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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Peguei-o! Peguei quem, sr. Holmes?

– O homem que toda a perícia tem procurado em vão – o coronel Sebastian Moran, que atirou no Ronald Adair com uma bala explosiva, de uma arma de ar comprimido, pela janela aberta do segundo andar em frente ao número 427 de Park Lane, no dia 30 do mês passado. Esta é a acusação, Lestrade. E agora, Watson, se puder agüentar a corrente de ar da janela quebrada, creio que meia hora no meu gabinete, fumando um charuto, pode lhe proporcionar alguma diversão proveitosa.

Nossos velhos aposentos estavam intactos devido à supervisão de Mycroft Holmes e aos cuidados da sra. Hudson. É verdade que, quando entrei, vi uma bagunça incomum, mas todos os velhos pontos de referência continuavam em seus lugares. Lá estavam o canto da química e a mesa de pinho manchada de ácido. Numa prateleira havia vários cadernos enormes de notas e livros de referência, que muitos dos nossos concidadãos adorariam queimar. Os diagramas, o estojo do violino e o conjunto do cachimbo – até mesmo o chinelo persa que continha o tabaco – vi todos ali assim que dei uma olhada em volta. Havia dois ocupantes na sala – um, a sra. Hudson, que sorriu para nós quando entramos; o outro, o estranho boneco que desempenhara um papel importante na aventura noturna. Era um modelo cor de cera do meu amigo, feito de maneira tão admirável que era um fac-símile exato. Ficava num pequeno pedestal, com um velho chambre de Holmes, tão bem colocado que, da rua, a ilusão era absolutamente perfeita.

– Espero que tenha tomado todas as precauções, sra. Hudson – disse Holmes.

– Entrei lá de joelhos, senhor, exatamente como me mandou.

– Excelente. Trabalhou muito bem. Viu por onde a bala passou?

– Sim, senhor. Receio que tenha estragado seu bonito busto, pois passou direto pela cabeça e se esborrachou na parede. Peguei-a no tapete. Aqui está!

Holmes mostrou-me a bala. – Uma bala de revólver macia, Watson, está vendo? É genial isto, pois quem imaginaria uma coisa dessa sendo disparada de uma espingarda de ar? Tudo bem, sra. Hudson. Estou muito grato pela sua ajuda. E agora, Watson, deixe-me vê-lo uma vez mais sentado em sua velha poltrona, pois quero discutir vários detalhes com você.

Tirara a sobrecasaca surrada e agora era o velho Holmes no roupão cor de rato que tirara do seu busto.

– Os nervos do velho não perderam sua firmeza, nem seus olhos a crueldade – disse ele com uma risada, enquanto examinava a testa esmigalhada de seu busto.

– Bem no meio da parte posterior da cabeça, direitinho através do cérebro. Era o melhor atirador da Índia, e acho que existem poucos melhores em Londres. Ouviu falar no seu nome?

– Não, não ouvi.

– Ora, ora, assim é a fama. Mas, se me lembro bem, você não tinha ouvido o nome do professor James Moriarty, que foi um dos maiores cérebros do século. Quer apanhar o índice de biografias na estante?

Virava as páginas preguiçosamente, recostado na cadeira e soltando grandes baforadas do cachimbo.

– Minha coleção de M é ótima – comentou. – O próprio Moriarty é suficiente para tornar qualquer letra ilustre, e aqui estão Morgan, o envenenador, Merridew, de abominável lembrança, e Mathews, que arrancou com um soco o meu canino esquerdo na sala de espera de Charing Cross, e finalmente, eis o nosso amigo desta noite.

Estendeu-me o livro, e li:

Desempregado. Antigamente no Primeiro Batalhão dos Pioneiros de Bangalore. Nascido em Londres em 1840. Filho de  Augustus Moran, C. B., que foi embaixador britânico na Pérsia. Educado em Eton e Oxford. Serviu na campanha de Jowaki, na campanha afegã, Charasiab (despachos), Sherpur e Cabul. Autor de  (1881), (1884). Endereço: Conduit Street. Clubes: O Anglo-Indiano, o Tankerville e o Clube Bagatelle de Cartas.

Na margem estava escrito, com a letra firme de Holmes:

O segundo homem mais perigoso de Londres.

– É assombroso – eu disse ao devolver o livro. – A carreira deste homem é a de um soldado honrado.

– É verdade – respondeu Holmes. – Até certo ponto ele agiu corretamente. Sempre foi um homem de nervos de aço, e conta-se ainda na Índia a história de como se arrastou por um escoadouro atrás de um tigre devorador de homens ferido. Existem árvores, Watson, que crescem até certa altura e de repente desenvolvem um desvio disforme. Você perceberá isso com freqüência nos seres humanos. Tenho uma teoria segundo a qual o indivíduo reproduz no seu desenvolvimento toda a evolução de seus antepassados e que uma mudança repentina, para o bem ou para o mal, surge em conseqüência de alguma  forte influência ocorrida em sua linhagem.

– Isto com certeza é bem fantasioso.

– Bem, não vou insistir neste ponto. Seja qual for a causa, o coronel Moran começou a comportar-se mal. Sem qualquer escândalo público, ainda tornou a Índia quente demais para abrigá-lo. Reformou-se, veio para Londres e adquiriu de novo má fama. Nessa época, foi requisitado pelo professor Moriarty, para quem trabalhou durante algum tempo como chefe da equipe. Moriarty o abastecia generosamente de dinheiro e o utilizou em apenas um ou dois trabalhos de primeira categoria, que nenhum criminoso comum poderia realizar. Você deve ter alguma lembrança da morte da sra. Stewart, de Lauder, em 1887. Não? Bem, estou certo de que Moran estava por trás disso, mas nada pôde ser provado. Foi tão esperto que, mesmo quando a quadrilha de Moriarty foi desbaratada, nós não conseguimos incriminá-lo. Você se lembra de que naquela data, quando fui visitá-lo em seus aposentos, fechei as venezianas com medo das armas de ar comprimido? É claro que você pensou que eu era um lunático. Eu sabia o que estava fazendo, porque tinha conhecimento da existência dessa arma notável, e sabia também que um dos maiores atiradores do mundo estaria atrás de mim. Quando fomos para a Suíça, ele nos seguiu com Moriarty e, sem sombra de dúvida, foi ele quem me proporcionou aqueles malditos cinco minutos na saliência de Reichenbach.

– Pode imaginar que li aqueles papéis com atenção durante minha estada na França, à espera de alguma oportunidade de pegá-lo pelo pé. Assim que ele estivesse livre em Londres, minha vida não valeria absolutamente nada. Noite e dia sua sombra estaria no meu encalço, e cedo ou tarde ele teria sua oportunidade. O que eu poderia fazer? Não poderia simplesmente atirar nele, ou eu mesmo iria para o banco dos réus. Não adiantaria apelar para um juiz. Eles não poderiam interferir com energia no que, para eles, pareceria uma suspeita insensata. Portanto, não poderia fazer nada. Mas olhava as notícias de crimes, sabendo que mais cedo ou mais tarde eu o pegaria. Aí veio a morte desse Ronald Adair. Minha oportunidade chegara finalmente. Pelo que eu sabia, não era certo que o coronel Moran tivesse feito isso? Ele jogara cartas com o rapaz, seguira-o do clube até em casa, atirara nele através da janela aberta. Sobre isso não havia dúvidas. Só as balas seriam suficientes para enforcá-lo. Comecei a trabalhar logo. Fui visto pela sentinela que, eu sabia, iria chamar a atenção do coronel para a minha presença. Ele não deixaria de ligar a minha volta repentina ao seu crime e ficaria terrivelmente alarmado. Eu tinha certeza de que ele tentaria me tirar do caminho e usaria sua arma mortal com este propósito. Deixei para ele um ótimo alvo na janela e, tendo avisado a polícia de que poderíamos precisar dela – falando nisso, Watson, você descobriu a presença deles na porta com grande exatidão –, ocupei o lugar que me pareceu ser um bom posto de observação, sem nunca ter imaginado que ele escolheria o mesmo lugar para o seu ataque. Agora, meu caro Watson, quer que eu explique mais alguma coisa?

– Sim – eu disse. – Você não esclareceu qual o motivo do coronel Moran para assassinar o Ronald Adair.

– Ah, meu caro Watson, aqui entraremos nos domínios da conjectura, onde a mais lógica das mentes pode falhar. Cada um pode formular sua própria hipótese em cima da evidência existente, e a sua pode estar tão correta quanto a minha.

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