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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Ouvimos uma conversa em vozes grosseiras do lado de fora, e agora a sra. Hudson abria a porta para dizer que havia três homens perguntando pelo capitão Basil.

– Deixe-os entrar um por um – disse Holmes.

O primeiro que entrou era um homem pequeno, um estupendo Ribston, com as bochechas rosadas e suíças de uma penugem branca. Holmes tirara uma carta do bolso.

– Qual é o nome? – perguntou.

– James Lancaster.

– Desculpe-me, Lancaster, mas o lugar está ocupado. Aqui está meio soberano pelo incômodo. Fique naquela sala e espere alguns minutos.

O segundo era um sujeito alto, magro, com cabelos escorridos e rosto pálido. Seu nome era Hugh Pattins. Também foi recusado, recebeu seu meio soberano e a ordem de esperar.

O terceiro candidato era um homem de aparência notável. Um rosto de buldogue feroz era emoldurado por uma mistura de cabelo e barba, e dois olhos escuros e atrevidos brilhavam por trás da cobertura das sobrancelhas cerradas e proeminentes. Cumprimentou-nos e ficou parado do jeito dos marinheiros, revirando o chapéu nas mãos.

– Seu nome? – perguntou Holmes.

– Patrick Cairns.

– Arpoador?

– Sim, senhor. Vinte e seis viagens.

– Dundee, suponho?

– Sim, senhor.

– E pronto para começar num barco de exploração?

– Sim, senhor.

– Qual o salário?

– Oito libras por mês.

– Poderia começar imediatamente?

– Assim que pegasse meu equipamento.

– Tem seus papéis?

– Sim, senhor. – Tirou um maço de papéis amarelados e gordurosos do bolso. Holmes deu uma olhada neles e os devolveu.

– Você é exatamente o homem que quero – disse. – O contrato está naquela mesa. Se assiná-lo, tudo estará resolvido.

O homem do mar cambaleou pela sala e pegou a caneta. – Devo assinar aqui? – perguntou, curvando-se sobre a mesa.

Holmes debruçou-se sobre o ombro dele e passou as duas mãos pelo pescoço dele.

– Isto servirá – disse.

Ouvi um clique de aço e um rugido como o de um touro enfurecido. Logo depois Holmes e o marujo estavam rolando pelo chão. Era um homem de uma força tão grande que, mesmo com as algemas que Holmes agilmente colocara em seus pulsos, teria subjugado rapidamente o meu amigo se Hopkins e eu não tivéssemos corrido em sua ajuda. Somente quando pressionei a boca fria do meu revólver contra sua têmpora é que ele compreendeu que qualquer resistência seria inútil. Amarramos seus tornozelos com uma corda e nos levantamos ofegantes por causa da luta.

– Devo pedir desculpas, Hopkins – disse Sherlock Holmes. – Receio que os ovos mexidos estejam frios. Mas aproveitará melhor do resto de seu desjejum, considerando-se que levou o caso a uma conclusão triunfante.

Stanley Hopkins estava mudo de assombro.

– Não sei o que dizer, sr. Holmes – murmurou finalmente, com o rosto vermelho. – Parece que tenho feito papel de tolo desde o começo. Compreendo, agora, o que nunca devia ter esquecido, que eu sou o pupilo e o senhor, o mestre. Mesmo depois de ter visto o que fez, não sei como fez ou o que isso significa.

– Ora, ora – disse Holmes, bem-humorado. – Todos aprendemos por experiência, e a sua lição desta vez é que nunca deve perder de vista a alternativa. Estava tão concentrado no jovem Neligan que não conseguiu precisar em Patrick Cairns o verdadeiro assassino de Peter Carey.

A voz possante do marinheiro interrompeu nossa conversa.

– Olhe aqui, senhor – disse –, não reclamo de estar amarrado desta maneira, mas gostaria que chamassem as coisas pelos seus nomes corretos. Vocês dizem que eu assassinei Peter Carey, eu digo que matei Peter Carey, e aí está toda a diferença. Talvez não acreditem no que digo. Talvez pensem que estou lhes contando uma mentira.

– Em absoluto – disse Holmes. – Vamos ouvir o que tem a dizer.

– Vou contar logo, e, por Deus, cada palavra será verdadeira. Eu conhecia Black Peter, e quando ele puxou sua faca, espetei-o bem fundo com o arpão, pois sabia que era ele ou eu. Foi assim que ele morreu. Podem chamar isto de assassinato. De qualquer maneira, prefiro morrer com uma corda no pescoço do que com a faca de Black Peter no meu coração.

– Como chegou lá? – perguntou Holmes.

– Vou contar-lhe tudo desde o início. Apenas deixe-me sentar um pouco, para que possa falar mais facilmente. Foi em 1883 que aconteceu – em agosto daquele ano. Peter Carey era o comandante do Sea Unicorn, e eu era o segundo arpoador. Estávamos saindo de uma área de gelo a caminho de casa, com vento contrário e um temporal de uma semana no sul, quando encontramos uma pequena embarcação que fora empurrada para o norte pelo vento. Só havia um homem nela – um homem de terra firme. A tripulação pensou que ela iria afundar e partiu para a costa da Noruega num barco a remo. Acho que todos se afogaram. Bem, trouxemos esse homem para bordo, e ele e o capitão tiveram uma longa conversa na cabine. Toda sua bagagem, que trouxemos junto com ele, se resumia a uma caixa de metal. Pelo que sei, o nome do sujeito nunca foi mencionado, e na segunda noite desapareceu, como se nunca tivesse estado lá. Disseram que se jogara no mar, ou caíra nas águas turbulentas que atravessávamos. Somente um homem sabia o que acontecera com ele, eu, porque, com meus próprios olhos, vi o capitão amarrar os calcanhares dele e jogá-lo por cima da balaustrada no meio da noite escura, dois dias antes de avistarmos os faróis das Shetlands.

– Bem, guardei o que eu sabia para mim, e esperei para ver o que iria acontecer. Quando chegamos à Escócia, isso foi facilmente abafado, e ninguém fez perguntas. Um estranho morrera por acidente, e ninguém tinha nada o que perguntar. Pouco depois Peter Carey desistiu do mar, e passaram-se muitos anos até que eu descobrisse onde estava. Imaginei que ele havia feito aquilo para ficar com o que havia na caixa, e que poderia agora me pagar bem pelo meu silêncio.

– Descobri onde estava por intermédio de um marinheiro que o encontrara em Londres, e fui lá para arrancar dinheiro dele. Na primeira noite ele estava bem razoável, e pronto a me dar uma quantia que me permitisse largar o mar para sempre. Íamos acertar tudo dois dias mais tarde. Quando cheguei, encontrei-o quase totalmente bêbado e num péssimo humor. Sentamo-nos, bebemos e mentimos sobre os velhos tempos, mas quanto mais ele bebia, menos eu gostava de olhar para o rosto dele. Eu tinha visto aquele arpão na parede e pensei que poderia precisar dele antes de sair. Então, afinal, ele veio para cima de mim, praguejando e bufando, com o homicídio nos olhos e uma grande faca de mola na mão. Não teve tempo de tirá-la da bainha antes que eu o espetasse com o arpão. Deus! que grito ele deu! e seu rosto sempre aparece nos meus sonhos. Fiquei ali, com o sangue dele espirrando à minha volta, e esperei um pouco, mas tudo estava tranqüilo, de modo que me acalmei de novo. Olhei em volta, e lá estava a caixa de metal na prateleira. De qualquer maneira, eu tinha tanto direito a ela quanto Peter Carey, de modo que eu a apanhei e saí da cabana. Como um tolo, deixei minha tabaqueira sobre a mesa.

– Agora vou lhes contar a parte mais interessante de toda a história. Mal havia saído da cabana quando escutei alguém se aproximando, e me escondi entre os arbustos. Um homem chegou sorrateiramente, entrou na casinha, deu um grito como se tivesse visto um fantasma, e se afastou o mais depressa que pôde, até que o perdi de vista. Quem ele era ou o que queria não posso dizer. De minha parte, andei mais de 10 quilômetros, peguei um trem em Tunbridge Wells e assim cheguei a Londres, sem saber de mais nada.

– Ora, quando fui examinar a caixa, descobri que não havia nenhum dinheiro ali, apenas papéis que eu não ousaria vender. Perdera minha influência sobre Black Peter e fiquei abandonado em Londres sem um xelim. Só restou o meu ofício. Vi estes anúncios sobre arpoadores, e altos salários, fui até a companhia de navegação e me mandaram aqui. Isto é tudo o que sei, e repito que se matei Black Peter, a lei deveria me agradecer, pois poupei a eles o custo de uma corda de cânhamo.

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