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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Bem, Watson, é bom que não tenhamos de sair esta noite – disse Holmes, pondo de lado a lente e enrolando o palimpsesto. – Já fiz o suficiente por hoje. É muito trabalho para os olhos. Na minha opinião, não há nada mais excitante do que os relatos de Abbey da segunda metade do século XV. Ei, ei! O que é isso?

Em meio ao zumbido do vento, ouvimos as batidas das patas de um cavalo, e o ruído de uma roda raspando no meio-fio. A carruagem que eu vira parou diante da nossa porta.

– O que ele pode querer? – perguntei, quando um homem saltou.

– Querer? Ele quer a nós. E nós, meu pobre Watson, queremos sobretudos, cachecóis, galochas e toda a ajuda que o homem já inventou para enfrentar o clima. Espere um pouco! A carruagem está indo embora! Ainda há esperança. Ele teria mandado esperar se quisesse que nós o acompanhássemos. Corra lá embaixo, Watson, meu caro amigo, e abra a porta, pois o bom sujeito já ficou muito tempo na soleira.

Quando a luz do saguão caiu sobre o nosso visitante noturno, não tive dificuldade em reconhecê-lo. Era o jovem Stanley Hopkins, um detetive promissor, por cuja carreira Holmes várias vezes demonstrara muito interesse.

– Ele está? – perguntou com ansiedade.

– Venha, meu caro – disse a voz de Holmes lá de cima. – Espero que não tenha nenhum plano para nós numa noite como esta.

O detetive subiu as escadas e a luz brilhou em sua reluzente capa de chuva. Ajudei-o a tirá-la, enquanto Holmes fazia uma labareda da tora na lareira.

– Agora, meu caro Hopkins, aproxime-se e aqueça seus dedos – disse. – Aqui está um charuto, e o doutor tem uma receita de água quente e limão que é um ótimo remédio numa noite igual a esta. Deve ser algo muito importante que o trouxe aqui nesta ventania.

– Realmente, sr. Holmes. Tive uma tarde atribulada, juro. Viu alguma coisa sobre o caso Yoxley nas últimas edições dos jornais?

– Não vi hoje nada mais recente do que o século XV.

– Bem, foi só um parágrafo e estava todo errado, de modo que não perdeu nada. Bem, eu não perdi tempo. Foi em Kent, a 10 quilômetros de Chatham e a 4 da linha férrea. Telegrafaram-me às 15:15h, cheguei a Yoxley Old Place às 17 horas, iniciei as investigações, voltei a Charing Cross pelo último trem e vim direto, de carruagem, falar com o senhor.

– O que significa que não tem idéias muito claras sobre seu caso?

– Significa que não tenho a menor idéia a respeito dele. Até onde posso perceber, é o negócio mais complicado que já tive e, mesmo assim, à primeira vista parece tão simples que ninguém poderia se enganar. Não há um motivo, sr. Holmes. É isto o que me preocupa – não consigo achar um motivo. Aqui está um homem morto – não se pode negar isso –, mas, pelo que vejo, não há nenhum motivo para que alguém  quisesse lhe fazer mal.

Holmes acendeu um charuto e recostou-se em sua cadeira. Vamos ouvir essa história – disse.

– Tenho os fatos bem claros – disse Stanley Hopkins. – Tudo o que quero agora é saber o que significam. A história, tanto quanto sei, é a seguinte. Alguns anos atrás esta casa no campo, Yoxley Old Place, foi comprada por um velho, que deu o nome de professor Coram. Era um inválido, que ficava na cama metade do tempo, e na outra metade andava mancando pela casa com uma bengala ou era empurrado ao ar livre pelo jardineiro, numa cadeira de rodas. Era muito querido pelos poucos vizinhos que o visitavam, e tinha ali a fama de ser um homem muito instruído. Sua casa tinha uma velha governanta, sra. Marker, e uma empregada, Susan Tarlton. Estas estavam com ele desde sua chegada, e pareciam ser mulheres de caráter excelente. O professor está escrevendo um livro erudito, e achou necessário, há cerca de um ano, contratar um secretário. Os dois primeiros que tentou não deram certo, mas o terceiro, o sr. Willoughby Smith, um jovem que acabara de sair da universidade, parece que era exatamente o que seu empregador queria. Seu trabalho consistia em escrever todas as manhãs o que o professor ditava, e geralmente passava a noite procurando referências e trechos que se relacionavam com o trabalho do dia seguinte. Esse Willoughby Smith não tinha nada que o desabonasse, nem no tempo de garoto, em Uppingham, nem como estudante em Cambridge. Vi suas recomendações e todas diziam que ele era um sujeito decente, tranqüilo e trabalhador, sem nenhum ponto fraco. E mesmo assim este foi o cara que encontrou a morte esta manhã, no escritório do professor, em circunstâncias que só apontam para um assassinato.

O vento rugia e batia nas janelas. Holmes e eu chegamos mais perto do fogo enquanto o jovem inspetor, lentamente e ponto por ponto, desenrolava sua narrativa estranha.

– Se procurassem por toda a Inglaterra – disse –, suponho que não encontrariam uma casa mais independente e livre de influências externas. Podiam se passar semanas inteiras sem que nenhum deles atravessasse o portão do jardim. O professor mergulhava em seu trabalho e não existia para mais nada. O jovem Smith não conhecia ninguém nas vizinhanças e vivia exatamente como o seu patrão. As duas mulheres não tinham nada que as tirasse da casa. Mortimer, o jardineiro, que conduz a cadeira de rodas, é um pensionista do Exército – um ex-combatente da guerra da Criméia, de excelente caráter. Não mora na casa, mas num chalé de três quartos, no fundo do jardim. Estas são as únicas pessoas que o senhor encontraria nos terrenos de Yoxley Old Place. Ao mesmo tempo, o portão do jardim fica a 100 metros da estrada principal, que vai de Londres a Chatham. Ele se abre com um trinco, e não há nada que impeça qualquer um de entrar.

– Agora vou lhes contar o depoimento de Susan Tarlton, a única pessoa que pôde dizer algo de concreto sobre o assunto. Era de manhã, entre 11 horas e meio-dia. Ela estava naquele momento pendurando umas cortinas no quarto da frente, no segundo andar. O professor Coram ainda estava na cama, pois quando o tempo está ruim, ele raramente se levanta antes do meio-dia. A governanta estava ocupada com algum trabalho nos fundos da casa. Willoughby Smith estivera em seu quarto, que ele usa como sala de estar, mas a empregada o ouviu passar naquele momento pelo corredor e descer para o escritório, logo abaixo dela. Não o viu, mas disse que não podia confundir seus passos firmes e rápidos. Não ouviu a porta do escritório se fechar, mas aproximadamente um minuto depois ela ouviu um grito horrível no aposento do primeiro andar. Era um grito selvagem e rouco, tão estranho e pouco natural que tanto poderia ter vindo de um homem como de uma mulher. No mesmo instante houve um baque pesado, que fez estremecer a velha casa, e depois tudo ficou em silêncio. A empregada ficou petrificada por um momento, e depois, recobrando a coragem, correu para baixo. A porta do escritório estava fechada e ela a abriu. Dentro, o sr. Willoughby Smith estava esticado no chão. No início não viu nenhum ferimento, mas ao tentar levantá-lo, viu que havia sangue escorrendo da parte de trás do pescoço. Estava perfurado por um ferimento pequeno mas muito profundo, que cortou a artéria carótida. O instrumento que causara o ferimento estava no tapete ao lado dele. Era uma dessas facas de lacre que se encontram em escrivaninhas antigas, com cabo de marfim e lâmina fixa. Fazia parte das peças da própria mesa do professor.

– Primeiro a criada pensou que o jovem Smith já estivesse morto, mas ao despejar um pouco de água da garrafa em sua testa, ele abriu os olhos por um instante. – O professor – ele murmurou – foi ela. – A empregada está pronta a jurar que foram estas as palavras exatas. Ele tentou desesperadamente dizer mais alguma coisa e ergueu no ar a mão direita. E então caiu morto.

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