Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Deixe-me ver – disse Holmes, sentando-se na cama de Staunton. – É o porteiro diurno, não?
– Sim, senhor, deixo meu trabalho às 23 horas.
– O porteiro noturno não viu nada, suponho?
– Não, senhor, um grupo de teatro chegou tarde. Ninguém mais.
– Esteve trabalhando o dia todo ontem?
– Sim, senhor.
– Levou alguma mensagem ao sr. Staunton?
– Sim, senhor, um telegrama.
– Ah! Isto é interessante. A que horas foi isso?
– Por volta das 18 horas.
– Onde estava o sr. Staunton quando a recebeu?
– Aqui no seu quarto.
– O senhor estava presente quando ele a abriu?
– Sim, senhor, esperei para ver se havia alguma resposta.
– Bem, havia?
– Sim, senhor, ele escreveu uma resposta.
– Foi o senhor quem a levou?
– Não, ele a levou pessoalmente.
– Mas escreveu-a em sua presença?
– Sim, senhor. Eu estava parado aqui na porta, e ele com as costas voltadas para aquela mesa. Quando acabou de escrever, ele disse: “Tudo bem, porteiro, eu mesmo a entregarei”.
– Com que ele a escreveu?
– Com uma caneta, senhor.
– O formulário de telegrama era um desses sobre a mesa?
– Sim, senhor, era o que estava em cima.
Holmes levantou-se. Pegando os formulários, levou-os para perto da janela e examinou com cuidado o que estava por cima.
– É uma pena que não tenha escrito a lápis – disse, devolvendo-os e encolhendo os ombros em sinal de desapontamento. – Como sem dúvida deve ter observado com freqüência, Watson, a impressão geralmente passa através do papel – um fato que já dissolveu vários casamentos felizes. Entretanto, não achei nenhuma marca aqui. Mas percebi com satisfação que ele escreveu com uma pena de ponta grossa e não duvido que encontraremos algumas impressões nesta folha de mata-borrão. Ah, com certeza são estas!
Tirou uma folha do bloco e nos mostrou o seguinte hieróglifo:
Cyril Overton ficou muito excitado.
– Leve-a para perto do espelho! – exclamou.
– Isto é desnecessário – disse Holmes. – O papel é fino, e o verso nos mostrará a mensagem. Aqui está. – Ele a virou e lemos:
– Então este é o final do telegrama que Godfrey Staunton despachou poucas horas antes de seu desaparecimento. Existem pelo menos seis palavras da mensagem que nos escaparam; mas o que permaneceu – “Fique conosco pelo amor de Deus!” – prova que este jovem via um perigo imenso que se aproximava e do qual alguém poderia protegê-lo. “Conosco”, lembre-se! Outra pessoa estava envolvida. Quem, a não ser o homem de rosto pálido e barba grisalha, parecia estar tão nervoso? E quem era a terceira força a quem pedia ajuda contra um perigo ameaçador? Nossa investigação já fica mais concentrada nisso.
– Temos apenas de descobrir para quem era endereçado o telegrama – sugeri.
– Exato, meu caro Watson. Sua reflexão, embora profunda, já havia passado pela minha mente. Mas creio que já notou que, se for a uma agência de correio e pedir para ver o canhoto da mensagem de uma outra pessoa, haverá certa má vontade por parte dos funcionários para atendê-lo. Há muita burocracia nesses assuntos. Mas acho que, com um pouco de delicadeza e finura, o objetivo pode ser alcançado. Enquanto isso, gostaria de, na sua presença, sr. Overton, dar uma olhada nestes papéis que foram deixados em cima da mesa.
Havia várias cartas, contas e cadernos de anotações, que Holmes folheou e examinou com dedos velozes e nervosos, e olhos penetrantes, dardejantes. – Nada aqui – disse, por fim. – A propósito, suponho que seu amigo era um rapaz muito saudável – nada errado com ele?
– Tem saúde de ferro.
– Já o viu doente alguma vez?
– Nem por um dia. Certa vez teve uma tosse seca, e outra deslocou a rótula, mas isso não foi nada.
– Talvez ele não fosse tão forte quanto você supõe. Talvez tenha tido algum problema secreto. Com sua permissão, guardarei um ou dois desses papéis no bolso, para o caso de terem relação com nossa investigação futura.
– Um momento, um momento! – exclamou uma voz impertinente. Olhamos e nos deparamos com um homenzinho idoso e estranho, sacudindo-se e contorcendo-se à porta. Vestia-se de preto desbotado, com um chapéu de abas largas e uma gravata branca folgada – o efeito geral era o de um vigário do campo ou acompanhante de enterros contratado por um dono de casa funerária. Mas, apesar de sua aparência andrajosa e até mesmo ridícula, sua voz tinha um timbre áspero, e sua atitude, uma intensidade que exigia atenção.
– Quem é o senhor, e com que direito mexe nos papéis desse cavalheiro? – perguntou.
– Sou um detetive particular, e estou tentando explicar o desaparecimento dele.
– Ah é, é? E quem o chamou, hein?
– Este cavalheiro, amigo do sr. Staunton, me foi enviado pela Scotland Yard.
– E quem é o senhor?
– Sou Cyril Overton.
– Então foi você quem me mandou um telegrama. Meu nome é lorde Mount-James. Vim tão rápido quanto era possível pelo ônibus de Bayswater. Quer dizer que contratou um detetive?
– Sim, senhor.
– E está preparado para cobrir os gastos?
– Não tenho dúvida, senhor, que o meu amigo Godfrey, quando o encontrarmos, poderá fazer isso.
– E se nunca for encontrado, hein? Responda-me!
– Nesse caso, sem dúvida, sua família...
– Nada disso, senhor! – gritou o homenzinho. – Não me peça nem 1 pêni – nem 1 pêni! Entenda isso, sr. detetive! Sou toda a família que esse rapaz tem, e lhe digo que não sou o responsável. Se ele tem perspectivas futuras é porque nunca esbanjei dinheiro, e não pretendo começar a fazer isso agora. Quanto àqueles papéis com os quais tomou tantas liberdades, devo lhe dizer que, no caso de haver algo de valor entre eles, o senhor será intimado a fazer um relatório sobre o uso que fará deles.
– Muito bem, senhor – disse Sherlock Holmes. – Posso lhe perguntar, nesse meio-tempo, se tem alguma teoria própria para o desaparecimento do rapaz?
– Não, senhor, não tenho. Ele é suficientemente grande e adulto para cuidar de si mesmo, e se é tão bobo a ponto de se perder, eu me recuso totalmente a aceitar a responsabilidade de procurá-lo.
– Entendo sua posição – disse Holmes, com um brilho malicioso nos olhos. – Talvez não compreenda muito a minha. Parece que Godfrey Staunton era um homem muito pobre. Se foi raptado, não deve ter sido por algo que possuía. A fama de sua riqueza já se espalhou, lorde Mount-James, e é bem possível que um bando de ladrões tenha seqüestrado seu sobrinho para conseguir dele algumas informações sobre sua casa, seus hábitos e seu tesouro.
O rosto do nosso pequeno e desagradável visitante ficou branco como sua gravata.
– Céus, senhor, que idéia! Nunca imaginei tal infâmia! Quantos patifes desumanos existem no mundo! Mas Godfrey é um bom rapaz – um rapaz leal. Nada o faria trair seu velho tio. Mandarei toda a prataria para o banco esta noite. Enquanto isso, não poupe esforços, sr. detetive! Imploro-lhe que não deixe pedra sobre pedra para trazê-lo de volta em segurança. Quanto ao dinheiro, bem, até 5 ou 10 libras, pode sempre contar comigo.
Mesmo com essa disposição de espírito atenuada, o nobre miserável não pôde nos dar nenhuma informação que nos ajudasse, pois sabia pouco da vida particular do sobrinho. Nossa única pista consistia no telegrama truncado, e com uma cópia dele na mão Holmes tentou encontrar um segundo elo para sua cadeia. Havia se desembaraçado de lorde Mount-James, e Overton fora conversar com os outros membros do time sobre a desgraça que se abatera sobre eles.
Havia um posto telegráfico a pouca distância do hotel. Paramos do lado de fora.
– Vale a pena tentar, Watson – disse Holmes. – É claro que com uma autorização poderíamos obrigá-los a nos mostrar os canhotos, mas ainda não chegamos nesse estágio. Não creio que se lembrem de rostos num lugar tão movimentado. Vamos arriscar.