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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Meu Deus, é maravilhoso! – exclamou Hopkins, num êxtase de admiração. – E pensar que tive todas essas evidências nas mãos e nunca soube disso! Mas eu pretendia percorrer todos os oculistas de Londres.

– É claro que vai. Enquanto isso, tem mais alguma coisa para nos contar sobre o caso?

– Nada, sr. Holmes. Creio que agora o senhor sabe tanto quanto eu – talvez mais. Andamos investigando para saber se algum estranho foi visto nas estradas do campo ou na estação ferroviária. Não ouvimos falar de ninguém. O que me incomoda é a completa falta de motivo para o crime. Ninguém consegue sugerir nem uma idéia de motivo para ele.

– Ah! aí não estou em condição de ajudá-lo. Mas suponho que quer a nossa presença lá amanhã.

– Se não for pedir demais, sr. Holmes. Há um trem de Charing Cross para Chatham às seis horas, e estaremos em Yoxley Old Place entre oito e nove horas.

– Então iremos nele. Seu caso com certeza tem alguns aspectos muito interessantes, e gostaria de examiná-lo. Bem, já é quase uma hora, e seria melhor dormirmos algumas horas. Creio que pode se ajeitar muito bem no sofá em frente ao fogo. Acenderei minha lâmpada a álcool, e lhe darei uma xícara de café antes de sairmos.

A tempestade havia desaparecido no dia seguinte, mas a manhã estava fria quando começamos nossa viagem. Vimos o frio sol de inverno aparecer por sobre os pântanos do Tâmisa e os trechos longos e sombrios do rio, que sempre associarei à nossa perseguição ao homem da ilha Andama do início de nossa carreira. Após uma viagem longa e cansativa, chegamos a uma pequena estação que ficava a alguns quilômetros de Chatham. Enquanto atrelavam um cavalo numa charrete na estalagem local, tomamos um rápido café-da-manhã, de modo que estávamos prontos para o caso quando finalmente chegamos em Yoxley Old Place. Um policial veio ao nosso encontro no jardim.

– Bem, Wilson, alguma novidade?

– Não, senhor – nada.

– Nenhuma informação sobre algum estranho?

– Não, senhor. Lá na estação eles têm certeza de que nenhum estranho chegou ou saiu ontem.

– Fizeram pesquisas nos hotéis e pensões?

– Sim, senhor; não há ninguém que possa nos ajudar.

– Bem, é apenas uma curta caminhada até Chatham. Qualquer um pode ficar lá ou tomar o trem sem ser visto. Este é o caminho do jardim de que lhe falei, sr. Holmes. Dou-lhe minha palavra de que não havia nenhuma marca aqui ontem.

– De que lado estavam as marcas na grama?

– Deste lado, senhor. Esta estreita faixa de grama entre o caminho e o canteiro de flores. Não vejo as marcas agora, mas elas eram visíveis ontem.

– Sim, sim, alguém passou por aqui – disse Holmes, inclinando-se sobre a faixa de grama. – Nossa dama deve ter dado seus passos com cuidado, já que de um lado ela teria deixado pegadas no caminho, e no outro, uma trilha ainda mais nítida no canteiro fofo.

– Sim, senhor, ela deve ter mantido a calma.

Vi uma expressão atenta passar no rosto de Holmes.

– Disse que ela deve ter voltado por este caminho?

– Sim, senhor, não há outro.

– Nesta faixa de grama?

– Certamente, sr. Holmes.

– Hum! Foi uma atitude bem estranha – bem estranha. Mas acho que já esgotamos tudo aqui no caminho. Vamos adiante. Este portão do jardim costuma ficar aberto, suponho? Então nosso visitante tinha apenas de entrar. A idéia de assassinato não estava em sua mente, do contrário teria trazido alguma arma em vez de pegar aquela faca na escrivaninha. Avançou por este corredor sem deixar nenhum vestígio nestas esteiras de coqueiro. Depois chegou ao escritório. Quanto tempo ficou ali? Não temos meios de saber.

– Não mais que alguns minutos, senhor. Esqueci de lhe dizer que a sra. Marker, a governanta, esteve aqui fazendo a limpeza pouco tempo antes – cerca de 15 minutos, diz ela.

– Bem, isto nos dá um limite. Nossa dama entra neste cômodo, e o que faz? Vai até a escrivaninha. Para quê? Não por causa de alguma coisa nas gavetas. Se houvesse ali algo de valor para ela, certamente estaria trancado. Não, era alguma coisa no armário de madeira. Ei, o que é este arranhão na sua superfície? Acenda um fósforo, Watson. Por que não me falou disto, Hopkins?

A marca que estava examinando começava na parte de bronze no lado direito da fechadura e se estendia por cerca de 8 centímetros, onde arranhara o verniz da superfície.

– Eu o notei, sr. Holmes, mas sempre existem arranhões ao redor de uma fechadura.

– Este é recente, bem recente. Veja como o bronze brilha no lugar onde foi arranhado. Um arranhão mais antigo teria a mesma cor da superfície. Observe com a minha lente. Ali está o verniz, também, como terra de cada lado de um sulco. A sra. Marker está aí?

Uma mulher idosa, de fisionomia triste, entrou no escritório.

– Tirou o pó desta secretária ontem de manhã?

– Sim, senhor.

– Notou este arranhão?

– Não senhor, não notei.

– Tenho certeza de que não, pois um espanador teria removido estas lascas de verniz. Quem tem a chave deste armário?

– O professor a guarda na corrente de seu relógio de bolso.

– É uma chave simples?

– Não, senhor, é uma chave do tipo Chubb.

– Muito bem, sra. Marker, pode ir. Agora estamos fazendo algum progresso. Nossa dama entra no quarto, vai até o armário, e o abre, ou, pelo menos, tenta. Enquanto está concentrada nisso, o jovem Willoughby Smith entra no aposento. Na sua pressa para tirar a chave, faz este arranhão na porta. Ele a vê, e ela pega o objeto mais próximo, que por acaso era aquela faca, e o ataca para dominá-lo. O golpe é fatal. Ele cai e ela foge, com ou sem o objeto que viera buscar. Susan, a empregada, está aqui? Alguém poderia ter saído por aquela porta depois que você ouviu o grito, Susan?

– Não, senhor, é impossível. Antes de descer as escadas, não vi ninguém no corredor. Além disso, a porta não foi aberta, do contrário eu teria escutado.

– Isto determina a saída. Então não há dúvida de que a dama saiu por onde entrou. Soube que este outro corredor dá apenas para o quarto do professor. Há alguma saída por ali?

– Não, senhor.

– Iremos por ele e tomaremos o depoimento do professor. Ei, Hopkins! isto é muito importante, muito importante mesmo. O corredor do professor também

é forrado com esteiras de coqueiro.

– Bem, senhor, o que tem isto?

– Não vê nenhuma ligação com o caso? Bem, bem, não vou insistir nisso. Sem dúvida estou enganado. Mesmo assim me parece sugestivo. Venha comigo e me apresente.

Atravessamos o corredor, que era do mesmo comprimento do que dava no jardim. No final havia um pequeno lance de escada que terminava numa porta. Nosso guia bateu e depois fez-nos entrar no quarto do professor.

Era um aposento muito grande, cercado de grande quantidade de livros que transbordavam das prateleiras e estavam empilhados nos cantos, ou por todo lado, em caixas. A cama ficava no centro do quarto, e nela, recostado em travesseiros, estava o dono da casa. Raras vezes vi uma pessoa tão estranha. Era um rosto fino e descarnado o que estava virado para nós, com olhos escuros penetrantes que brilhavam em buracos fundos sob as sobrancelhas cerradas e salientes. Os cabelos e a barba eram brancos, mas esta era curiosamente mesclada de amarelo ao redor da boca. Um cigarro queimava em meio ao emaranhado de cabelos brancos, e o ar do quarto estava fétido por causa do acúmulo da fumaça de tabaco. Ao esticar a mão para Holmes, percebi que ela também estava amarelada de nicotina.

– É um fumante, sr. Holmes? – perguntou, falando um inglês caprichado, com um curioso sotaque afetado. – Por favor, pegue um cigarro. E o senhor? Posso recomendá-los, pois são preparados especialmente por Ionides, de Alexandria. Ele me manda mil de cada vez, e sinto dizer que preciso encomendar um novo suprimento a cada quinzena. Mau, senhor, muito mau, mas um velho tem poucos prazeres. O fumo e o meu trabalho – é tudo o que me resta.

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