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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Vendo que Holmes estava absorto demais para conversar, deixei de lado o jornal insosso e me recostei na cadeira, mergulhando numa divagação. De repente a voz do  meu amigo interrompeu meus pensamentos:

– Você tem razão, Watson – disse ele. – Na verdade, parece uma forma bastante absurda de se resolver uma disputa.

– Bastante absurda! – exclamei, e então eu percebi de repente que ele estava lendo os mais recônditos pensamentos de minha alma; levantei-me e olhei para ele perplexo.

– O que é isso, Holmes? – perguntei. – Isso está além de tudo o que eu posso imaginar.

Ele riu diante da minha perplexidade.

– Você se lembra – disse ele – de que há algum tempo eu li para você um trecho de uma das peças de Poe, na qual um camarada segue o raciocínio mental de seu companheiro – e você tratou o assunto como um mero exagero do autor. Quando eu lhe disse que tenho a mania de fazer a mesma coisa, você não acreditou.

– Oh, não!

– Talvez não com suas palavras, meu caro Watson, mas certamente com suas sobrancelhas. De modo que, quando você deixou o jornal de lado e começou a divagar, fiquei feliz por ter a oportunidade de ler seus pensamentos e acabar por interrompê-los, como prova de que eu estava em sintonia com você.

Mas eu ainda não estava me dando por satisfeito.

– Naquele exemplo que você me mostrou – eu disse –, o raciocinador tirou suas conclusões dos gestos do homem que ele observava. Se me lembro bem, ele tropeçou num monte de pedras, olhou para as estrelas etc. Mas eu estava aqui, sentado tranqüilamente na minha cadeira; então, que pistas eu posso ter lhe dado?

– Você está fazendo injustiça com você mesmo. As feições humanas servem para que as pessoas expressem suas emoções, e as suas são aliadas fiéis.

– Quer dizer que você leu a seqüência de meus pensamentos a partir de minhas feições?

– Suas feições e, principalmente, seus olhos. Talvez você não se lembre como começou seu devaneio.

– Não, não me lembro.

– Então vou lhe dizer. Depois de largar o jornal, gesto que chamou minha atenção, você ficou uns trinta segundos com uma expressão vazia. Então seus olhos se fixaram no retrato recém-emoldurado do general Gordon, e vi, pela alteração no seu rosto, que estava começando a seguir um pensamento. Mas ele não foi muito longe. Seus olhos se fixaram no retrato sem moldura de Henry Ward Beecher, que está em cima de seus livros, na estante. Depois olhou para a parede e o significado era óbvio. Você estava pensando que, se o retrato tivesse moldura, ele serviria para preencher o espaço vazio e fazer par com o retrato de Gordon, ali.

– Você me acompanhou maravilhosamente! – exclamei.

– Não podia estar errado até aqui. Mas aí seus pensamentos voltaram para Beecher e você franziu o cenho, como se estivesse estudando o caráter nas feições dele. Logo depois seus olhos perderam a firmeza, mas você continuou a mirar o retrato e seu rosto ficou pensativo. Você estava se lembrando dos incidentes na carreira de Beecher. Eu tinha absoluta certeza de que você não poderia fazer isso sem pensar na missão que ele levou a cabo, em nome do norte, durante a Guerra Civil, porque me recordo de que você expressou sua indignação pelo modo como ele foi recebido pelas pessoas mais barulhentas. Você se sentiu tão indignado com isso que sei muito bem que não poderia pensar em Beecher sem se lembrar disso também. Quando, pouco depois, eu vi seus olhos se afastarem do retrato, suspeitei que seu pensamento se concentrara na Guerra Civil, e quando vi que seus lábios se cerraram, seus olhos brilharam e suas mãos se crisparam, tive certeza de que você estava pensando na bravura que os dois lados mostraram naquela luta desesperada. Mas aí, de novo, seu rosto ficou sombrio; você balançou a cabeça. Estava refletindo sobre a tristeza, o horror e o desperdício de vidas. Sua mão pousou sobre seu próprio ferimento e um sorriso surgiu em seus lábios, o que me mostrou que você estava pensando no aspecto ridículo deste método de resolver questões internacionais. Nesse ponto concordei com você que fora absurdo e fiquei satisfeito em ver que minhas deduções estavam corretas.

– Totalmente! – disse eu. – E agora que explicou tudo, confesso que estou tão intrigado quanto antes.

– Foi muito superficial, meu caro Watson, asseguro-lhe. Eu não teria chamado sua atenção se você não tivesse mostrado certa incredulidade no outro dia. Mas eu tenho em mãos um probleminha cuja solução pode ser mais difícil do que meu pequeno ensaio sobre leitura de pensamentos. Você viu no jornal uma noticiazinha a respeito do conteúdo extraordinário de um pacote que foi enviado pelo correio à senhorita Cushing, de Cross Street, Croydon?

– Não, não vi nada.

– Ah, então ela lhe escapou. Passe-me o jornal. Aqui está, abaixo da coluna financeira. Será melhor você mesmo lê-la em voz alta.

Peguei o jornal que ele me devolveu e li a notícia. O título era: “Um pacote macabro”.

“A senhorita Susan Cushing, que mora em Cross Street, Croydon, foi vítima do que se pode considerar uma brincadeira particularmente revoltante, a menos que exista algo mais sinistro relacionado com o incidente. Às duas da tarde de ontem, um pacote pequeno, embrulhado com papel marrom, foi entregue pelo carteiro. Dentro havia uma caixa de papelão, cheia de sal grosso. Ao esvaziá-la, a senhorita Cushing ficou horrorizada ao encontrar duas orelhas humanas, aparentemente arrancadas há bem pouco tempo. A caixa foi enviada pelo correio de Belfast na manhã do dia anterior. Não há indicação do remetente, e o assunto é ainda mais misterioso porque a senhorita Cushing, uma senhora solteira de seus 50 anos, sempre levou uma vida reclusa e tem poucos conhecidos ou correspondentes e, assim, é um acontecimento raro para ela receber alguma coisa pelo correio. Entretanto, há alguns anos, quando ela morou em Penge, alugou quartos, na sua casa, para três jovens estudantes de medicina, dos quais ela foi obrigada a se livrar por causa dos hábitos barulhentos e irregulares deles. A polícia acredita que isso pode ter sido perpetrado contra a senhorita Cushing pelos três rapazes, que lhe deviam uma vingança e que esperavam assustá-la enviando-lhe relíquias da sala de dissecação. Essa hipótese é sustentada pelo fato de um dos estudantes ser do norte da Irlanda e, de acordo com a senhorita Cushing, de Belfast. Nesse meio-tempo, o assunto está sendo investigado pelo sr. Lestrade, um de nossos detetives mais competentes, encarregado do caso.”

– Isto quanto ao Daily Chronicle – disse Holmes quando terminei minha leitura. – Agora quanto ao nosso amigo Lestrade. Tenho um bilhete dele, desta manhã, que diz o seguinte:

Eu acho que este caso está bem na sua área de atuação. Temos esperança de esclarecê-lo, mas achamos pouco material para trabalhar no assunto. Telegrafamos, é claro, ao correio de Belfast, mas naquele dia foi entregue uma grande quantidade de pacotes e eles não têm meios de identificar este em particular, ou o remetente. A caixa pesa meia libra, é de fumo para cachimbo e não nos forneceu nenhuma pista. Parece-me que a hipótese dos estudantes é a mais plausível, mas se você tiver algumas horas livres, ficarei contente em vê-lo aqui. Estarei, durante todo o dia, na casa ou na delegacia.

– O que você acha, Watson? Poderá suportar o calor e ir comigo a Croydon, com a possibilidade de mais um caso para os seus anais?

– Eu já estava com saudade de fazer alguma coisa.

– Vai ter, então. Peça a empregada para chamar um táxi. Estarei pronto em um minuto, assim que trocar minha roupa e encher a cigarreira.

Choveu enquanto estávamos no trem e o calor estava mais suportável em Croydon do que em Londres. Holmes havia mandado um telegrama, de modo que Lestrade, firme, ativo e atento, como sempre, estava nos esperando na estação. Andamos durante cinco minutos até Cross Street, onde morava a senhorita Cushing. Era uma rua comprida, de casas com fachadas de tijolos, dois andares, elegantes e bem conservadas, com degraus de pedra, e havia pequenos grupos de mulheres de avental conversando nas portas das casas. Lestrade parou na metade da rua e bateu em uma porta, e uma empregada a abriu. A senhorita Cushing estava sentada no quarto da frente, para onde fomos levados. Era uma mulher de rosto plácido, com olhos grandes e suaves, cabelos grisalhos em ondas que desciam pelas fontes. Tinha no colo uma cobertura para poltrona e uma cesta com fios de seda multicolorida estava num banquinho ao seu lado.

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