Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Desculpe incomodá-la – ele disse, com seu jeito brando, para a jovem que estava atrás do gradil – há algum engano em relação a um telegrama que mandei ontem. Não recebi nenhuma resposta, e receio que devo ter esquecido de pôr meu nome no final. Pode me dizer se foi isso?
A jovem folheou um maço de canhotos.
– A que horas foi isso? – perguntou.
– Pouco depois das 18 horas.
– Para quem ele era?
Holmes pôs o dedo nos lábios e deu uma olhada para mim. – As suas últimas palavras eram “Pelo amor de Deus”, ele sussurrou de modo confidencial – estou muito ansioso por não receber nenhuma resposta.
A jovem separou um dos formulários.
– É este. Não tem nome – disse ela, deixando-o sobre o balcão.
– Então, claro, é por isso que não recebi nenhuma resposta – disse Holmes. – Meu Deus, como fui estúpido! Bom-dia, senhorita e muito obrigado por me tranqüilizar. – Ele deu uma risadinha e esfregou as mãos quando chegamos à rua de novo.
– E então? – perguntei.
– Estamos progredindo, meu caro Watson, estamos progredindo. Tinha sete diferentes esquemas para conseguir dar uma olhada naquele telegrama, mas dificilmente podia esperar ter sucesso na primeira tentativa.
– E o que conseguiu?
– Um ponto de partida para a nossa investigação. – Chamou uma carruagem. – King’s Cross Station – disse.
– Faremos uma viagem, então?
– Sim, acho que devemos ir a Cambridge juntos. Todos os indícios apontam nessa direção.
– Diga-me – perguntei, enquanto passávamos pela Gray’s Inn Road –, já tem alguma suspeita quanto à causa do desaparecimento? De todos os que já tivemos, não me lembro de outro cujos motivos fossem tão misteriosos. Com certeza não imagina que possa ter sido raptado para fornecer informações sobre seu tio rico.
– Confesso, meu caro Watson, que isso não me parece uma explicação muito provável. Mas impressionou-me por ser a que mais interessou àquele velho e desagradável.
– Foi o que aconteceu; mas quais são suas alternativas?
– Poderia mencionar várias. Deve admitir que é curioso e sugestivo que este incidente tenha ocorrido na véspera desse jogo importante, e tenha envolvido o único homem cuja presença parece essencial ao sucesso do time. Pode ser, é claro, uma coincidência, mas é interessante. O esporte amador não tem apostas, mas uma grande quantidade de apostas externas ocorre entre o público, e é possível que seja lucrativo para alguém pegar um atleta, assim como um bandido do turfe faz com um cavalo de corrida. Aí está uma explicação. A segunda mais óbvia é que este rapaz realmente é o herdeiro de uma grande propriedade e, por mais modestas que sejam suas posses agora, não é impossível que tenha sido tramado um complô para seqüestrá-lo e pedir um resgate.
– Essas teorias não levam em conta o telegrama.
– É verdade, Watson. O telegrama permanece ainda como a única coisa concreta que temos, e não devemos permitir que nossa atenção se desvie dele. É para esclarecer o objetivo deste telegrama que estamos agora a caminho de Cambridge. O rumo da nossa investigação está indefinido no momento, mas ficarei muito surpreso se antes do anoitecer não tivermos resolvido o caso, ou feito um progresso considerável.
Já estava escuro quando chegamos à velha cidade universitária. Holmes tomou uma carruagem de aluguel na estação e mandou que nos levasse à casa do dr. Leslie Armstrong. Poucos minutos depois, parávamos diante de uma mansão na rua mais movimentada. Entramos e, após uma longa espera, fomos levados ao consultório, onde encontramos o doutor sentado à sua mesa.
O meu grau de afastamento de minha profissão era demonstrado pelo fato de que eu nunca tinha ouvido falar de Leslie Armstrong. Agora sei que ele não é apenas um dos diretores da escola de medicina da universidade, mas também um pensador famoso na Europa em mais de um ramo da ciência. Mas mesmo sem conhecer seu histórico brilhante, ninguém deixaria de se impressionar só de olhar para o homem, o rosto quadrado, maciço, os olhos melancólicos sob as sobrancelhas cerradas, e o molde granítico do maxilar inflexível. Um homem de caráter sólido, com a mente alerta, severo, austero, controlado, formidável – foi assim que vi o dr. Leslie Armstrong. Segurou o cartão do meu amigo, e nos olhou com uma expressão não muito contente em suas feições duras.
– Já ouvi falar no seu nome, sr. Sherlock Holmes, e sei qual é a sua profissão – uma das quais não aprovo de jeito nenhum.
– Nisso, doutor, o senhor está de acordo com todos os criminosos do país – disse meu amigo, tranqüilamente.
– Na medida em que seus esforços têm por objetivo a supressão do crime, senhor, devem ter o apoio de todos os membros sensatos da comunidade, embora não duvide que a máquina oficial seja mais do que suficiente para esta finalidade. Onde seu ofício está mais sujeito a críticas quando se intromete nos segredos particulares das pessoas, quando revolve assuntos de família que ficam melhor escondidos, e quando incidentalmente desperdiça o tempo de homens que são mais ocupados que o senhor. Agora, por exemplo, eu deveria estar escrevendo um tratado em vez de conversar com o senhor.
– Sem dúvida, doutor; mesmo assim a conversa pode ser mais importante que o tratado. Incidentalmente, posso lhe dizer que estamos fazendo o inverso daquilo que o senhor, com justiça, critica; estamos tentando evitar algo como exposição pública de assuntos privados, o que necessariamente acontece, quando o caso está nas mãos da polícia. Pode olhar-me simplesmente como um pioneiro irregular, que vai à frente das forças regulares do país. Vim para lhe perguntar sobre o sr. Godfrey Staunton.
– O que tem ele?
– O senhor o conhece, não?
– É meu amigo íntimo.
– Sabe que ele está desaparecido?
– Ah, não diga! – Não houve nenhuma mudança de expressão nas feições rudes do doutor.
– Saiu do seu hotel na noite passada – não foi visto desde então.
– Sem dúvida ele voltará.
– Amanhã é o jogo de rúgbi da universidade.
– Não tenho simpatia por esses jogos infantis. O destino do rapaz me interessa profundamente, pois o conheço e gosto dele. O jogo de futebol não está dentro de meus horizontes de modo algum.
– Peço sua simpatia, então, pela minha investigação a respeito do destino do sr. Godfrey Staunton. Sabe onde ele está?
– Claro que não.
– Não o viu desde ontem?
– Não, não o vi.
– O sr. Staunton era um homem saudável?
– Perfeitamente.
– Já o viu doente alguma vez?
– Nunca.
Holmes atirou uma folha de papel diante dos olhos do doutor. – Então talvez explique este recibo de uma conta de 13 guinéus, paga por Godfrey Staunton no mês passado ao dr. Leslie Armstrong, de Cambridge. Tirei-a do meio dos papéis que estavam na mesa dele.
O doutor ficou vermelho de raiva.
– Não creio que haja qualquer motivo para dar-lhe uma explicação, sr. Holmes.
Holmes recolocou a conta em seu caderninho de anotações. – Se prefere uma explicação em público, ela virá mais cedo ou mais tarde – disse. – Já lhe disse que posso abafar o que os outros poderiam publicar, e o senhor seria mais sensato se confiasse em mim.
– Não sei nada sobre isso.
– Teve notícias do sr. Staunton de Londres?
– Certamente que não.
– Meu Deus, meu Deus; o correio de novo! – Holmes suspirou, entediado. – Um telegrama muito urgente foi despachado para o senhor de Londres por Godfrey Staunton, às 18:15h de ontem – um telegrama que está sem dúvida associado ao desaparecimento dele – e mesmo assim não ouviu falar dele. Isto é bastante condenável. Com certeza irei à delegacia daqui e registrarei uma queixa.
O dr. Leslie Armstrong pulou da sua cadeira, e seu rosto sombrio estava crispado de fúria.