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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– E qual é a sua conclusão?

– Apenas que existe uma vaca notável que anda, trota e galopa. Por Deus! Watson, não foi nenhum cérebro de taberneiro do interior que imaginou um como esse. A costa parece estar livre, a não ser por aquele rapaz na forja. Vamos dar uma escapada e ver o que pudermos.

Havia dois cavalos maltratados no estábulo em ruínas. Holmes levantou a pata traseira de um deles e riu.

– Ferraduras velhas, mas ferrado recentemente; ferraduras velhas, mas cravos novos. Este caso promete ser um clássico. Vamos passar por fora.

O rapaz continuava seu trabalho sem ligar para nós. Notei os olhos de Holmes virarem-se para a esquerda e para a direita, por entre os restos de ferro e madeira que se espalhavam pelo chão. Mas, de repente escutamos passos atrás de nós, e lá estava o dono da hospedaria, o cenho franzido sobre os olhos selvagens, as feições contorcidas pela raiva. Segurava uma pequena bengala de cabo metálico, e avançou de modo tão ameaçador que me senti confortado por ter meu revólver no bolso.

– Seus espiões do inferno! – gritou o homem. – O que estão fazendo aí?

– Ora, sr. Reuben Hayes – disse Holmes friamente –, alguém poderia pensar que o senhor está com medo de que descubramos alguma coisa.

O homem controlou-se com um esforço violento, e sua boca cruel abriu-se num sorriso falso, que era mais ameaçador que o seu olhar carrancudo.

– Vocês podem descobrir tudo o que quiserem em minha oficina – disse. – Mas olhe aqui, senhor, não gosto de sujeitos que ficam bisbilhotando na minha casa sem minha permissão; portanto, quanto mais cedo pagarem sua conta e saírem daqui, mais agradecido eu ficaria.

– Tudo bem, sr. Hayes, não fizemos por mal – disse Holmes. – Estivemos dando uma olhada em seus cavalos, mas creio que irei a pé, afinal. Não é longe, eu acho.

– Não mais de 3 quilômetros até os portões do Hall. É pela estrada da esquerda. – Ficou nos observando com olhos sombrios até que saímos de sua propriedade.

Não fomos muito longe pela estrada, pois Holmes parou assim que a curva fez com que saíssemos do campo de visão daquele homem.

– Estivemos quentes naquela hospedaria, como dizem as crianças – comentou. – Parece que fica mais frio à medida que me afasto. Não, não, não posso deixar isso.

– Estou convencido – eu disse – que esse Reuben Hayes sabe de tudo. Nunca vi um vilão tão óbvio.

– Oh! ele o impressionou tanto assim? Há os cavalos, a forja. Sim, é um lugar interessante, esse Galo de Briga. Acho que devemos dar uma outra olhada nele, de modo mais discreto.

Uma colina suave, longa, pontilhada de pedras calcárias, estendia-se atrás de nós. Havíamos saído da estrada e estávamos subindo a colina quando, ao olhar na direção de Holdernesse Hall, vi um ciclista pedalando rapidamente.

– Abaixe-se, Watson! – exclamou Holmes, batendo no meu ombro. Mal havíamos sumido de vista quando o homem passou rapidamente por nós, na estrada. Por entre as nuvens de poeira, vislumbrei um rosto pálido e agitado – um rosto com o horror estampado em cada traço, a boca aberta, os olhos vidrados. Era como uma estranha caricatura do esperto James Wilder que víramos na noite anterior.

– O secretário do duque! – exclamou Holmes. – Venha Watson, vamos ver o que ele vai fazer.

Escalamos de pedra em pedra, até que minutos depois chegamos a um ponto do qual podíamos ver a porta da frente do hotel. A bicicleta de Wilder estava encostada na parede lateral. Ninguém se movia pela casa, nem conseguimos ver alguém nas janelas. Devagar o crepúsculo chegou, enquanto o sol mergulhava atrás das torres de Holdernesse Hall. Então, na escuridão, vimos as duas lanternas laterais acesas de uma carruagem no pátio do estábulo do hotel, e logo depois ouvimos o barulho de cascos chegando à estrada e partindo em grande velocidade na direção de Chesterfield.

– O que acha disso, Watson? – sussurrou Holmes.

– Parece uma fuga.

– Só havia um homem na carruagem, pelo que pude ver. Bem, certamente não era o sr. James Wilder, pois ele está ali, em frente à porta.

Um quadrado vermelho de luz se acendera na escuridão. No meio dele estava o vulto negro do secretário, a cabeça inclinada para a frente, espreitando a noite. Era evidente que esperava alguém. Por fim, passos na estrada, uma outra figura ficou visível por um instante contra a luz, a porta bateu e tudo ficou escuro novamente. Cinco minutos depois uma lâmpada foi acesa num quarto do primeiro andar.

– Parece ser uma categoria curiosa de fregueses essa do Galo de Briga – disse Holmes.

– O bar fica do outro lado.

– Exato. Estes são o que podemos chamar de convidados particulares. Agora, que diabo está o sr. James Wilder fazendo naquela espelunca a essa hora da noite, e quem é o sujeito que vem para encontrá-lo ali? Vamos, Watson, precisamos realmente nos arriscar e tentar investigar isto um pouco mais de perto.

Descemos juntos até a estrada e nos aproximamos silenciosamente da porta do hotel. A bicicleta ainda estava encostada na parede. Holmes acendeu um fósforo para examinar o pneu traseiro, e eu o ouvi rir baixinho quando a luz incidiu sobre um pneu Dunlop remendado. Bem acima de nós estava a janela iluminada.

– Preciso dar uma olhada lá, Watson. Se você inclinar as costas e se apoiar na parede, acho que conseguirei.

Logo depois, seus pés estavam nos meus ombros; porém mal chegou lá em cima e já estava embaixo de novo.

– Venha, meu amigo – disse –, nosso dia de trabalho foi bastante longo. Creio que já conseguimos tudo o que podíamos. É uma longa caminhada até o colégio, e quanto mais cedo começarmos, melhor.

Ele mal abriu a boca durante aquela caminhada cansativa através do campo, e não entramos no colégio quando chegamos lá, mas fomos para a estação de Mackleton, de onde ele enviou alguns telegramas. Tarde da noite eu o ouvi consolando o dr. Huxtable, prostrado pela tragédia da morte do seu professor, e mais tarde ainda entrou no meu quarto, tão alerta e vigoroso como estivera quando começamos naquela manhã. – Está tudo indo bem, meu amigo – disse ele. – Prometo que antes de amanhã à noite teremos encontrado a solução do mistério.

Às 11 horas seguinte meu amigo e eu estávamos andando pela famosa alameda de teixos de Holdernesse Hall. Entramos pela magnífica porta elisabetana e fomos levados ao escritório de Sua Graça. Lá encontramos o sr. James Wilder, sério e cortês, mas com alguns vestígios daquele terror selvagem da noite ainda visíveis em seus olhos furtivos e na expressão crispada.

– Veio ver Sua Graça? Desculpe, mas o fato é que o duque não está lá muito bem. Ficou muito abalado com as notícias trágicas. Recebemos um telegrama do dr. Huxtable ontem à tarde, que nos informou da descoberta de vocês.

– Preciso ver o duque, sr. Wilder.

– Mas ele está no quarto dele.

– Então preciso ir ao quarto dele.

– Creio que ele está na cama.

– Vou vê-lo lá.

O jeito frio e implacável de Holmes mostrou ao secretário que era inútil discutir com ele.

– Muito bem, sr. Holmes, eu direi a ele que está aqui.

Depois de uma demora de uma hora, o grande nobre apareceu. Seu rosto estava mais cadavérico do que nunca, seus ombros estavam curvados e parecia ser um homem muito mais velho que na manhã anterior. Cumprimentou-nos com uma cortesia solene e sentou-se à sua escrivaninha, a barba vermelha caindo em ondas na mesa.

– E então, sr. Holmes? – disse.

Mas os olhos de meu amigo estavam fixos no secretário, que estava de pé atrás da cadeira do patrão.

– Creio, Sua Graça, que eu poderia falar mais francamente sem a presença do sr. Wilder.

O homem ficou pálido como um fantasma e lançou um olhar malévolo para Holmes.

– Se Sua Graça desejar...

– Sim, sim, seria melhor você ir. Agora, sr. Holmes, o que tem para dizer?

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