Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
Электронная книга - «Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]». Краткое содержание книги:
– Ora, tenho nervos resistentes como sabe, sr. Holmes, mas dou-lhe minha palavra que senti um arrepio quando enfiei a cabeça dentro daquela casinha. Estava zumbindo como um harmônio com as moscas e varejeiras; o chão e as paredes pareciam um matadouro. Ele a chamava de cabine, e era uma cabine com certeza, pois a gente podia pensar que estava num barco. Havia um beliche de um lado, um baú de marinheiro, mapas e cartas marítimas, um retrato do Sea Unicorn, uma fila de diários de bordo numa prateleira, tudo exatamente como se esperaria que fosse a cabine de um capitão. E ali, no meio do quarto, estava o próprio homem – seu rosto crispado como uma alma perdida atormentada, e sua grande barba raiada voltada para cima em sua agonia. Um arpão de aço fora enfiado no seu peito largo e penetrara fundo na madeira da parede atrás dele. Ele estava pregado como um inseto num cartão. É claro que estava morto, e desde o instante em que dera o último grito de agonia.
– Conheço seus métodos, senhor, e os apliquei. Antes de permitir que qualquer coisa fosse mexida, examinei com o maior cuidado o chão do lado de fora e também o assoalho no quarto. Não havia pegadas.
– Quer dizer que não viu nenhuma?
– Garanto-lhe, senhor, que não havia nenhuma.
– Meu bom Hopkins, já investiguei muitos crimes, mas ainda não vi nenhum cometido por uma criatura voadora. Desde que o criminoso tenha duas pernas, tem de haver alguma marca, alguma esfoladura, alguma modificação insignificante que pode ser detectada por um pesquisador científico. É inacreditável que esse aposento salpicado de sangue não contivesse vestígios que pudessem nos ajudar. Contudo, percebi pelo inquérito que havia certos objetos que deixou de inspecionar?
O jovem inspetor encolheu-se ao ouvir os comentários irônicos do meu amigo.
– Fui um tolo em não chamá-lo naquela ocasião, sr. Holmes. Mas isso são águas passadas. Sim, havia vários objetos no quarto que exigiam atenção especial. Um era o arpão com que o crime foi cometido. Fora retirado de uma estante na parede. Dois outros permaneceram lá, e havia um lugar vago para o terceiro. No cabo estava gravado “S. S. Sea Unicorn, Dundee”. Isto parece indicar que o crime foi cometido num momento de fúria e que o assassino pegou a primeira arma que encontrou à mão. O fato de o crime ter sido cometido às duas horas, e de Peter Carey ainda estar completamente vestido, sugere que ele tinha um encontro com o assassino, o que é confirmado pelo fato de que uma garrafa de rum e dois copos usados estavam em cima da mesa.
– Sim – disse Holmes –, creio que as duas deduções são admissíveis. Havia alguma outra bebida além do rum no quarto?
– Sim. Havia um cântaro contendo brandy e uísque na arca. Mas isto não é importante para nós, já que as garrafas estavam cheias e ainda não tinham sido usadas.
– Por tudo isso, a presença delas tem importância – disse Holmes. – Mas vamos ouvir algo mais sobre os objetos que lhe parecem ter alguma coisa a ver com o caso.
– Havia essa tabaqueira sobre a mesa.
– Em que parte da mesa?
– Estava no centro. Era de couro ordinário de foca – o couro de cerdas curtas, com uma tira de couro para amarrar. Por dentro da aba estava gravado “P.C.”. Havia meia onça de tabaco forte de navio lá dentro.
– Excelente! O que mais?
Stanley Hopkins tirou do bolso um caderninho de anotações forrado com um tecido grosso de lã. A parte externa estava enrugada e gasta, as folhas desbotadas. Na primeira página estavam escritas as iniciais “J.H.N.” e a data “1883.” Holmes o colocou na mesa e o examinou do seu jeito minucioso, enquanto Hopkins e eu olhávamos por cima dos ombros dele. Na segunda página estavam impressas as letras “C.P.R.” e depois vinham várias páginas de números. Outro título era “Argentina”, outro “Costa Rica” e outro “São Paulo”, cada um com páginas de símbolos e números depois.
– O que acha disto? – perguntou Holmes.
– Parecem listas de ações da Bolsa de Valores. Pensei que “J.H.N.” fossem as iniciais de um corretor e que “C.P.R.” talvez fosse seu cliente.
– Tente Canadian Pacific Railway – disse Holmes.
Stanley Hopkins praguejou baixinho e bateu na coxa com a mão fechada.
– Que tolo eu fui! – exclamou. – É claro que é isso. Então “J.H.N.” são as únicas iniciais que temos de descobrir. Já examinei as velhas listas da Bolsa de Valores e não consegui achar ninguém em 1883, na casa ou entre os outros corretores, cujas iniciais correspondessem a essas. Mesmo assim acho que esta pista é a mais importante que tenho. Talvez concorde, sr. Holmes, que há uma possibilidade de que estas iniciais sejam as da segunda pessoa que esteve presente – em outras palavras, do assassino. Também insisto que o aparecimento no caso de um documento relacionado com a grande quantidade de ações valiosas nos dá pela primeira vez alguma indicação de um motivo para este crime.
O rosto de Sherlock Holmes mostrava que ele fora apanhado de surpresa por este novo fato.
– Devo admitir os dois pontos – disse. – Confesso que este caderninho de anotações, que não apareceu no inquérito, modifica qualquer opinião que eu tenha formado. Eu havia elaborado uma teoria do crime na qual não encontro lugar para isto. Tentou procurar alguns dos títulos mencionados aqui?
– Estão sendo feitas investigações agora nos escritórios, mas receio que os registros completos destes acionistas sul-americanos estejam na América do Sul, e que sejam necessárias algumas semanas até que possamos rastrear as ações.
Holmes estivera examinando a capa do caderno com sua lente de aumento.
– Certamente existe aqui alguma descoloração – disse.
– Sim, senhor, é uma mancha de sangue. Eu lhe disse que peguei o livro do chão.
– A mancha de sangue estava em cima ou embaixo?
– No lado próximo às tábuas.
– O que prova, é claro, que o livro foi largado depois que o crime foi cometido.
– Exatamente, sr. Holmes. Observei esse detalhe e imaginei que foi largado pelo assassino na sua fuga apressada. Estava perto da porta.
– Suponho que nenhum destes títulos foi encontrado entre os bens do morto.
– Não, senhor.
– Tem algum motivo para suspeitar de roubo?
– Não, senhor. Nada parece ter sido tocado.
– Este com certeza é um caso muito interessante. Então havia uma faca, não?
– Uma faca de estojo, ainda na sua bainha. Estava aos pés do morto. A sra. Carey a identificou como sendo de propriedade do marido.
Holmes ficou pensando durante algum tempo.
– Bem – disse por fim –, acho que tenho de sair e dar uma olhada.
Stanley Hopkins deu um grito de alegria.
– Obrigado, senhor. Na verdade, tirará um peso da minha consciência.
Holmes balançou o dedo na direção do inspetor.
– Teria sido uma tarefa mais fácil uma semana atrás – disse. Mas mesmo agora minha visita pode não ser totalmente infrutífera. Watson, se dispuser de tempo, ficaria muito grato pela sua companhia. Se chamar uma carruagem, Hopkins, estaremos prontos para partir para Forest Row em 15 minutos.
Saltando na pequena estação à margem da estrada, percorremos alguns quilômetros em meio aos restos espalhados de bosques, que haviam sido parte da grande floresta que por muito tempo manteve os saxões invasores a distância – a impenetrável weald,* por sessenta anos o baluarte da Inglaterra. Vastas porções dela foram desmatadas, porque este é o local das primeiras usinas siderúrgicas do país, e as árvores foram cortadas para fundir o minério. Agora os campos mais ricos do norte absorveram o ofício e nada, a não ser estes bosques devastados e grandes marcas na terra, mostra o trabalho do passado. Aqui, numa clareira sobre a encosta verdejante de uma colina, ficava uma casa de pedra, comprida e baixa, onde se chegava por um caminho tortuoso que passava pelos campos. Mais perto da estrada e cercada por arbustos em três lados, havia uma pequena cabana, uma janela e a porta se abrindo na nossa direção. Era o cenário do crime.