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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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Não era a vida com que sonhara, mas era vida. E tudo que tinha de fazer para conquistá-la era confiar no pai, erguer-se em suas pequenas pernas deformadas e dizer: “Sim, fui eu, confesso”. Essa era a parte que lhe dava nós nas entranhas. Quase desejava realmente ter cometido o ato de que era acusado, uma vez que parecia que teria de sofrer por ele fosse como fosse.

– Senhor? – disse Podrick Payne. – Eles estão aqui, senhor. Sor Addam. E os homens de manto dourado. Estão à espera lá fora.

– Pod, diga-me a verdade... acha que fui eu?

O rapaz hesitou. Quando tentou falar, não conseguiu emitir mais do que um fraco perdigoto.

Estou perdido. Tyrion suspirou.

– Não precisa responder. Foi um bom escudeiro para mim. Melhor do que eu merecia. Aconteça o que acontecer, agradeço por seus leais serviços.

Sor Addam Marbrand esperava à porta com seis homens de manto dourado. Nada tinha a dizer naquela manhã, aparentemente. Outro homem bom que julga que sou um assassino de familiares. Tyrion armou-se de toda a dignidade que conseguiu arranjar e bamboleou-se escadas abaixo. Sentia todos a observá-lo enquanto cruzava o pátio; os guardas nas muralhas, os palafreneiros junto aos estábulos, os ajudantes de cozinha, as lavadeiras e as criadas. Dentro da sala do trono, cavaleiros e fidalgos afastaram-se para deixá-los passar e murmuraram aos ouvidos de suas senhoras.

Assim que Tyrion ocupou seu lugar perante os juízes, outro grupo de homens de manto dourado introduziu Shae na sala.

Uma mão fria apertou-se em volta de seu coração. Varys traiu-a, pensou. Então lembrou-se. Não. Eu mesmo a traí. Devia tê-la deixado com Lollys. Claro que iriam interrogar as aias de Sansa, eu faria o mesmo. Tyrion esfregou a cicatriz lisa que tinha onde estivera o nariz, perguntando a si mesmo por que Cersei teria se dado ao trabalho. Shae não sabe nada que possa me prejudicar.

– Eles planejaram o ato juntos – disse ela, aquela garota que ele amava. – O Duende e a Senhora Sansa planejaram isso depois de o Jovem Lobo ter morrido. Sansa queria vingança pelo irmão e Tyrion pretendia ficar com o trono. Ia matar a irmã em seguida, e depois o senhor seu pai, para poder se tornar Mão do Príncipe Tommen. Mas um ano ou dois mais tarde, antes de Tommen crescer demais, ia matá-lo também, para pôr a coroa na cabeça.

– Como pode saber tudo isso? – perguntou o Príncipe Oberyn. – Por que o Duende iria contar esses planos à aia da esposa?

– Ouvi uma parte, senhor – disse Shae –, e a senhora também deixou escapar algumas coisas. Mas a maior parte ouvi dos lábios dele. Não era só aia da Senhora Sansa. Fui a prostituta dele, durante todo o tempo que passou em Porto Real. Na manhã do casamento, ele arrastou-me pro lugar onde guardam os crânios de dragão e fodeu-me ali, com os monstros por toda a volta. E quando eu chorei, ele disse que devia ser mais grata, que não era qualquer moça que podia se tornar prostituta do rei. Foi aí que ele me contou como pretendia tornar-se rei. Disse que o pobre Joffrey nunca ia conhecer a noiva como ele tava me conhecendo. – Ela então começou a soluçar. – Nunca quis ser uma prostituta, senhores. Estava noiva. Ele era um escudeiro, um rapaz bom e corajoso, de bom nascimento. Mas o Duende viu-me no Ramo Verde e pôs o rapaz com quem eu queria casar na primeira fila da vanguarda, e depois de ele ser morto ordenou aos selvagens que me levassem à sua tenda. Shagga, o grande, e Timett, com o olho queimado. Ele disse que se não lhe desse prazer, me entregava a eles, e portanto eu dei. Depois trouxe-me pra cidade, pra ficar por perto quando ele me quisesse. Obrigou-me a fazer coisas tão vergonhosas...

O Príncipe Oberyn pareceu curioso.

– Que tipo de coisas?

– Coisas indescritíveis. – Enquanto as lágrimas rolavam lentamente por aquele rosto bonito, não havia dúvida de que todos os homens presentes no salão desejavam tomar Shae nos braços e confortá-la. – Com a boca e... outras partes do corpo, senhor. Todas as partes. Ele usou-me de todas as maneiras que há e... costumava me obrigar a dizer como ele era grande. O meu gigante, eu tinha de lhe chamar, o meu gigante de Lannister.

Osmund Kettleblack foi o primeiro a rir. Boros e Meryn juntaram-se a ele, e depois Cersei, Sor Loras e mais senhores e senhoras do que conseguia contar. A súbita rajada de hilaridade ressoou nas vigas e sacudiu o Trono de Ferro.

– É verdade – protestou Shae. – O meu gigante de Lannister. – As gargalhadas tornaram-se duas vezes mais ruidosas. A boca deles se torceu de diversão, as barrigas balançavam. Alguns riam tanto que expeliam ranho das narinas.

Salvei-os a todos, pensou Tyrion. Salvei esta cidade vil e todas as suas vidas sem valor. Havia centenas de pessoas na sala do trono, todas elas rindo, menos o pai de Tyrion. Ou pelo menos era o que parecia. Até a Víbora Vermelha riu alto, e Mace Tyrell parecia a ponto de estourar, mas Lorde Tywin Lannister permanecia sentado no meio deles como se fosse feito de pedra, com os dedos juntos por baixo do queixo.

Tyrion avançou.

SENHORES! – gritou. Tinha de gritar, para ter alguma esperança de ser ouvido.

O pai levantou uma mão. Pouco a pouco, o salão voltou ao silêncio.

– Levem esta puta mentirosa para longe de minha vista – disse Tyrion – e eu darei a vocês a sua confissão.

Lorde Tywin assentiu, fez um gesto. Shae pareceu meio aterrorizada quando os homens de manto dourado a cercaram. Seus olhos encontraram-se com os de Tyrion quando ela foi levada do salão. Teria sido vergonha o que viu neles, ou medo? Perguntou a si mesmo o que Cersei lhe teria prometido. Receberá o ouro ou as joias, o que quer que tenha pedido, pensou enquanto via as costas dela se afastando, mas antes da volta da lua ela vai ter você entretendo os homens de manto dourado em suas casernas.

Tyrion ergueu o olhar para os olhos duros e verdes do pai, com as suas manchas de ouro frio e brilhante.

– Sou culpado – disse –, tão culpado. É isso o que querem ouvir?

Lorde Tywin nada disse. Mace Tyrell assentiu. O Príncipe Oberyn pareceu moderadamente desapontado.

– Admite ter envenenado o rei?

– Nada disso – disse Tyrion. – Da morte de Joffrey sou inocente. Sou culpado de um crime mais monstruoso. – Deu um passo na direção do pai. – Nasci. Sobrevivi. Sou culpado de ser um anão, confesso. E independentemente de quantas vezes o meu bondoso pai tenha me perdoado, persisti na minha infâmia.

– Isso é uma loucura, Tyrion – declarou Lorde Tywin. – Fale do assunto que aqui nos traz. Não está sendo julgado por ser um anão.

– É aí que está errado, senhor. Estive sendo julgado por ser um anão minha vida toda.

– Não tem nada a dizer em sua defesa?

– Nada a não ser isto: não fui eu. Mas agora desejava ter sido. – Virou-se para enfrentar o salão, aquele mar de rostos pálidos. – Gostaria de ter veneno suficiente para todos vocês. Fazem-me lamentar não ser o monstro que gostariam que fosse, mas aí está. Sou inocente, mas aqui não obterei justiça. Não me deixam alternativa exceto apelar aos deuses. Exijo julgamento pela batalha.

– Perdeu o juízo? – disse o pai.

– Não, encontrei-o. Exijo julgamento pela batalha!

Sua querida irmã não podia estar mais satisfeita.

– Ele tem esse direito, senhores – lembrou aos juízes. – Deixem que os deuses julguem. Sor Gregor Clegane lutará por Joffrey. Ele retornou à cidade anteontem à noite, a fim de colocar a sua espada a meu serviço.

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