A Fúria dos Reis
- Автор: Мартин Джордж Рэймонд Ричард
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Год: Saida de Emerg
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «A Fúria dos Reis». Краткое содержание книги:
– Uma coisa que Cersei jamais esperará – murmurou Tyrion suavemente contra seu pescoço magro. – Vou fazer… justiça.
Bran
Bran preferia a pedra dura do banco junto à janela aos confortos do seu colchão de penas e dos cobertores. Na cama, as paredes apertavam-no e o teto caía, pesado, sobre ele; na cama, o quarto era sua cela, e Winterfell, uma prisão. Mas do outro lado da janela, o grande mundo ainda o chamava.
Não podia andar, nem escalar, nem caçar, nem lutar com uma espada de madeira como antigamente, mas ainda podia olhar. Gostava de observar as janelas que começavam a cintilar por toda Winterfell, à medida que velas e lareiras eram acesas atrás das vidraças em forma de losango de torres e salões, e adorava escutar o canto dos lobos gigantes sob as estrelas.
Nos últimos tempos, sonhava frequentemente com lobos. Estão falando comigo, de irmão para irmão, dizia consigo mesmo quando os lobos gigantes uivavam. Quase conseguia compreendê-los… Não conseguia de verdade, não propriamente, mas quase… Como se cantassem numa língua que ele tivesse conhecido em outros tempos e de algum modo esquecera. Os Walder podiam ter medo deles, mas os Stark tinham sangue de lobo. Foi a Velha Ama quem lhe dissera.
– Mas é mais forte em alguns do que em outros – ela o prevenira.
Os uivos de Verão eram longos e tristes, cheios de dor e saudade. Os de Cão Felpudo eram mais selvagens. Suas vozes ecoavam pelos pátios e salões, até todo o castelo ressoar e parecer que uma grande matilha de lobos selvagens assombrava Winterfell, em vez de serem apenas dois… dois, onde antes tinham existido seis. Será que eles também sentem falta dos irmãos e irmãs?, perguntava-se Bran. Será que estão chamando Vento Cinzento e Fantasma, Nymeria e a Sombra de Lady? Será que querem que venham para casa e formem uma matilha, todos juntos?
– Quem pode saber o que pensa um lobo? – tinha dito Sor Rodrik Cassel quando Bran lhe perguntou por que uivavam. A senhora sua mãe nomeara-o castelão de Winterfell na sua ausência, e os deveres do velho cavaleiro deixavam-lhe pouco tempo para perguntas inúteis.
– É pela liberdade que chamam – declarara Farlen, que era mestre dos canis e tinha tão pouca afeição aos lobos gigantes quanto aos seus cães. – Eles não gostam de estar cercados por muros, e quem pode culpá-los? O lugar das coisas selvagens é a natureza, não um castelo.
– Querem caçar – concordara o cozinheiro Gage, enquanto despejava cubos de sebo numa grande caldeira de guisado. – Um lobo tem o olfato melhor que qualquer homem. O mais certo é que tenham sentido cheiro de presa.
Meistre Luwin tinha outra opinião.
– Os lobos uivam frequentemente à lua. Esses estão uivando para o cometa. Vê como é brilhante, Bran? Talvez pensem que é a lua.
Quando Bran repetiu esta ideia a Osha, ela riu com gosto.
– Seus lobos têm mais juízo do que seu meistre – tinha dito a selvagem. – Conhecem verdades que o homem cinzento esqueceu – a maneira como ela dissera aquilo tinha feito Bran estremecer, e, quando perguntou o que significava o cometa, ela respondeu: – Sangue e fogo, rapaz, e nada de bom.
Bran tinha perguntado ao Septão Cheyle sobre o cometa, enquanto organizavam alguns rolos salvos do incêndio da biblioteca.
– É a espada que mata a estação – o septão respondera, e pouco tempo depois chegava o corvo branco de Vilavelha, trazendo a notícia sobre o Outono, portanto ele tinha razão.
Mas a Velha Ama achava que não, e ela vivera mais tempo do que qualquer um dos outros.
– Dragões – ela disse, erguendo a cabeça e fungando. Estava quase cega, e não conseguia ver o cometa, mas se dizia capaz de cheirá-lo. – São dragões, menino – insistiu. Bran não ouvia príncipes da Ama, não como antigamente.
Hodor disse apenas “Hodor”. Era o que ele dizia sempre.
E, contudo, os lobos gigantes uivavam. Os guardas nas muralhas praguejavam, os cães, nos canis, latiam furiosamente, nos estábulos, os cavalos escoiceavam, os Walder estremeciam junto à lareira, e até Meistre Luwin se queixava de noites sem dormir. Só Bran não se importava. Sor Rodrik tinha confinado os lobos no bosque sagrado depois de Cão Felpudo ter mordido o Pequeno Walder, mas as pedras de Winterfell faziam estranhos truques com o som, e às vezes os animais pareciam estar no pátio logo abaixo da sua janela. Em outras, poderia jurar que eles estavam na muralha exterior, trotando em voltas, como sentinelas. Gostaria de conseguir vê-los.
Conseguia ver o cometa que pairava sobre o Salão dos Guardas, a Torre do Sino e a Primeira Fortaleza, que ficava mais além, atarracada e redonda, com as gárgulas transformadas em silhuetas negras contra o crepúsculo purpúreo ferido. Bran conhecera cada pedra daqueles edifícios, por dentro e por fora; escalara todos, correndo parede acima com a mesma facilidade com que outros rapazes corriam escada abaixo. Aqueles telhados tinham sido seus esconderijos, e os corvos que viviam no topo da torre em ruínas, seus amigos especiais.
E então caíra.
Bran não se lembrava de ter caído, mas diziam que sim, então supunha que fosse verdade. Quase morrera. Quando viu as gárgulas desgastadas pelas intempéries no topo da Primeira Fortaleza, onde tudo tinha acontecido, sentiu um estranho aperto na barriga. E agora não podia escalar, nem caminhar, nem correr, nem lutar com uma espada, e os sonhos de cavalaria que sonhara tinham se azedado na sua cabeça.
Verão tinha uivado no dia em que Bran caiu, e durante muito tempo depois, enquanto ele jazia inconsciente na cama; Robb tinha lhe contado antes de partir para a guerra. Verão velou por ele, e Cão Felpudo e Vento Cinzento tinham se juntado na dor. E na noite em que o corvo ensanguentado trouxe a notícia da morte do pai, os lobos também souberam. Bran estava no torreão do meistre com Rickon, conversando sobre os filhos da floresta, quando Verão e Cão Felpudo abafaram a voz de Luwin com seus uivos.
Por quem eles estão de luto agora? Teria algum inimigo matado o Rei do Norte, que antes havia sido seu irmão Robb? Teria o irmão bastardo Jon caído da Muralha? Teria a mãe, ou uma das suas irmãs, morrido? Ou teria sido outra coisa, como pareciam pensar o meistre, o septão e a Velha Ama?
Se eu fosse mesmo um lobo gigante, compreenderia a canção, Bran pensou com melancolia. Nos seus sonhos de lobo, conseguia correr pelas vertentes de montanhas, recortadas cobertas de neve, mais altas do que qualquer torre, e erguer-se no cume, sob a lua cheia, com todo o mundo a seus pés, como costumava acontecer.
– Uuuuu – gritou Bran experimentalmente. Pôs as mãos em torno da boca e ergueu a cabeça para o cometa. – Uuuuuuuuuuuuuuuu, ahuuuuuuuuuuuuu – uivou. Soava estúpido, agudo, vazio e inseguro, o uivo de um garotinho, não de um lobo. Mas Verão respondeu, com sua profunda voz sobrepondo-se ao timbre fino de Bran, e Cão Felpudo juntou-se ao coro. Bran voltou a soltar um ahuuuu. Uivaram juntos, os últimos da matilha.
O barulho trouxe um guarda à sua porta, Hayhead, com seu quisto no nariz. Espreitou para dentro, viu Bran uivando na janela e disse:
– O que é isso, meu príncipe?
Bran sentia-se estranho quando o chamavam de príncipe, embora ele fosse herdeiro de Robb, e Robb fosse agora Rei do Norte. Virou a cabeça para uivar ao guarda.
– Uuuuuuu. Uu-uu-uuuuuuuuuuuu.
Hayhead contraiu o cenho.
– Pare já com isso.
– Uuu-uuu-uuuuuu. Uuu-uuu-uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu.
O guarda retirou-se. Quando voltou, trazia consigo Meistre Luwin, todo de cinza, com a corrente apertada em volta do pescoço.
– Bran, aqueles animais já fazem barulho suficiente sem a sua ajuda – atravessou a sala e pôs a mão na testa do rapaz. – Está ficando tarde, devia estar dormindo.