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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Uma senhora de meia-idade, que era a governanta, suponho.

– Presumo que tenha sido ela quem mencionou o seu nome?

– Exatamente – disse McFarlane.

– Continue, por favor.

McFarlane enxugou a testa úmida e continuou a narrativa:

– Essa senhora me levou até uma sala de estar onde estava servido um jantar frugal. Mais tarde, o sr. Jonas Oldacre me levou até o seu quarto, onde havia um cofre pesado. Ele o abriu e pegou uma pilha de documentos, que examinamos juntos. Terminamos entre 23 horas e meia-noite. Ele comentou que não deveríamos perturbar a governanta. Fez com que eu saísse pela porta envidraçada que ficara aberta o tempo todo.

– A veneziana da janela estava abaixada?

– Não tenho certeza, mas creio que estava apenas à meia altura. Sim, lembro-me de que ele a levantou para abrir a janela. Eu não conseguia achar a minha bengala, e ele disse: “Não tem importância, meu rapaz, eu o verei com freqüência agora, espero, e eu a guardarei até que volte para apanhá-la”. Deixei-o lá, o cofre aberto e os papéis em pilhas sobre a mesa. Era tão tarde que não poderia voltar a Blackheath, de modo que passei a noite no Anerley Arms, e não soube de mais nada até que li sobre este caso horrível de manhã.

– Não há mais nada que gostaria de perguntar, sr. Holmes? – disse Lestrade, cujas sobrancelhas se ergueram uma ou duas vezes durante este relato.

– Não até que tenha ido a Blackheath.

– Você quer dizer a Norwood – comentou Lestrade.

– Ah, sim, sem dúvida é o que pretendia dizer – afirmou Holmes, com seu sorriso enigmático. Lestrade aprendera, por mais experiências do que podia se lembrar, que aquela mente afiada como lâmina podia trespassar o que era impenetrável para ele. Vi que olhava  com curiosidade para o meu amigo.

– Acho que gostaria de ter uma palavra com o senhor – disse ele para Holmes. – Agora, sr. McFarlane, dois de meus homens estão lá na porta, e há um carro esperando. – O infeliz jovem se levantou com um último olhar suplicante para nós, e saiu da sala. Os policiais o levaram para o cabriolé, mas Lestrade ficou.

Holmes apanhara as páginas do rascunho do testamento e as estava examinando com o maior interesse.

– Existem alguns detalhes a respeito deste documento, Lestrade, não é? – disse ele, entregando-os.

O policial olhou para eles com uma expressão confusa.

– Posso ler as primeiras linhas, e as do meio da segunda página, e uma ou duas no final. São nítidas como se fossem impressas – disse ele –, mas a escrita entre elas é muito ruim, e há três lugares em que não consigo ler nada.

– O que você deduz daí? – disse Holmes.

– Bem, o que  deduz dele?

– Que foi escrito num trem. A caligrafia boa representa paradas, a ruim significa movimento, e a muito ruim, passando por desvios. Um perito diria que isto foi escrito numa linha suburbana, já que em nenhum outro lugar, a não ser na periferia de uma cidade grande, haveria uma sucessão tão rápida de desvios. Admitindo que ele passou a viagem toda fazendo o testamento, então o trem era um expresso, só parando uma vez entre Norwood e a Ponte de Londres.

Lestrade começou a rir.

– O senhor é demais para mim quando começa com suas teorias, sr. Holmes – disse ele. – O que isso tem a ver com o caso?

– Bem, isso confirma a história do rapaz de que o testamento foi escrito por Jonas Oldacre durante sua viagem ontem. É curioso – não é? – que um homem escreva um documento tão importante de maneira tão displicente. Isso sugere que ele não achava que iria ter muita importância prática. Se um homem fosse escrever um testamento que não quisesse efetivar nunca, ele o faria desta maneira.

– Bem, ele escreveu ao mesmo tempo a sua própria sentença de morte – disse Lestrade.

– Oh, acha isso?

– Você não?

– Bem, é possível, mas o caso ainda não está claro para mim.

– Não está claro? Bem, se aquilo não está claro, o que estar? Temos um rapaz que de repente descobre que, se um certo homem idoso morrer, ele herdará uma fortuna. O que ele faz? Não diz nada a ninguém, mas inventa que tem de ir visitar seu cliente, sob algum pretexto, aquela noite. Espera até que a outra pessoa da casa esteja na cama, e então, no isolamento do quarto de um homem, assassina-o, queima seu corpo na pilha de madeira e vai para um hotel da vizinhança. As manchas de sangue no quarto e também na bengala são muito tênues. É provável que imaginasse que seu crime fosse sem sangue, e pensou que se o corpo fosse consumido, ocultaria todos os traços do método da morte – traços que, por algum motivo, apontariam para ele. Isso tudo não é óbvio?

– Isto me impressiona, meu bom Lestrade, por ser uma ninharia óbvia demais – disse Holmes. – Você não acrescenta imaginação às suas outras grandes qualidades, mas se o conseguir por um instante, ponha-se no lugar deste rapaz; escolheria a noite seguinte à preparação do testamento, para cometer seu crime? Não pareceria perigoso, para você, fazer uma relação tão próxima entre os dois incidentes? Além disso, escolheria uma ocasião em que sabiam que você estava na casa, quando uma empregada o deixara entrar? E, finalmente, você se esforçaria para ocultar o corpo e mesmo assim deixa sua própria bengala como um sinal de que foi o criminoso? Confesse, Lestrade, que tudo isso é muito improvável.

– Com relação à bengala, sr. Holmes, sabe tão bem quanto eu que em geral um criminoso é um indivíduo perturbado, e faz coisas que um homem equilibrado evitaria. Muito provavelmente ele estava com medo de voltar ao quarto. Dê-me outra teoria que se encaixe nos fatos.

– Poderia facilmente dar meia dúzia – disse Holmes. – Aqui, por exemplo, está uma muito possível e mesmo provável. Vou dá-la de graça para você. O velho está mostrando documentos que são de valor evidente, um vagabundo passa e os vê pela janela, cuja persiana só está à meia altura. O advogado sai. Entra o vagabundo! Pega a bengala que vê ali, mata Oldacre e vai embora depois de queimar o corpo.

– Por que o vagabundo queimaria o corpo?

– Quanto a isso, por que McFarlane o faria?

– Para esconder alguma prova.

– Possivelmente o vagabundo queria esconder que havia sido cometido um crime.

– E por que ele não levou nada?

– Porque não eram papéis que ele pudesse negociar.

Lestrade balançou a cabeça, embora me desse a impressão de estar menos seguro do que antes.

– Bem, sr. Sherlock Holmes, pode procurar o seu vagabundo, e enquanto faz isso, nós seguraremos o nosso homem. O futuro mostrará quem está certo. Mas atente para este ponto, sr. Holmes: até onde sabemos, nenhum dos papéis foi roubado, e nosso prisioneiro é o único homem no mundo que não tinha motivo para tirá-los de lá, já que era o herdeiro legítimo, e teria a posse deles de qualquer maneira.

Meu amigo pareceu impressionado por esta observação.

– Não nego que a evidência, em alguns aspectos, é muito forte em favor de sua teoria – disse ele. – Só desejo lembrar que existem outras teorias possíveis. Como você disse, o futuro decidirá. Até logo! Acho que durante o dia vou dar um pulo a Norwood e ver como está se saindo.

Quando o detetive foi embora, meu amigo levantou-se e fez seus preparativos para o dia de trabalho com a expressão alerta de um homem que tem pela frente uma tarefa adequada.

– Meu primeiro movimento, Watson – disse ele, enquanto se metia na sua sobrecasaca –, tem de ser, como eu disse, na direção de Blackheath.

– Por que não Norwood?

– Porque nós temos neste caso um incidente singular vindo junto com outro incidente singular. A polícia está cometendo o erro de concentrar sua atenção no segundo, porque este parece ser o único realmente criminoso. Mas para mim é evidente que a maneira lógica de solucionar o caso é começar tentando jogar alguma luz sobre o primeiro incidente – o curioso testamento, feito tão repentinamente, e para um herdeiro tão inesperado. Pode ajudar a simplificar o que veio depois. Não, meu caro amigo, não acho que você possa me ajudar. Não existe nenhuma perspectiva de perigo, ou nem sonharia em sair sem você. Creio que quando o vir à noite, estarei apto a dizer que pude fazer algo por este jovem infeliz que se colocou sob a minha proteção.

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