Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Sim – disse –, eu o esclareci.
Stanley Hopkins e eu o encaramos, espantados. Algo parecido com escárnio surgiu no rosto magro do velho professor.
– Verdade! No jardim?
– Não, aqui.
– Aqui! Quando?
– Neste momento.
– Com certeza está brincando, sr. Sherlock Holmes. Obriga-me a dizer-lhe que este é um assunto sério demais para ser tratado dessa maneira.
– Imaginei e testei cada elo de minha cadeia, professor Coram, e estou certo de que faz sentido. Quais são os seus motivos, ou que papel exatamente o senhor desempenha neste estranho negócio, ainda não posso dizer. Dentro de alguns minutos provavelmente ouvirei de seus próprios lábios. Enquanto isso, reconstituirei o passado para ajudá-lo, pois o senhor pode saber qual a informação de que ainda preciso.
– Uma dama entrou ontem em seu escritório. Veio com a intenção de pegar certos documentos que estavam no móvel da sua escrivaninha. Ela trouxe sua própria chave. Tive a oportunidade de examinar a sua, e não encontrei a ligeira descoloração que o arranhão feito no verniz teria provocado. O senhor, portanto, não era um cúmplice, e ela veio sem o seu conhecimento, segundo tudo indica, para roubá-lo.
O professor soprou uma nuvem de seus lábios. – Isto é muito interessante e instrutivo – disse. – Não tem mais nada a acrescentar? Com certeza, sabendo tanto sobre essa dama, pode dizer também o que foi feito dela.
– Tentarei fazer isso. Em primeiro lugar, ela foi apanhada por seu secretário, e o atacou para escapar. Estou inclinado a considerar esta catástrofe um acidente infeliz, porque estou convencido de que a dama não tinha intenção de provocar um ferimento tão grave. Um assassino não vem desarmado. Horrorizada com o que havia feito, fugiu rapidamente do local da tragédia. Infelizmente para ela, perdera seu pincenê durante a luta, e, como era muito míope, ficava realmente indefesa sem ele. Fugiu por um corredor, que pensava ser aquele por onde tinha vindo – ambos eram forrados de esteiras de coqueiro – e só quando era tarde demais percebeu ter entrado no corredor errado, e que sua retaguarda estava bloqueada. O que podia fazer? Não podia voltar. Não podia ficar parada onde estava. Tinha de continuar. Continuou. Subiu uma escada, abriu uma porta e viu-se no seu quarto.
O velho sentou-se boquiaberto, encarando Holmes com selvageria. Surpresa e medo estampavam-se em sua expressão. Depois, com esforço, deu de ombros e explodiu num riso falso.
– Está tudo muito bem, sr. Holmes – disse. – Mas há uma pequena falha nesta sua esplêndida teoria. Eu estava no quarto, e não saí durante o dia inteiro.
– Estou sabendo disso, professor Coram.
– E quer dizer que eu poderia ficar deitado naquela cama e não perceber que uma mulher entrara no meu quarto?
– Nunca disse isso. O senhor estava ciente disso. Falou com ela. Reconheceu-a. Ajudou-a a fugir.
Novamente o professor explodiu num riso nervoso. Levantara-se, e seus olhos brilhavam como brasas.
– Está louco! – exclamou. – Está falando de modo insano. Ajudei-a a fugir? Onde ela está agora?
– Está ali – disse Holmes, e apontou para um armário alto no canto do quarto.
Vi o velho jogar os braços para o alto, uma convulsão terrível passou por seu rosto feroz, e ele caiu na cadeira. No mesmo instante, o armário para o qual Holmes apontara se abriu, girando sobre os gonzos, e uma mulher saiu rapidamente para o quarto. – O senhor está certo! – ela gritou, num estranho sotaque estrangeiro. – Está certo! Eu estou aqui.
Estava marrom de poeira, e coberta com as teias de aranha das paredes de seu esconderijo. Seu rosto também estava manchado de sujeira, mas, mesmo sem isso, não poderia ter sido bonita, pois tinha exatamente as características físicas que Holmes adivinhara, com o acréscimo de um queixo comprido e obstinado. Por causa de sua cegueira natural e com a mudança da escuridão para a claridade, ela ficou parada como se estivesse aturdida, piscando e tentando ver onde estávamos e quem éramos. E mesmo assim, apesar de todas essas desvantagens, havia certa nobreza em sua postura – uma graça no queixo arrogante e na cabeça erguida, que inspirava certo respeito e admiração.
Stanley Hopkins pôs a mão no braço dela e a intimou como sua prisioneira, mas ela o afastou com delicadeza, e ainda assim com uma dignidade irresistível que provocava obediência. O velho recostou-se em sua cadeira com o rosto trêmulo e a encarou com olhos melancólicos.
– Sim, senhor, sou sua prisioneira – ela disse. – De onde estava eu pude ouvir tudo e sei que conhecem a verdade. Confesso tudo. Fui eu quem matou o rapaz. Mas o senhor está certo, o senhor que disse ter sido um acidente. Nem sabia que era uma faca o que eu tinha apanhado porque no meu desespero peguei qualquer coisa da mesa e o ataquei para que me deixasse ir embora. É a verdade o que estou dizendo.
– Madame – disse Holmes –, tenho certeza de que é a verdade. Temo que a senhora não esteja passando bem.
Ela estava com uma cor horrível, ainda mais pálida sob as manchas de poeira escuras em seu rosto. Sentou-se de um lado da cama; depois se reanimou.
– Tenho pouco tempo aqui – disse – mas gostaria que soubessem de toda a verdade. Sou a esposa deste homem. Ele não é inglês. É russo. Não direi seu nome.
Pela primeira vez o velho se manifestou. – Deus a abençoe, Anna! – exclamou. – Deus a abençoe!
Ela lançou um olhar de profundo desdém na direção dele. – Por que se apega tanto a essa sua vida miserável, Sergius? – disse. – Fez mal a muitos e nenhum bem a ninguém, nem mesmo a você. Mas não serei eu que farei arrebentar esta corda frágil antes que Deus o permita. Já tenho muito peso em minha alma desde que cruzei a soleira desta casa maldita. Mas eu preciso falar, ou será tarde demais.
– Já disse, cavalheiros, que sou a esposa deste homem. Ele tinha 50 anos e eu era uma garota boba de 20 quando nos casamos. Foi numa cidade da Rússia, uma universidade – não direi o nome do lugar.
– Deus a abençoe, Anna! – murmurou o velho de novo.
– Éramos reformistas – revolucionários – niilistas, o senhor entende. Ele, eu e muitos outros. Então vieram tempos de dificuldades, um delegado de polícia foi morto, muitos foram presos, queriam provas, e para salvar a própria vida e ganhar uma grande recompensa, meu marido traiu sua própria esposa e seus companheiros. Sim, fomos todos presos por causa da confissão dele. Alguns de nós foram para a forca e outros, para a Sibéria. Eu estava entre estes últimos, mas minha pena não era perpétua. Meu marido veio para a Inglaterra com seus ganhos ilícitos e viveu em paz desde então, tendo consciência de que, se a irmandade soubesse onde ele estava, não demoraria nem uma semana para fazer justiça.
O velho esticou uma mão trêmula e pegou um cigarro. – Estou em suas mãos, Anna – disse. – Sempre foi muito boa para mim.
– Ainda não contei o tamanho da sua infâmia – disse ela. – Entre nossos companheiros da Ordem, havia um que era meu melhor amigo. Era nobre, generoso, bondoso – tudo o que meu marido não era. Odiava violência. Éramos todos culpados – se isto era culpa – mas ele não o era. Sempre nos escrevia tentando nos dissuadir dessa causa. Estas cartas o teriam salvado. Meu diário também, no qual, dia após dia, contara meus sentimentos em relação a ele e a opinião de cada um de nós. Meu marido encontrou e guardou tudo, o diário e as cartas. Escondeu-os e tentou por todos os meios tirar a vida do rapaz. Não conseguiu, mas Alexis foi mandado preso para a Sibéria, onde agora, neste momento, trabalha numa mina de sal. Pense nisso, seu vilão, seu vilão!... agora, agora, neste exato momento, Alexis, um nome que você não merece pronunciar, trabalha e vive como um escravo, e ainda assim tenho sua vida em minhas mãos e o deixarei ir.