A Fúria dos Reis
- Автор: Мартин Джордж Рэймонд Ричард
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Год: Saida de Emerg
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «A Fúria dos Reis». Краткое содержание книги:
Sam bocejou.
– Meistre Aemon mandou-me encontrar mapas para o Senhor Comandante. Nunca pensei… Jon, os livros, já viu alguma coisa assim? Há milhares!
Jon olhou em volta.
– A biblioteca em Winterfell tem mais de cem. Encontrou os mapas?
– Ah, sim – Sam passou a mão, com dedos grossos como salsichas, por sobre a mesa, indicando o amontoado de livros e rolos à sua frente. – Pelo menos uma dúzia – ele desenrolou um pergaminho quadrado. – A tinta desbotou, mas ainda se vê onde o cartógrafo assinalou os locais de aldeias selvagens, e há outro livro… Onde está? Eu o estava lendo agora mesmo – Sam afastou alguns rolos para o lado, revelando um volume poeirento, com uma encadernação em couro apodrecido. – Este – ele exclamou com reverência – é o relato de uma viagem desde a Torre Sombria até o Cabo Desolado, na Costa Gelada, escrito por um patrulheiro chamado Redwyn. Não está datado, mas menciona um Dorren Stark como Rei do Norte. Portanto, deve ter sido escrito antes da Conquista. Jon, eles lutaram com gigantes! Redwyn até comerciou com os filhos da floresta, está tudo aqui – com toda delicadeza, Sam virou as páginas com um dedo. – Também desenhou mapas, veja…
– Talvez escreva um relato da nossa patrulha, Sam.
Pretendia soar encorajador, mas aquilo tinha sido a coisa errada a dizer. Tudo o que Sam menos precisava era ser lembrado do que os esperava na manhã seguinte. Então, pensativo, Sam moveu os rolos de um lado para o outro, sem propósito.
– Há mais mapas. Se tivesse tempo de procurar… Está tudo uma confusão. Mas eu poderia pôr tudo em ordem; sei que poderia, mas levaria tempo… Bem, na verdade, levaria anos.
– Mormont gostaria de ter esses mapas um pouco mais depressa do que isso – Jon tirou um rolo de uma caixa e soprou o grosso da poeira. Um canto desprendeu-se entre os seus dedos quando o desenrolou. – Olha, este está se desfazendo – disse, franzindo a testa diante das letras desbotadas.
– Tome cuidado – Sam rodeou a mesa e tirou o rolo da sua mão, pegando-o como se fosse um animal ferido. – Os livros importantes costumavam ser copiados quando precisavam deles. Alguns dos mais velhos foram copiados meia centena de vezes, provavelmente.
– Bem, não perca tempo copiando esse. Vinte e três barricas de bacalhau em conserva, dezoito jarras de óleo de peixe, uma pipa de sal…
– Um inventário – Sam concluiu. – Ou talvez uma conta de venda.
– Quem se importa com quanto bacalhau em conserva comeram há seiscentos anos? – Jon perguntou.
– Eu – Sam devolveu cuidadosamente o rolo à caixa de onde Jon o tirara. – Pode-se aprender muitas coisas com registros como este. É sério. Eles podem te dizer quantos homens havia na Patrulha da Noite nessa época, como viviam, o que comiam…
– Comiam comida – Jon rebateu. – E viviam como nós vivemos.
– Talvez você se surpreendesse. Esta galeria é um tesouro, Jon.
– Se você diz...
Jon tinha dúvidas. Tesouro queria dizer ouro, prata e joias, não poeira, aranhas e couro apodrecido.
– Digo sim – exclamou o gordo rapaz. Era mais velho do que Jon, legalmente um homem-feito, mas era difícil pensar nele como algo mais que um garoto. – Encontrei desenhos de caras nas árvores, e um livro a respeito da língua dos filhos da floresta… Trabalhos que nem a Cidadela possui, pergaminhos da antiga Valíria, contagens das estações feitas por meistres mortos há mil anos…
– Os livros ainda estarão aqui quando voltarmos.
– Se voltarmos…
– O Velho Urso vai levar duzentos homens experimentados, e três quartos deles são patrulheiros. Qhorin Halfhand trará mais cem irmãos da Torre Sombria. Estará tão seguro como estava no castelo do senhor seu pai, em Monte Chifre.
Samwell Tarly conseguiu dar um sorrisinho triste.
– Também nunca estive muito seguro, lá, no castelo do meu pai.
Os deuses fazem brincadeiras cruéis, Jon pensou. Pyp e Sapo, todos ansiosos por participar da grande patrulha, iam ficar em Castelo Negro. Era Samwell Tarly, o autoproclamado covarde, extremamente gordo, tímido. e quase tão ruim em montar a cavalo como com uma espada na mão, que teria de enfrentar a floresta assombrada. O Velho Urso ia levar duas gaiolas de corvos para que pudessem ir enviando notícias à medida que avançassem. Meistre Aemon era cego e frágil demais para ir com eles, portanto, seu intendente tinha de seguir no seu lugar.
– Precisamos de você para os corvos, Sam. E alguém terá de me ajudar a manter Grenn no seu devido lugar.
Os queixos de Sam estremeceram.
– Você poderia cuidar dos corvos, ou Grenn, ou qualquer um – ele disse com uma ponta de desespero na voz. – Eu poderia ensiná-lo como se faz. Você também conhece as letras, poderia escrever as mensagens de Lorde Mormont tão bem quanto eu.
– Eu sou o intendente do Velho Urso. Terei de ser seu escudeiro, cuidar do seu cavalo, montar sua tenda; não terei tempo para também vigiar pássaros. Sam, você pronunciou as palavras. Agora é um irmão da Patrulha da Noite.
– Um irmão da Patrulha da Noite não deveria estar tão assustado.
– Estamos todos assustados. Seríamos loucos se não estivéssemos.
Muitos patrulheiros tinham se perdido nos últimos dois anos, até Benjen Stark, tio de Jon. Tinham encontrado dois dos homens do tio na floresta, mortos, mas os cadáveres haviam se levantado na noite gelada. Os dedos queimados de Jon se contraíam quando se lembrava daquilo. Ainda via a criatura nos seus sonhos. Othor morto, com seus ardentes olhos azuis e frias mãos negras. Mas esta era a última coisa que ele deveria fazer Sam se lembrar.
– Meu pai ensinou-me que não há vergonha no medo, o que importa é o modo como o enfrentamos. Venha, eu ajudo você a reunir os mapas.
Sam fez um aceno infeliz. As estantes estavam tão próximas umas das outras, que tiveram de sair um atrás do outro. A galeria dava para um dos túneis, que os irmãos chamavam caminhos de minhoca, sinuosas passagens subterrâneas que ligavam as fortalezas e torres de Castelo Negro por baixo da terra. No verão, os caminhos de minhoca raramente eram usados, exceto por ratazanas e outras pragas, mas no inverno era diferente. Quando a neve chegava a dez ou quinze metros de altura, e os ventos gelados uivavam do norte, os túneis eram tudo o que mantinha Castelo Negro em funcionamento.
Em breve, Jon pensou, enquanto subiam. Tinha visto o mensageiro que chegara a Meistre Aemon com a notícia do fim do verão, o grande corvo da Cidadela, branco e silencioso como o Fantasma. Jon já vivera um inverno, quando era muito novo, mas todos concordavam que aquele tinha sido curto e suave. Este seria diferente. Conseguia senti-lo nos ossos.
Os íngremes degraus de pedra deixaram Sam bufando como um fole de ferreiro quando chegaram à superfície. Depararam-se com um vento fresco, que fez o manto de Jon rodopiar e esvoaçar. Fantasma estava adormecido junto à parede de taipa do celeiro, mas acordou quando Jon apareceu, mantendo a felpuda cauda branca rigidamente erguida enquanto trotava na direção deles.
Sam olhou a Muralha de canto de olho. Erguia-se acima das suas cabeças, uma escarpa gelada com duzentos metros de altura. Às vezes, parecia a Jon quase uma coisa viva, dotada de humores próprios. A cor do gelo tinha o costume de mudar a cada alteração da luz. Ora era o azul-profundo, dos rios gelados, ora o branco sujo da neve antiga, e quando uma nuvem passava à frente do sol, escurecia até o cinza-claro de pedra quebrada. A Muralha estendia-se para leste e para oeste, até tão longe quanto o olhar alcançava; tão imensa, que reduzia à insignificância as fortalezas de madeira e torres de pedra do castelo. Era o fim do mundo.
E nós vamos para além dela.