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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Maravilhoso! – disse Lestrade. – Maravilhoso! Está tudo claro como cristal, do jeito como explica. Mas qual é o objetivo desta imensa fraude?

Divertia-me ver como o comportamento arrogante do inspetor mudara rapidamente para o de uma criança fazendo perguntas ao professor.

– Ora, não acho muito difícil explicar. O cavalheiro que agora está nos esperando lá embaixo é uma pessoa muito astuta, maliciosa e vingativa. Sabe que uma vez ele foi rejeitado pela mãe de McFarlane? Não sabe! Eu lhe disse que deveria ir primeiro a Blackheath e depois a Norwood. Bem, essa ferida, se a considerarmos assim, envenenava-lhe a mente cruel e ardilosa, e durante toda a vida desejou vingança, mas nunca via sua oportunidade. Durante o ano passado, e talvez no anterior também, as coisas correram mal para ele – especulações secretas, acho – e ele descobre que está em má situação. Resolve dar um calote nos seus credores e, com esse objetivo, paga grandes cheques em favor de um certo sr. Cornelius, que é, imagino, ele mesmo com outro nome. Ainda não localizei esses cheques, mas não tenho dúvida de que estão depositados sob aquele nome em alguma cidade do interior onde Oldacre, de tempos em tempos, levava uma vida dupla. Pretendia mudar de nome, pegar seu dinheiro e desaparecer, começando uma vida nova em outro lugar.

– É, isso é bem provável.

– Pensou que, se desaparecesse, tiraria os perseguidores da sua pista e, ao mesmo tempo, iria se vingar de modo esmagador de sua antiga namorada se desse a impressão de que fora assassinado pelo filho único dela. Era uma obra-prima de maldade, e ele a conduziu como um mestre. A idéia do testamento, que daria um motivo óbvio para o crime, a visita secreta sem o conhecimento dos pais, a retenção da bengala, o sangue e os restos de animais e os botões na pilha de madeira, tudo isso é admirável. Era uma rede da qual me parecia, algumas horas atrás, não haver escapatória. Mas ele não tinha aquele dom supremo do artista: saber quando parar. Queria melhorar o que já estava perfeito – apertar ainda mais a corda em torno do pescoço de sua desgraçada vítima – e aí arruinou tudo. Vamos descer, Lestrade. Quero fazer uma ou duas perguntas a ele.

A criatura maligna estava sentada em sua própria sala de visitas, com um policial de cada lado.

– Foi uma brincadeira, meu bom senhor – um trote, nada mais – ele gemia sem parar. – Eu lhe asseguro, senhor, que eu só me escondi para ver o efeito do meu desaparecimento, e tenho certeza de que não seria tão injusto a ponto de imaginar que eu permitiria que algum mal acontecesse ao pobre rapaz McFarlane.

– Isso é o júri que vai decidir – disse Lestrade. – De qualquer modo, nós o prendemos sob acusação de conspiração, se não por tentativa de homicídio.

– E você com certeza vai descobrir que os seus credores confiscarão a conta bancária do sr. Cornelius – disse Holmes.

O homenzinho estremeceu e virou seus olhos malignos para o meu amigo.

– Tenho muito que agradecer a você – ele disse. – Talvez algum dia eu pague a minha dívida.

Holmes sorriu com indulgência.

– Imagino que, durante alguns anos, o seu tempo estará muito ocupado – disse ele. – Falando nisso, o que foi que colocou na pilha de madeira, além de suas calças? Um cachorro morto, coelhos ou o quê? Não quer dizer? Pobre de mim, quanta indelicadeza sua! Ora, ora, arriscaria dizer que um casal de coelhos serviria de explicação para o sangue e para os restos torrados. Se algum dia escrever um resumo disto, Watson, pode usar os coelhos para o seu objetivo.

a aventura dos

homenzinhos dançantes

Holmes estava sentado em silêncio havia algumas horas, com as suas costas longas e magras curvadas sobre um recipiente químico, no qual despejava algum produto malcheiroso. Seu queixo estava enterrado no peito, e ele parecia um pássaro estranho e encolhido, com uma plumagem cinza-fosca e um topete preto.

– Então, Watson – ele disse de repente –, você não pretende investir em ações sul-africanas?

Dei um gemido de espanto. Embora eu estivesse acostumado aos curiosos talentos de Holmes, esta intromissão repentina nos meus pensamentos mais íntimos era completamente inexplicável.

– Como é que sabe disso? – perguntei.

Ele girou em seu tamborete, com um tubo de ensaio fumegante na mão e um

brilho divertido nos olhos fundos.

– Ora, Watson, confesse que foi apanhado inteiramente de surpresa – disse ele.

– Fui mesmo.

– Devia fazer você assinar um papel dizendo isso.

– Por quê?

– Porque daqui a cinco minutos vai dizer que isso tudo é muito simples.

– Tenho certeza de que não direi nada desse tipo.

– Veja, meu caro Watson – pôs o tubo de ensaio no seu suporte e começou a falar como um professor se dirigindo à sua classe –, não é realmente difícil elaborar uma série de deduções, cada uma dependente de sua antecessora e simples em si mesma. Se, depois de fazer isso, simplesmente deitamos por terra todas as deduções centrais e apresentamos ao público o ponto de partida e a conclusão, podemos produzir efeitos espantosos, embora possivelmente falsos. Portanto, não foi realmente difícil, pela observação do sulco entre seu dedo indicador e o polegar esquerdos, perceber que você pretende investir seu pequeno capital nas minas de ouro.

– Não vejo nenhuma ligação.

– Provavelmente não; mas posso mostrar-lhe rapidamente uma ligação estreita. Aqui estão os elos que faltam nessa cadeia simples: 1) Você tinha giz entre seu dedo e o polegar esquerdos quando voltou do clube na noite passada. 2) Você passa giz aí quando joga bilhar, para fixar o taco. 3) Nunca joga bilhar, a não ser com Thurston. 4) Você me disse, quatro semanas atrás, que Thurston tinha uma opção sobre algumas propriedades na África do Sul que expiraria em um mês, e que ele queria dividi-la com você. 5) Seu talão de cheques está trancado na minha gaveta, e você não me pediu a chave. 6) Você não pensa em investir o seu dinheiro desta maneira.

– Como é absurdamente simples! – exclamei.

– De fato! – disse ele, um pouco irritado. – Todo problema passa a ser infantil depois que é explicado a você. Aqui está um inexplicado. Veja o que pode fazer com isto, caro Watson. Atirou um pedaço de papel sobre a mesa, e virou-se de novo para a sua análise química.

Olhei com espanto para os hieróglifos absurdos que estavam no papel.

– Mas, Holmes, é um desenho de criança – exclamei.

– Oh, é o que pensa?

– O que mais poderia ser?

– Isso é o que o sr. Hilton Cubitt, de Riding Thorpe Manor, Norfolk, está muito ansioso para saber. Este pequeno enigma veio pela primeira remessa e ele viria depois, no próximo trem. A campainha está tocando, Watson. Não me surpreenderia se fosse ele.

Ouvimos passos pesados na escada e logo depois entrou um homem alto, corado e bem barbeado, cujos olhos claros e bochechas vermelhas indicavam uma vida passada bem longe da neblina de Baker Street. Parecia trazer junto com ele um sopro forte, fresco e revigorante do ar litorâneo quando entrou. Depois de nos cumprimentar com um aperto de mão, estava prestes a se sentar quando seu olhar pousou no papel com as marcas curiosas que eu havia examinado e deixado sobre a mesa.

– Bem, sr. Holmes, o que acha delas? – perguntou. – Disseram-me que gostava de mistérios estranhos, e não acredito que encontre um mais estranho do que esse. Mandei o papel primeiro, para que tivesse tempo de examiná-lo antes da minha chegada.

– É de fato uma criação curiosa – disse Holmes. – À primeira vista parece ser uma brincadeira de criança. Consiste em algumas figurinhas ridículas dançando no papel em que estão desenhadas. Por que dá importância a uma coisa tão grotesca?

– Eu nunca daria, sr. Holmes. Mas a minha mulher dá. Isso a está matando de medo. Ela não diz nada, mas vejo terror nos seus olhos. Por isso quero tirar tudo a limpo.

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