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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Holmes acendera um cigarro e dava rápidas olhadas por todo o quarto.

– Fumo e meu trabalho, mas agora apenas fumo – exclamou o velho. – Ai de mim! Que interrupção fatal! Quem poderia prever catástrofe tão terrível? Um jovem tão estimado! Eu lhe garanto que, após um treinamento de alguns meses, ele era um assistente admirável. O que acha do caso, sr. Holmes?

– Ainda não tirei uma conclusão.

– Ficarei agradecido ao senhor se puder lançar alguma luz onde tudo é tão misterioso para nós. Para um pobre estudioso e inválido como eu, um golpe desse é paralisante. Parece que perdi a faculdade de pensar. Mas o senhor é um homem de ação – é um homem de casos. É parte da rotina diária de sua vida. Pode conservar seu equilíbrio em qualquer emergência. Temos sorte, de fato, em tê-lo do nosso lado.

Holmes andava de um lado para o outro no quarto enquanto o professor falava. Observei que fumava com uma rapidez extraordinária. Era evidente que compartilhava com nosso anfitrião o gosto pelos cigarros alexandrinos novos.

– Sim, senhor, é um golpe esmagador – disse o velho. – É o meu magnum opus – a pilha de papéis sobre a mesa do outro lado. É a minha análise dos documentos encontrados nos mosteiros coptas da Síria e do Egito, um trabalho que penetrará fundo nas bases da religião revelada. Com minha saúde debilitada, não sei se algum dia poderei terminá-lo, agora que fiquei sem meu assistente. Meu Deus! Ora, sr. Holmes, o senhor é um fumante ainda mais rápido do que eu.

Holmes sorriu.

– Sou um conhecedor – disse, pegando outro cigarro da caixa – o quarto – e acendendo-o na ponta daquele que havia terminado. – Não o incomodarei com nenhuma inquirição demorada, professor Coram, já que eu soube que estava na cama na hora do crime e não podia saber coisa alguma sobre ele. Gostaria de perguntar apenas isso: o que pensa que o pobre rapaz quis dizer com suas últimas palavras: “O professor – foi ela”?

O professor meneou a cabeça.

– Susan é uma garota do interior – disse – e o senhor sabe da incrível estupidez dessa gente. Creio que o pobre rapaz murmurou algumas palavras incoerentes, delirantes, e que ela as transformou nesta mensagem sem sentido.

– Sei. O senhor não tem alguma explicação própria para a tragédia?

– Possivelmente um acidente, possivelmente – apenas entre nós – um suicídio. Os jovens têm seus problemas secretos – algum caso de amor, talvez, do qual nunca soubemos. É uma suposição mais provável do que assassinato.

– Mas, e o pincenê?

– Ah! Sou apenas um estudioso – um homem de sonhos. Não posso explicar as coisas práticas da vida. Mas, mesmo assim, sabemos, meu amigo, que os desafios de amor podem assumir formas estranhas. De qualquer modo, pegue outro cigarro. É um prazer ver alguém apreciá-los tanto. Um leque, uma luva, óculos – quem sabe que objetos podem ser carregados como prenda ou tesouros, quando um homem põe fim à sua vida? Este cavalheiro fala de pegadas na grama, mas, afinal, é fácil nos enganarmos num detalhe deste tipo. Quanto à faca, pode muito bem ter sido jogada longe do infeliz quando ele caiu. É possível que eu esteja falando como uma criança, mas a mim parece que Willoughby Smith foi ao encontro do seu destino por suas próprias mãos.

Holmes parecia impressionado pela teoria assim apresentada e continuou a andar de um lado para o outro durante algum tempo, perdido em pensamentos e consumindo cigarro após cigarro.

– Diga-me, professor Coram – falou por fim –, o que há no armário da escrivaninha?

– Nada que atraísse um ladrão. Papéis de família, cartas de minha pobre esposa, diplomas de universidades que me homenagearam. Aqui está a chave. Pode ver por si mesmo.

Holmes pegou a chave e a olhou por um momento, depois a devolveu.

– Não, não creio que me ajudaria – disse. – Eu preferiria ir tranqüilamente até o jardim e refletir sobre o caso. Existe algo a ser dito sobre a teoria de suicídio que me apresentou. Devemos nos desculpar por perturbá-lo, professor Coram, e prometo que não o incomodaremos mais até depois do almoço. Às 14 horas voltaremos, e lhe informaremos sobre qualquer coisa que possa ter ocorrido nesse intervalo.

Holmes estava estranhamente distraído e ficou andando no caminho do jardim durante algum tempo em silêncio.

– Tem alguma pista? – perguntei, afinal.

– Depende daqueles cigarros que fumei – disse. – É possível que eu esteja redondamente enganado. Os cigarros me dirão.

– Meu caro Holmes – exclamei – como diabo...

– Ora, ora, verá por si mesmo. Se não, nenhum mal será cometido. É claro que sempre teremos a pista do oculista para seguir, mas pego um atalho sempre que posso. Ah! aqui está a bondosa sra. Marker! Vamos ver se temos cinco minutos de conversa proveitosa com ela.

Acho que já observei antes que Holmes tinha, quando queria, um jeito especialmente insinuante com as mulheres, que conseguia ganhar rapidamente a confiança delas. Na metade do tempo que ele havia mencionado, despertou a boa vontade da governanta e estava conversando com ela como se a conhecesse há anos.

– Sim, sr. Holmes, é como o senhor diz. Ele de fato fuma algo terrível. O dia inteiro e às vezes a noite inteira, senhor. Tenho visto aquele quarto de manhã – bem, senhor, pensaria que era o nevoeiro de Londres. O jovem sr. Smith também fumava, mas não tanto quanto o professor. Sua saúde – bem, não sei se é melhor ou pior fumar.

– Ah! – disse Holmes. – Mas faz perder o apetite.

– Bem, não sei nada sobre isso, senhor.

– Suponho que o professor quase não come nada.

– Bem, é variável. Direi isso por ele.

– Aposto como ele não tomou café hoje de manhã e não almoçará depois de todos aqueles cigarros que o vi consumir.

– Bem, o senhor estava lá fora, ao que parece, porque ele tomou um café-da-manhã reforçado hoje. Não me lembro de tê-lo visto comer tanto, e ele pediu um bom prato de costeletas para o almoço. Eu mesma estou surpresa, pois desde que entrei naquele escritório ontem e vi o jovem sr. Smith caído lá no chão, não consigo nem olhar para comida. Bem, há de tudo neste mundo, e o professor não perdeu o apetite.

Ficamos a manhã inteira perambulando pelo jardim. Stanley Hopkins tinha ido até a vila para investigar alguns rumores de uma mulher estranha que fora vista por algumas crianças na estrada de Chatham na manhã anterior. Quanto ao meu amigo, toda a sua energia habitual parecia tê-lo abandonado. Nunca o vira lidar com um caso de maneira tão indiferente. Nem mesmo as novidades trazidas por Hopkins, de que encontrara crianças, e que elas sem sombra de dúvida tinham visto uma mulher que correspondia exatamente à descrição

de Holmes, e usando óculos ou pincenê, conseguiram despertar algum sinal de interesse maior. Ficou mais atento quando Susan, que nos esperava para o almoço, soltou a informação de que achava que o sr. Smith saíra para dar uma caminhada ontem de manhã, e que só voltou meia hora antes de ocorrer a tragédia. Eu não conseguia ver nenhuma ligação com o caso, mas percebi que Holmes o encaixava no quadro que formara em sua mente. De repente, pulou da cadeira e olhou para o relógio. – Duas horas, cavalheiros – disse. – Temos de subir para nos encontrar com nosso amigo, o professor.

O velho acabara de almoçar, e seu prato vazio demonstrava o bom apetite que sua governanta lhe atribuíra. Era, de fato, uma figura esquisita ao virar para nós sua cabeleira branca e os olhos brilhantes. O eterno cigarro pendurado na boca. Estava vestido e sentado numa poltrona perto da lareira.

– Bem, sr. Holmes, já esclareceu o mistério? – Ele empurrou a grande caixa de cigarros que estava em cima da mesa na direção do meu amigo. Holmes esticou a mão ao mesmo tempo, e os dois derrubaram a caixa. Por um minuto ou dois, todos nós ficamos de joelhos catando cigarros nos lugares mais impossíveis. Quando nos levantamos de novo, notei que os olhos de Holmes brilhavam e suas faces estavam coloridas. Somente numa crise é que eu vira esses sinais de batalha no ar.

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