Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
Электронная книга - «Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]». Краткое содержание книги:
Era realmente como nos velhos tempos, quando, àquela hora, eu me sentei ao lado dele num cabriolé, revólver no bolso, e a excitação da aventura no coração. Holmes estava frio, sombrio e silencioso. Quando as luzes dos postes batiam sobre a sua fisionomia austera, eu via que as sobrancelhas estavam franzidas em meditação e os lábios comprimidos. Não sabia que monstro selvagem nós estávamos prestes a caçar na selva escura do crime de Londres, mas tinha certeza, pela conduta deste mestre-caçador, que a aventura era das mais sérias – embora o sorriso sardônico que rompia de vez em quando a sua melancolia austera indicasse pouca sorte para o objeto da nossa busca.
Eu imaginara que estávamos indo para Baker Street, mas Holmes mandou o cabriolé parar na esquina da Cavendish Square. Observei que, quando saltou, deu uma olhada atenta para a direita e para a esquerda, e, a cada esquina subseqüente, ele tomava os maiores cuidados para se assegurar de que não estava sendo seguido. Nosso trajeto, certamente, era singular. O conhecimento que Holmes tinha dos atalhos de Londres era extraordinário, e nesta ocasião ele passou rapidamente, e com passo seguro, por uma série de garagens e estábulos de cuja existência eu nunca soubera. Saímos finalmente numa estrada pequena, ladeada de casas velhas e austeras, que nos levou a Manchester Street, e daí para Blandford Street. Ali ele desceu rapidamente por uma passagem estreita, entrou por um portão de madeira num pátio deserto e então abriu com uma chave a porta dos fundos de uma casa. Entramos juntos, e ele a fechou atrás de nós.
O lugar estava totalmente escuro, mas para mim era evidente que se tratava de uma casa vazia. Nossos pés estalavam no assoalho nu, e minha mão estendida tocou uma parede, cujo papel estava rasgado em tiras. Os dedos finos e frios de Holmes se fecharam em torno do meu pulso e me conduziram através de um saguão, até que percebi vagamente a lúgubre clarabóia na bandeira da porta. Ali, Holmes virou de repente para a direita, e nos encontramos numa sala ampla, quadrada, vazia, muito escura nos cantos, mas fracamente iluminada no centro pelas luzes que vinham da rua. Como não havia nenhum poste próximo e o vidro da janela estivesse opaco devido ao pó, podíamos apenas vislumbrar os vultos um do outro ali dentro. Meu amigo pôs a mão no meu ombro e os lábios perto do meu ouvido.
– Você sabe onde estamos? – sussurrou.
– Certamente aquela é Baker Street – respondi, olhando através da janela opaca.
– Exatamente. Estamos em Camden House, que fica em frente aos nossos velhos aposentos.
– Mas por que estamos aqui?
– Porque tem uma vista excelente daquele pitoresco bloco de edifícios. Posso pedir-lhe o incômodo, meu caro Watson, de chegar um pouco mais perto da janela, tomando cuidado para não se mostrar, e então olhar para os nossos velhos aposentos, o ponto de partida de tantos dos nossos pequenos contos de fadas? Veremos se a minha ausência de três anos eliminou totalmente o meu poder de surpreendê-lo.
Rastejei para a frente e olhei para a janela conhecida. Assim que bati os olhos nela, engasguei e soltei um grito de assombro. A parte transparente da janela estava abaixada e uma luz forte estava ardendo na sala. A sombra de um homem sentado numa cadeira lá dentro era um vulto negro, forte, contra o anteparo luminoso da janela. Não havia erro quanto à postura da cabeça, os ombros quadrados, a aspereza dos traços. O rosto estava meio de lado, e o efeito era o mesmo de uma dessas silhuetas negras que nossos avós adoravam fazer. Era uma reprodução perfeita de Holmes. Fiquei tão surpreso que estendi minha mão para ter certeza de que o próprio homem estava ao meu lado. Ele estremecia com um riso silencioso.
– Então? – perguntou.
– Meu Deus! – exclamei. – É maravilhoso.
– Acredito que a idade não faz definhar nem deteriora minha multiplicidade infinita – disse ele, e percebi na sua voz o prazer e o orgulho que o artista sente com sua própria criação. – Parece realmente comigo, não?
– Estaria pronto a jurar que era você.
– O mérito da execução cabe a Oscar Meunier, de Grenoble, que passou alguns dias fazendo a moldagem. É um busto de cera. O resto eu mesmo arranjei durante minha visita a Baker Street esta tarde.
– Mas por quê?
– Porque, meu caro Watson, tenho os mais fortes motivos para desejar que certas pessoas pensem que eu estava lá, enquanto, na verdade, eu estava em outro lugar.
– E você pensou que os quartos estavam sendo vigiados?
– Eu que estavam.
– Por quem?
– Pelos meus velhos inimigos, Watson. Pela encantadora sociedade cujo líder jaz na Cachoeira Reichenbach. Você deve se lembrar que eles, e só eles, sabiam que eu ainda estava vivo. Acreditavam que mais cedo ou mais tarde eu voltaria aos meus aposentos. Eles o vigiavam permanentemente, e esta manhã me viram chegar.
– Como você sabe?
– Porque reconheci o vigia deles quando dei uma olhada pela janela. É um sujeito inofensivo chamado Parker, ladrão por profissão e um notável tocador de berimbau. Não liguei para ele. Mas prestei muita atenção na pessoa muito mais terrível que estava atrás dele, o amigo íntimo de Moriarty, o homem que atirou as rochas do penhasco, o criminoso mais perigoso e cheio de manhas de Londres. É este que está atrás de mim esta noite, Watson, e este é o homem que ignora que nós é que estamos atrás dele.
Os planos de meu amigo iam se revelando aos poucos. Deste recuo conveniente, os observadores estavam sendo observados e os rastreadores rastreados. Aquela sombra angulosa lá em cima era a isca e nós, os caçadores. Ficamos juntos em silêncio no escuro observando as figuras apressadas que iam e vinham diante de nós. Holmes estava mudo e imóvel; mas posso afirmar que se mantinha bastante alerta e que ele examinava atentamente o fluxo de passantes. Era uma noite fria e agitada, e o vento soprava cortante pela rua comprida. Muita gente ia e vinha, a maioria agasalhada em seus casacos e cachecóis. Uma ou duas vezes tive a impressão de que vira a mesma pessoa antes, e notei especialmente dois homens, que pareciam estar se protegendo do vento no vão da porta de uma casa um pouco mais adiante. Tentei chamar a atenção de meu amigo para eles; mas Holmes deu um pequeno resmungo de impaciência e continuou a olhar para a rua. Mais de uma vez ele mexeu com o pé e bateu de leve com os dedos na parede. Era evidente que ele começava a irritar-se e que seus planos não corriam como planejara. Por fim, quando a meia-noite se aproximava e a rua aos poucos ficava vazia, ele ficou andando de um lado para outro na sala, numa agitação incontrolável. Eu ia fazer um comentário, quando levantei os olhos para a janela iluminada e tive de novo uma surpresa quase tão grande quanto a anterior. Puxei o braço de Holmes e apontei para cima.
– A sombra se moveu! – gritei.
Não era mais o perfil, e sim as costas que agora estavam viradas para nós.
Três anos certamente não aplainaram a aspereza do seu temperamento ou sua impaciência com uma inteligência menos ativa que a sua.
– É claro que se moveu – disse ele. – Será que sou uma pessoa tão desastrada e ridícula, Watson, que montaria uma fraude óbvia, esperando que alguns dos homens mais espertos da Europa fossem enganados por ela? Estamos nesta sala há duas horas, e a sra. Hudson fez mudanças naquela figura oito vezes, ou uma vez a cada 15 minutos. Ela as faz pela frente, para que sua sombra nunca seja vista. Ah! – Ele aspirou com força, uma respiração excitada e estridente. Naquela luz fraca, vi sua cabeça esticada para a frente, toda a sua postura rígida de atenção. Lá fora a rua estava absolutamente deserta. Os dois homens deveriam estar ainda de tocaia na porta da casa, mas eu não podia mais vê-los. Tudo estava quieto e escuro, menos aquela brilhante tela amarela à nossa frente, com a figura negra desenhada no centro. De novo, no silêncio total, ouvi aquela nota fina e sibilante, que revelava intensa excitação sufocada. Um instante depois, ele me puxou para trás, para o canto mais escuro da sala, e senti sua mão tapando minha boca, num sinal de advertência. Os dedos que me agarravam estavam tremendo. Nunca vira meu amigo tão emocionado, mas a rua escura ainda estava deserta e sem movimento diante de nós.