas ele era tão cruel quanto esperto, e ao primeiro sinal de problema, transferiu em segredo seus tesouros para um navio tripulado por correligionários devotados. No dia seguinte, quando os insurretos atacaram o palácio, encontraram tudo vazio. O ditador, suas duas filhas, o secretário e sua fortuna escaparam deles. A partir daquele momento ele sumiu no mundo e sua identidade foi motivo para comentários freqüentes na imprensa européia.
– Sim, senhor, dom Murillo, o Tigre de San Pedro – disse Baynes. – Se o senhor procurar, vai descobrir que as cores de San Pedro são verde e branco, as mesmas mencionadas no bilhete, sr. Holmes. Ele diz chamar-se Henderson, mas consegui reconstituir seu roteiro desde Paris, Roma, Madri e Barcelona, onde seu navio chegou em 1886. Eles o procuraram o tempo todo para a vingança, mas somente agora conseguiram encontrá-lo.
– Eles o descobriram há um ano – disse a srta. Burnet, agora sentada e acompanhando a conversa. – Tentaram matá-lo uma vez, mas um espírito maligno o protegia. E agora de novo, Garcia, nobre e corajoso, falhou, e o monstro escapa. Mas virá um outro, e outro, até que um dia seja feita justiça; isso é tão certo como o nascer do sol.
As mãos finas da mulher se contraíram e seu rosto empalideceu de ódio.
– Mas como a senhorita veio a participar disso? – perguntou Holmes. – Como pode uma inglesa vir a participar desse caso criminoso?
– Eu me envolvi porque não existe outro modo no mundo de se fazer justiça. A lei inglesa se preocupa com o rio de sangue derramado há tanto tempo em San Pedro, ou com a riqueza que o homem roubou? Para vocês, tudo isso pode dar a impressão de crimes cometidos em outro mundo. Mas nós sabemos. Aprendemos a verdade por meio da dor e do sofrimento. Para nós não existe um demônio no inferno como Juan Murillo e nenhuma paz na vida enquanto suas vítimas ainda clamam por vingança.
– Sem dúvida ele era como a senhorita o descreveu – disse Holmes. – Eu ouvi dizer que ele era cruel. Mas como isso a atingiu?
– Vou contar-lhe tudo. A política desse bandido era matar, sob qualquer pretexto, todos os homens que tivessem a possibilidade de tornar-se um rival perigoso para ele. Meu marido – sim, meu nome verdadeiro é sra. Victor Durando – era embaixador de San Pedro em Londres. Foi lá que ele me conheceu e onde nos casamos. Jamais conheci alguém mais nobre. Infelizmente Murillo ouviu falar de suas qualidades, chamou-o de volta com um pretexto qualquer e ele foi fuzilado. Com uma premonição do seu destino, ele se recusou a levar-me com ele. Confiscaram os seus bens e eu fiquei na miséria e com o coração amargurado. Então, veio a queda do tirano. Ele fugiu, como o senhor acabou de descrever. Mas muitos daqueles cujas vidas ele arruinou, torturando e matando seus parentes, jamais deixariam o assunto esquecido. Uniram-se numa sociedade que só terminaria quando a missão fosse cumprida. Depois que descobrimos que ele era o tal de Henderson, minha missão era fazer parte da sua criadagem e manter contato com os outros, deixando-os a par de seus movimentos. Eu poderia fazer isso mantendo minha função de governanta na família. Ele mal sabia que a mulher que ele via a cada refeição era a mesma cujo marido ele mandara para a eternidade. Eu sorria para ele, cumpria minhas obrigações para com as crianças e aguardava minha vez. Em Paris, fizeram uma tentativa, mas falharam. Fugimos imediatamente, percorrendo em ziguezague toda a Europa a fim de despistar os perseguidores, e finalmente voltamos para esta casa, que ele tinha ocupado na primeira vez que veio à Inglaterra. Mas aqui também estavam esperando os emissários da justiça. Sabendo que ele voltaria para cá, Garcia, filho do mais alto dignitário em San Pedro, ficou esperando, juntamente com dois amigos fiéis, todos com os mesmos motivos para a vingança. Nada se podia fazer durante o dia, já que Murillo tomava todas as precauções e nunca saía sem seu satélite, Lucas, ou Lopez, como era conhecido nos seus dias de poder. Mas, à noite, ele dormia sozinho e o vingador poderia achá-lo. Certa noite, já programada, enviei a meus amigos instruções finais, porque o homem estava permanentemente alerta e sempre mudava de quarto. Eu tinha de verificar se as portas estavam abertas e o sinal, de luz verde ou branca na janela que dava para a alameda, era para indicar que tudo estava bem ou que a tentativa deveria ser adiada. Mas tudo deu errado conosco. De algum modo eu despertei a suspeita de Lopez, o secretário. Ele se aproximou sorrateiramente de mim por trás e me agarrou quando eu tinha acabado de escrever o bilhete. Ele e o patrão me arrastaram até o meu quarto e me acusaram de traição. Se eles soubessem como escapar das conseqüências do seu ato, teriam me matado na mesma hora. Finalmente, depois de muita discussão, chegaram à conclusão de que minha morte seria muito perigosa. Mas estavam decididos a se livrar de Garcia de uma vez por todas. Eles tinham me amarrado e Murillo torceu meu braço até eu lhe dar o endereço. Juro que eu o deixaria quebrar meu braço se eu soubesse o que aconteceria com Garcia. Lopez endereçou o bilhete que eu escrevi, selou-o com sua abotoadura e o enviou pelo criado José. Não sei como eles o mataram, a não ser que foi a mão de Murillo que o liquidou, já que Lopez ficou me vigiando. Eu acho que eles devem ter ficado esperando entre as moitas que cercam o caminho e o acertaram quando ele passou. No começo eles queriam deixá-lo entrar na casa e liquidá-lo como um assaltante comum, mas argumentaram que se eles se envolvessem num inquérito, a verdadeira identidade deles poderia tornar-se pública, e ficariam vulneráveis a ataques futuros. Com a morte de Garcia, talvez parasse a perseguição, já que essa morte poderia amedrontar outros encarregados da tarefa. Tudo estaria bem para eles agora, se não fosse o fato de eu saber o que haviam feito. Tenho certeza de que minha vida esteve em perigo muitas vezes. Estava presa no meu quarto, com ameaças terríveis, cruelmente usadas contra minha resistência para quebrá-la – vejam este golpe no meu ombro e manchas nos dois lados de meus braços –, e me amordaçaram quando, uma vez, tentei gritar da janela. Continuaram com esta prisão cruel durante cinco dias, com pouca comida para me manter de pé. Hoje eles me trouxeram um almoço suculento, mas depois que comi, percebi que tinha sido drogada. Lembro-me de que, numa espécie de transe, fui meio desfalecida até um carro; puseram-me no trem, no mesmo estado. Só aí, quando as rodas estavam quase se movendo, eu compreendi que minha liberdade estava nas minhas mãos. Pulei do trem, eles tentaram me arrastar de volta e, se não fosse a ajuda deste bom homem aqui, que me colocou no cabriolé, eu não conseguiria escapar. Agora, graças a Deus, estou livre deles para sempre.