Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
Электронная книга - «Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]». Краткое содержание книги:
Um rápido exame das circunstâncias só serviu para tornar o caso mais complexo. Em primeiro lugar, não havia nenhum motivo para que o rapaz trancasse a porta por dentro. Havia a possibilidade de o assassino ter feito isso e depois ter fugido pela janela. Entretanto, a queda era de pelo menos 6 metros, e um canteiro de açafrões em pleno viço fica bem embaixo. Nem as flores nem a terra mostravam sinais de terem sido mexidas, nem havia marcas na estreita faixa de grama que separava a casa da rua. Aparentemente, portanto, foi o próprio rapaz quem trancou a porta. Mas como foi que a morte chegou até ele? Ninguém poderia ter subido até a janela sem deixar vestígios. Supondo que um homem atirou pela janela, ele teria de ser um atirador excepcional para poder, com um revólver, causar um ferimento tão mortal. Park Lane é uma via pública muito movimentada; há um ponto de cabriolés de aluguel a menos de 100 metros da casa. Ninguém ouvira o tiro. E, mesmo assim, havia o homem morto, e a bala de revólver, que havia se expandido como um cogumelo, como fazem as balas de ponta mole, e causou um ferimento que deve ter provocado morte instantânea. Eram essas as circunstâncias do mistério de Park Lane, complicadas ainda mais pela ausência total de motivo, já que, como eu disse, ninguém sabia que o jovem Adair tivesse algum inimigo, e não foi feita nenhuma tentativa para tirar o dinheiro ou valores do quarto.
Todo dia eu analisava estes fatos, tentando encontrar uma teoria que abrangesse todos eles, e descobrir aquela linha de menor resistência, que meu pobre amigo afirmava ser o ponto de partida de toda investigação. Confesso que fiz poucos progressos. À noite, perambulei pela Park e só dei por mim lá pelas seis horas, em Oxford Street, no final de Park Lane. Um grupo de vadios na calçada, todos olhando para uma janela, me fez ir em direção à casa que viera olhar. Um homem alto e magro, com óculos coloridos, que eu suspeitava fortemente ser um detetive à paisana, estava expondo alguma teoria própria, enquanto os outros o rodeavam para ouvir o que ele dizia. Fiquei o mais perto possível dele, mas suas observações me pareceram absurdas, de modo que fui embora um pouco desapontado. Ao fazer isto, esbarrei num homem velho e deformado que estivera ali atrás de mim, e derrubei muitos dos livros que ele estava carregando. Lembro-me de que, enquanto os recolhia, notei o título de um deles, , e me ocorreu que o sujeito deveria ser algum pobre bibliófilo que, por negócio ou por colecionava livros antigos. Tentei me desculpar pelo incidente, mas era evidente que aqueles livros, que eu maltratei de modo tão desastrado, eram objetos muito preciosos aos olhos de seu dono. Com um grunhido de descontentamento, deu meia-volta e vi suas costas encurvadas e as suíças brancas desaparecerem na multidão.
Minhas observações sobre o número 427 de Park Lane não ajudaram muito a esclarecer o problema que me interessava. A casa era separada da rua por um muro baixo e uma grade, não mais do que 1,5 metro de altura no total. Portanto, era muito fácil para qualquer um entrar no jardim, mas a janela era totalmente inacessível, já que não havia nenhuma calha ou qualquer coisa que pudesse ajudar o mais decidido dos homens a escalá-la. Mais intrigado do que nunca, voltei pelo mesmo caminho para Kensington. Eu não estava há mais de cinco minutos no meu gabinete quando a empregada entrou para dizer que uma pessoa queria falar comigo. Para minha surpresa não era outro senão o estranho e velho colecionador de livros, seu rosto severo e murcho, espreitando-me por entre tufos de cabelos brancos, e seus livros preciosos, pelo menos uma dúzia deles, apertados sob o seu braço direito.
– Está surpreso de me ver, senhor – disse ele, numa voz estranha e áspera.
Admiti que estava.
– Bem, tenho uma consciência, senhor, e quando por acaso eu o vi entrando nesta casa, enquanto eu vinha mancando atrás, pensei comigo mesmo, vou dar uma entradinha e visitar aquele homem bondoso, e dizer-lhe que se tive uma atitude um pouco rude, não foi por mal, e que estou muito agradecido a ele por apanhar meus livros.
– Você se incomoda demais por uma coisa banal – eu disse. – Posso perguntar como soube quem eu era?
– Bem, senhor, se não for uma liberdade muito grande, sou seu vizinho, pois encontrará minha pequena livraria na esquina de Church Street, e muito contente por vê-lo, com certeza. Talvez o senhor mesmo os colecione. Aqui estão , e – uma pechincha, qualquer um deles. Com cinco volumes poderia preencher aquela lacuna na segunda prateleira. Parece desarrumada, não?
Virei a cabeça para olhar a prateleira atrás de mim. Quando me virei novamente, Sherlock Holmes estava sorrindo para mim, do outro lado da minha mesa. Levantei-me, encarei-o por alguns segundos com total espanto, e depois parece que desmaiei pela primeira e última vez na minha vida. Com certeza uma nuvem cinzenta rodopiou diante dos meus olhos, e quando se dissipou, descobri que meu colarinho estava aberto e senti o restinho do gosto de nos lábios. Holmes estava curvado sobre minha cadeira, de cantil na mão.
– Meu caro Watson – disse a voz tão conhecida –, eu lhe devo mil desculpas. Não sabia que ficaria tão abalado.
Agarrei-o pelos braços.
– Holmes! – gritei. – É você mesmo. Você está vivo mesmo? É possível que tenha conseguido escalar aquele abismo horrível?
– Espere um momento – disse ele. – Tem certeza de que é capaz de discutir coisas? Eu lhe provoquei um choque grave com a minha reaparição desnecessariamente dramática.
– Estou bem, mas realmente, Holmes, eu mal posso acreditar nos meus olhos. Meu Deus! Pensar que você – de todos os homens – estaria no meu gabinete – eu o segurei novamente pela manga e senti por baixo o braço magro e rijo. – Bem, de qualquer modo, você não é um espírito – disse eu. – Meu caro amigo, estou radiante por vê-lo. Sente-se e conte como saiu com vida daquele abismo terrível.
Ele sentou-se na minha frente e acendeu um cigarro com seu antigo jeito displicente. Estava vestido com a sobrecasaca desmazelada do vendedor de livros, mas o resto daquele indivíduo estava empilhado na mesa – os cabelos brancos e os velhos livros. Holmes parecia até mais magro e vivo do que antes, mas havia um tom branco de morte no seu rosto de feições aquilinas que indicava que sua vida, ultimamente, não fora muito saudável.
– Estou feliz por me esticar, Watson – disse. – Não é brincadeira quando um homem alto tem que diminuir sua estatura durante várias horas. Agora, meu caro amigo, no caso dessas explicações, nós temos pela frente, se puder pedir a sua cooperação, uma noite de trabalho difícil e perigoso. Talvez seja melhor eu lhe fazer um resumo de toda a situação quando o trabalho estiver terminado.
– Estou cheio de curiosidade. Prefiro ouvir agora.
– Virá comigo esta noite?
– Quando e onde quiser.
– Isto é, de fato, como nos velhos tempos. Nós precisamos de um pequeno jantar antes de ir. Bem, então sobre aquele abismo. Não tive grandes dificuldades em sair dele, pela simples razão de que jamais estive nele.
– Jamais esteve nele?
– Não, Watson, nunca. Meu bilhete para você era absolutamente genuíno. Tive pouca dúvida de que tivesse chegado ao fim da minha carreira quando percebi aquela silhueta um tanto sinistra do falecido professor Moriarty, de pé sobre a trilha estreita que levava à segurança. Li nos seus olhos um propósito inexorável. Portanto, troquei alguns comentários com ele e obtive sua permissão para escrever a pequena nota que você recebeu depois. Deixei-a com meu maço de cigarros e minha bengala, e andei ao longo da trilha, Moriarty ainda nos meus calcanhares. Quando cheguei ao final, parei, acuado. Ele não tinha arma, mas correu na minha direção e jogou seus braços longos em torno de mim. Ele sabia que seu próprio jogo estava acabado, sentia-se ansioso para se vingar em mim. Cambaleamos juntos pela borda da cachoeira. Mas tenho algum conhecimento de , ou o método japonês de luta corpo-a-corpo, o que me foi muito útil mais de uma vez. Esquivei-me de suas garras, e ele, com um grito horrível, rolou desvairado por alguns segundos, tentando agarrar o ar com as duas mãos. Mas, apesar de todos os esforços, não conseguiu se equilibrar e caiu. Olhando por sobre a borda, eu o vi cair um bom pedaço. Depois bateu numa pedra, quicou e caiu n’água.