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A Fúria dos Reis

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A Fúria dos Reis
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– Ele é Waltyr, não Walder – Grande Walder respondeu com rapidez. – E está depois de nós, portanto não importa. Seja como for, nunca gostei dele.

Sor Rodrik decretou que os protegidos dividiriam o antigo quarto de Jon Snow, já que este estava na Patrulha da Noite e nunca voltaria. Bran detestou a ideia; sentia que era como se os Frey estivessem roubando o lugar de Jon.

Bran observava, tristonho, enquanto os Walder lutavam com Nabo, o filho do cozinheiro, e as filhas de Joseth, Bandy e Shyra. Os donos do jogo tinham decretado que Bran seria o juiz e decidiria se os jogadores tinham dito “talvez”, mas, assim que começaram a jogar, esqueceram-no por completo.

Os ruídos e espirros d’água em breve atraíram outros: Palla, a moça do canil; o filho de Cayn, Calon; e também Tom, cujo pai, Gordo Tom, tinha morrido com o pai de Bran em Porto Real. Não demorou muito tempo até ficarem todos encharcados e enlameados. Palla estava marrom da cabeça aos pés, com musgo no cabelo, sem fôlego, de tanto rir. Bran não ouvia tantas gargalhadas desde a noite em que chegara o corvo ensanguentado. Se tivesse as minhas pernas, atiraria todos na água, pensou amargamente. Ninguém seria senhor da travessia, a não ser eu.

Por fim, Rickon chegou correndo ao bosque sagrado, com Cão Felpudo logo atrás. Ficou vendo Nabo e o Pequeno Walder lutarem pelo bastão, até que Nabo se desequilibrou e caiu, provocando um grande esguicho de água, balançando os braços. Rickon gritou:

– Eu! Agora eu! Quero jogar! – Pequeno Walder fez sinal para ele subir, e Cão Felpudo começou a segui-lo. – Não, Felpudo – mandou o irmão. – Os lobos não podem brincar. Fica com Bran.

E o lobo ficou…

… até o momento em que o Pequeno Walder bateu com o bastão em Rickon, bem em cheio, na barriga. Antes que Bran piscasse os olhos, o lobo negro voou sobre a prancha. Havia sangue na água, e os Walder guinchavam como se fosse o fim do mundo. Rickon sentou-se na lama, rindo, e Hodor chegou pisando pesado, gritando “Hodor! Hodor! Hodor!”.

Depois daquilo, estranhamente, Rickon decidiu que gostava dos Walder. Não voltaram a brincar de senhor da travessia, mas jogavam outros jogos – monstros e donzelas, gatos e ratos, entra-no-meu-castelo, todo o tipo de coisas. Com Rickon a seu lado, os Walder saqueavam as cozinhas em busca de tortas e favos de mel, faziam corridas em volta das muralhas, atiravam ossos aos cachorros nos canis e treinavam com espadas de madeira sob o olhar atento de Sor Rodrik. Rickon até lhes mostrou as profundas abóbadas debaixo da terra onde o pedreiro esculpia a sepultura do pai.

– Você não tinha o direito! – gritou Bran ao irmão quando soube. – Aquele lugar é nosso, dos Stark!

Mas Rickon não tinha se importado.

A porta do seu quarto abriu-se. Meistre Luwin entrou, carregando um bule verde, e desta vez Osha e Hayhead vinham com ele.

– Fiz uma poção para você dormir, Bran.

Osha pegou-o com seus braços ossudos. Era muito alta para uma mulher, e forte como metal, e o levou sem esforço para a cama.

– Isto vai lhe dar um sono sem sonhos – disse Meistre Luwin, tirando a rolha do bule. – Um bom sono sem sonhos.

– Vai? – Bran perguntou, querendo acreditar.

– Sim. Beba.

Bran bebeu. A poção era espessa e calcária, mas continha mel, e desceu facilmente.

– Quando chegar a manhã, vai se sentir melhor.

Luwin deu a Bran um sorriso e uma palmadinha antes de se retirar.

Osha ficou por ali.

– São os sonhos do lobo de novo?

Bran confirmou com a cabeça.

– Não devia lutar tanto, rapaz. Vejo você falando com a árvore-coração. Talvez os deuses estejam tentando responder.

– Os deuses? – ele murmurou, já sonolento. A cara de Osha ficou embaçada e cinzenta. Um bom sono sem sonhos, Bran pensou.

Mas, quando a escuridão se fechou ao seu redor, deu por si no bosque sagrado, movendo-se em silêncio sob árvores-sentinela cinza-esverdeadas e carvalhos nodosos, velhos como o tempo. Estou andando, pensou, exultante. Parte dele sabia que era apenas um sonho, mas mesmo o sonho de andar era melhor do que a verdade do seu quarto, com as paredes, o teto e a porta.

Estava escuro entre as árvores, mas o cometa iluminava seu caminho, e seus pés eram firmes. Deslocava-se em quatro boas pernas, fortes e rápidas, e conseguia sentir o chão debaixo das patas, o suave crepitar das folhas caídas, as grossas raízes e as pedras duras, as profundas camadas de húmus. Era uma sensação boa.

Os cheiros enchiam sua cabeça, vivos e inebriantes; o fedor verde e lamacento das lagoas quentes, o perfume da rica terra que apodrecia sob as suas patas, os esquilos no topo dos carvalhos. O cheiro de esquilo fez com que recordasse o sabor do sangue quente e o jeito como os ossos estalariam entre os seus dentes. Sua boca encheu-se de saliva. Não comia há mais de meio dia, mas não havia qualquer graça na carne morta, mesmo que fosse de veado. Era capaz de ouvir os esquilos pipilando e sussurrando por cima da sua cabeça, em segurança entre as suas folhas, mas eram suficientemente prudentes para não descer até onde ele e o irmão rondavam.

Também cheirava o irmão, um odor familiar, forte e terroso, um odor tão negro como a sua pelagem. O irmão rondava ao redor dos muros, cheio de fúria. Dava voltas e mais voltas, noite e dia, incansável, à procura… de uma presa, de uma saída, da mãe, dos companheiros de ninhada, da matilha… à procura, à procura, sem nunca encontrar.

Atrás das árvores erguiam-se os muros, pilhas de rocha-de-homem morta que apareciam ao redor de toda aquela mancha de bosque vivo. Erguiam-se manchadas de cinza e salpicadas de musgo, mas espessas, fortes e mais altas do que qualquer lobo pudesse imaginar saltar. Ferro frio e madeira lascada fechavam os únicos buracos que havia entre as pedras empilhadas que os encerravam. O irmão parava junto a cada buraco e mostrava as presas, tomado de fúria, mas os caminhos permaneciam fechados.

Ele tinha feito o mesmo na primeira noite, e descobriu que não valia a pena. Ali, rosnados não abriam caminhos. Dar a volta junto aos muros não os faria recuar. Levantar uma pata e demarcar as árvores não manteria nenhum homem afastado. O mundo apertara-se em volta deles, mas para lá do bosque murado ainda se estendiam as grandes cavernas cinzentas da rocha-de-homem. Winterfell, lembrou-se, com o som chegando subitamente. E para lá das suas falésias altas como o céu, o verdadeiro mundo chamava, e ele sabia que tinha de responder, ou morreria.

Arya

Viajaram do nascer ao pôr do sol, passando por florestas, pomares e campos bem-cuidados, atravessando pequenas aldeias, vilas livres cheias de gente e robustos castros. Quando a noite chegava, montavam o acampamento e comiam à luz da Espada Vermelha. Os homens faziam turnos de guarda. Arya vislumbrava as fogueiras dos acampamentos de outros viajantes tremeluzindo por entre as árvores. Parecia haver mais acampamentos todas as noites, e mais tráfego na estrada do rei durante o dia.

Chegavam de manhã, à tarde e à noite, velhos e crianças, homens grandes e pequenos, garotas de pés descalços e mulheres com bebês no peito. Alguns conduziam carroças de campo ou eram sacudidos na parte de trás de carros de bois. Um número maior vinha montado em cavalos de tração, pôneis, mulas, burros, em qualquer coisa capaz de andar, correr ou rolar. Uma mulher puxava uma vaca leiteira com uma menininha no lombo. Arya viu um ferreiro que empurrava um carro de mão com suas ferramentas lá dentro, martelos e tenazes, e até uma bigorna, e pouco depois via outro homem com outro carro de mão, dessa vez contendo dois bebês enrolados numa manta. A maior parte vinha a pé, com as posses sobre os ombros e expressões muito, muito cansadas nos rostos. Caminhavam para o sul, na direção da cidade, para Porto Real, e só um em cem chegava a dirigir uma palavra a Yoren e àqueles que estavam sob sua responsabilidade, viajando para o norte. Perguntou a si mesma por que é que mais ninguém seguia na mesma direção que eles.

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