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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Sr. Sherlock Holmes?

Meu amigo inclinou-se.

– Estive na Scotland Yard, sr. Holmes. Conversei com o inspetor Stanley Hopkins. Aconselhou-me a procurá-lo. Disse que o caso, pelo que lhe parecia, estava mais em sua linha do que na da polícia oficial.

– Por favor, sente-se e me fale do assunto.

– É terrível, sr. Holmes – simplesmente terrível! Não sei como meus cabelos não estão grisalhos. Godfrey Staunton – já ouviu falar dele, não? É simplesmente o pivô do nosso time. Gostaria de perder dois e ter Godfrey na minha linha de three-quarter. Quando está passando, arremessando ou driblando, não há ninguém que se compare a ele; e então, ele sumiu, e pode destruir todos nós. O que devo fazer? É o que lhe pergunto, sr. Holmes. Há o Moorhouse, primeiro reserva, mas ele é treinado para ser zagueiro, e sempre penetra pela direita no scrum, em vez de ficar fora, ao longo da linha lateral. É um ótimo place-kick, é verdade, mas não tem nenhum bom senso, e não consegue disparar de jeito algum. Ora, Morton ou Johnson, os volantes de Oxford, poderiam driblá-lo. Stevenson é bastante rápido, mas não poderia chutar da linha 25, e um three-quarter que não consegue pegar a bola no ar não merece um lugar no time. Não, sr. Holmes, estamos derrotados, a menos que me ajude a encontrar Godfrey Staunton.

Meu amigo ouvira com divertida surpresa este longo relato, despejado com extraordinário vigor e convicção, cada ponto sendo acompanhado do tapinha de uma mão forte sobre o joelho do narrador. Quando nosso visitante se calou, Holmes estendeu a mão e pegou a letra “S” de seu livro de citações. Pela primeira vez procurou em vão naquela mina de informações variadas.

– Existe um Arthur H. Staunton, o jovem ferreiro em ascensão – disse – e havia Henry Staunton, a quem ajudei a enforcar, mas Godfrey Staunton é um nome novo para mim.

Foi a vez de o nosso visitante parecer surpreso.

– Ora, sr. Holmes, pensei que soubesse das coisas – disse. – Suponho, então, que se nunca ouviu falar de Godfrey Staunton, não conhece também Cyril Overton?

Holmes concordou, bem-humorado.

– Ora! – exclamou o atleta. – Eu fui o primeiro reserva da Inglaterra contra Nova Gales do Sul, e dirigi o time da universidade durante este ano inteiro. Mas isso não é nada! Não pensei que houvesse uma única alma na Inglaterra que não conhecesse Godfrey Staunton, o craque three-quarter, em Cambridge, Blackheath e de cinco Internacionais. Meu Deus! sr. Holmes, onde tem vivido?

Holmes sorriu diante do assombro ingênuo do jovem gigante.

– O senhor vive num mundo diferente do meu, sr. Overton – mais cândido e saudável. Minhas ramificações se estenderam a muitos setores da sociedade, mas nunca, fico feliz em dizer, ao esporte amador, que é a melhor coisa da Inglaterra, e a mais sólida. Contudo, sua visita inesperada esta manhã mostra-me que, mesmo nesse mundo de ar puro e belos jogos, pode haver trabalho para mim. Portanto, agora, meu caro senhor, peço-lhe que se sente e me conte, devagar e com calma, exatamente o que aconteceu, e como deseja que o ajude.

O rosto do jovem Overton adquiriu o aspecto enfastiado do homem que está mais acostumado a usar seus músculos do que suas faculdades mentais; mas por etapas, com muitas repetições e partes obscuras que omitirei nesta narrativa, colocou diante de nós a sua história.

– Foi assim, sr. Holmes. Como já disse, sou o técnico do time de rúgbi da universidade de Cambridge, e Godfrey Staunton é o meu melhor homem. Amanhã jogaremos contra Oxford. Ontem, fomos todos para lá, e nos instalamos no hotel particular de Bentley. Às 22 horas dei uma volta e cuidei para que todos os rapazes fossem para a cama, pois acredito em treinamento rigoroso e muito sono para manter um time em forma. Troquei uma palavra ou duas com Godfrey antes que ele entrasse. Ele me pareceu pálido e aborrecido. Perguntei-lhe qual era o problema. Disse-me que estava bem – apenas um pouco de dor de cabeça. Desejei-lhe boa-noite e o deixei. Meia hora depois, o porteiro contou-me que um sujeito mal-encarado, com uma barba, apareceu com um bilhete para Godfrey. Ele não tinha se deitado, e o bilhete foi levado ao seu quarto. Godfrey o leu e caiu em uma cadeira como se tivesse levado uma machadada. O porteiro ficou tão apavorado que ia me chamar, mas Godfrey o impediu, tomou um gole de água, e se recompôs. Depois desceu, disse algumas palavras ao homem que esperava no saguão, e os dois saíram juntos. A última vez que o porteiro os viu, estavam quase correndo pela rua, na direção de Strand. Esta manhã o quarto de Godfrey estava vazio, sua cama não estava desarrumada e suas coisas foram encontradas do mesmo jeito que tinham sido vistas no dia anterior. Saíra rapidamente com esse estranho e desde então não se ouviu mais nada sobre ele. Não creio que volte. Godfrey era um esportista até a medula dos ossos, e não teria interrompido seus treinamentos e deixado seu treinador se não fosse por um motivo muito forte para ele. Não, sinto que ele foi embora para sempre e nunca mais o veremos de novo.

Sherlock Holmes ouviu com a mais profunda atenção esta narrativa singular.

– O que fez então? – perguntou.

– Telegrafei para Cambridge para saber se tinham alguma notícia dele por lá. Ninguém o viu.

– Ele poderia ter voltado para Cambridge?

– Sim, há um trem que sai às 23:15h.

– Mas, pelo que soube, ele não o tomou?

– Não, não foi visto lá.

– O que fez depois?

– Telegrafei a lorde Mount-James.

– Por que a lorde Mount-James?

– Godfrey é órfão, e lorde Mount-James é seu parente mais próximo – seu tio, eu acho.

– Certo. Isto lança uma luz nova sobre o caso. Lorde Mount-James é um dos homens mais ricos da Inglaterra.

– Foi o que ouvi Godfrey dizer.

– E seu amigo era muito ligado a ele?

– Sim, era o herdeiro dele, e o velho está quase com 80 anos – e doente, também. Dizem que podia passar giz no seu taco de bilhar com os nós dos dedos. Nunca deu a Godfrey 1 xelim em sua vida, pois é um completo miserável, mas tudo virá para ele, com certeza.

– Conhece lorde Mount-James?

– Não.

– Que motivo teria seu amigo para ir procurá-lo?

– Bem, alguma coisa o estava preocupando na noite anterior, e se tivesse relação com dinheiro, é possível que fosse procurar o parente mais próximo, que tinha tanto, embora, pelo que tenho ouvido, não teria muita possibilidade de consegui-lo. Godfrey não gostava muito do velho. Não iria se pudesse evitar.

– Ora, ora, logo poderemos verificar isso. Se seu amigo foi procurar seu parente, lorde Mount-James, você então tem de explicar a visita desse sujeito mal-encarado tão tarde da noite, e a agitação que sua chegada provocou.

Cyril Overton pôs as mãos na cabeça. – Não tenho a menor idéia – disse.

– Bem, tenho o dia vago, e gostaria de examinar o caso – disse Holmes. – Devo recomendar-lhe com veemência que faça seus preparativos para o jogo sem nenhuma referência a este jovem cavalheiro. Deve ter sido, como diz, uma necessidade imperiosa que o fez partir dessa maneira, e a mesma necessidade talvez o conserve lá. Vamos juntos até o hotel para ver se o porteiro pode acrescentar alguma informação nova sobre o assunto.

Sherlock Holmes era um mestre na arte de obter a confiança de uma testemunha humilde, e logo, na privacidade do quarto abandonado de Godfrey Staunton, extraiu dele tudo o que tinha para contar. O visitante da noite anterior não era um cavalheiro, nem um operário. Era simplesmente o que o porteiro descreveu como “um sujeito de aparência comum”, 50 anos, barba grisalha, rosto pálido, vestido com discrição. Parecia agitado. O porteiro notou que suas mãos tremiam quando lhe entregou o bilhete. Godfrey Staunton meteu o bilhete no bolso. Staunton não apertou a mão do homem no saguão. Trocaram algumas frases, das quais ele só distinguiu uma única palavra: “tempo”. Então correram para fora do jeito já descrito. Eram 22:30h pelo relógio do saguão.

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