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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Cerca de nove horas da noite, a luz entre as árvores foi apagada e tudo ficou escuro na direção da mansão. Duas horas se arrastaram e então subita-mente, quando davam onze horas, uma única luz forte brilhou exatamente à nossa frente.

- É o sinal para nós - disse Holmes, ficando de pé. - Vem da janela do meio.

Ao sairmos, trocou algumas palavras com o dono da estalagem, explicando que íamos visitar um amigo e era possível que passássemos a noite lá. Em instantes, estávamos na estrada escura, com um vento frio soprando e uma luz amarela brilhando em nossa frente para nos guiar em nossa missão sombria.

Não houve grande dificuldade em entrar na propriedade, pois a velha muralha do parque se estava desmoronando. Caminhando por entre as árvores, chegamos ao gramado, atravessamos e estamos prestes a entrar pela janela quando de uma moita de rodo emergiu o que parecia ser uma criança horrenda e disforme, que se atirou na grama com as pernas e braços contorcidos e depois correu rapidamente pelo gramado e sumiu na escuridão.

- Meu Deus! - murmurei. - Você viu?

Holmes ficou, por instantes, tão espantado quanto eu. Sua mão se fechou com força em meu punho, mas logo riu baixinho e chegou os lábios ao meu ouvido.

- É uma família muito interessante - disse. - Era o mandril.

Esquecera os animais de estimação estranhos do Dr. Roylott. Havia um leopardo, também. Talvez caísse sobre nossos ombros a qualquer momento. Confesso que me senti melhor quando, após seguir o exemplo de Holmes e tirar os sapatos, vi que estava dentro do quarto. Meu companheiro fechou as persianas sem fazer barulho, mudou a lâmpada para a mesa e olhou em volta. Estava tudo exatamente como durante o dia. Depois chegou perto de mim, fez uma trombeta das mãos e murmurou em meu ouvido, tão baixinho que apenas pude distinguir as palavras.

- O menor ruído será fatal a nossos planos.

Acenei com a cabeça para mostrar que entendera.

- Temos de ficar no escuro, pois ele poderia ver a luz pelo ventilador.

Acenei novamente.

- Não durma; sua vida dependerá disso. Fique com o revólver à mão caso seja necessário usá-lo. Vou sentar na beira da cama; sente naquela cadeira.

Tirei o revólver do bolso e coloquei-o no canto da mesa.

Holmes trouxera uma bengala longa e fina, que colocou na cama a seu lado. Junto dela, botou a caixa de fósforos e um pedaço de vela. Apagou então a lâmpada e ficamos no escuro.

Como poderei jamais esquecer aquela vigília horrível? Não ouvia nada, nem mesmo uma respiração, mas sabia que meu companheiro estava sentado ali de olhos abertos, a poucos passos de mim, no mesmo estado de tensão nervosa em que eu me encontrava. As persianas cortavam qualquer raio de luz que pudesse penetrar e aguardamos na mais completa escuridão. De fora, vinha o grito ocasional de alguma ave noturna e uma vez, bem em nossa janela, um gemido felino que nos disse que o leopardo estava em liberdade. Muito ao longe ouvimos os tons profundos do relógio da paróquia que batia as horas. Como custavam a passar aquelas horas! Meia-noite, e uma hora, e duas e três, e continuávamos sentados silenciosamente esperando que acontecesse seja o que for.

Subitamente vislumbramos uma luz na direção da abertura de ventilação, que desapareceu imediatamente, mas foi seguida de um cheiro forte de óleo queimado e metal aquecido. Alguém no quarto ao lado acendera uma lanterna apagada. Ouvi um som leve de movimento e depois tudo ficou novamente em silêncio, embora o cheiro ficasse mais forte. Por uma meia hora fique! sentado com os ouvidos atentos. Ouvi então de repente outro ruído, um som muito leve, como de um pequeno jato de vapor escapando de uma chaleira. No mesmo instante em que o ouvi, Holmes saltou da cairia, acendeu um fósforo e bateu furiosamente com a bengala no cordão de campainha.

- Está vendo, Watson? - gritou. - Está vendo?

Mas não vi nada. Quando Holmes riscou o fósforo, ouvi um assovio baixo, bem claro, mas o brilho súbito em meus olhos cansados não me deixou ver o que meu amigo fustigava com tanta fúria. Só pude ver que seu rosto estava muito pálido e cheio de horror e asco.

Parara de bater no cordão e estava olhando para a abertura quando o silêncio da noite foi quebrado pelo grito mais horrível que jamais ouvi. Foi cres-cendo e crescendo, um berro rouco de dor e medo e raiva, todos misturados. Dizem que lá na aldeia, e mesmo na paróquia distante, esse grito arrancou aqueles que dormiam de suas camas. Congelou nossos corações e fiquei olhando para Holmes e ele para mim, até que os últimos ocos morreram no silêncio de onde vieram.

- Que quer dizer isso? - disse em voz entrecortada.

- Quer dizer que está tudo terminado - respondeu Holmes. - E talvez, no final das contas, seja para melhor. Pegue seu revólver e vamos ao quarto do Dr. Roylott.

Com uma expressão grave, acendeu a lâmpada e se dirigiu para o corredor. Em frente ao quarto do Doutor, bateu à porta duas vezes sem obter resposta. Então virou a maçaneta e entrou, comigo em seus calcanhares, de pistola em mão.

Foi uma cena singular com que nos deparamos. Sobre a mesa havia uma lanterna escura com a portinhola meio aberta, jogando um feixe brilhante de luz sobre o cofre de ferro, cuja porta estava aberta. Junto à mesa, na cadeira de madeira, sentava Dr. Grimesby Roylott, enrolado em longo roupão cinzento, com os tornozelos nus expostos e os pés metidos em chinelos vermelhos. Tinha no colo a correia com a laçada que tínhamos visto durante o dia. O queixo apontava para cima e os olhos estavam fixos, num olhar rígido horrendo, no canto do teto. Rodeando a testa, tinha uma banda amarela esquisita, com pintinhas marrons, que parecia estar muito apertada. Não se mexeu quando entramos, nem fez nenhum barulho.

- A banda! A banda pintada! - murmurou Holmes.

Dei um passo à frente. Em um instante, a estranha banda começou a se mover e surgiu em meio o cabelo a cabeça triangular achatada e o pescoço inchado de uma serpente asquerosa.

- É uma Arait, a cobra mais venenosa da Índia! - exclamou Holmes. - Ele morreu dentro de dez segundos da mordida. A violência, realmente, recai sobre os violentos e o que arma a armadilha acaba caindo nela. Vamos guardar essa víbora em seu covil e poderemos então levar a Srta. Stoner para um lugar seguro e notificar a polícia do Condado.

Enquanto falava, tirou a correia do colo do morto, jogou a laçada no pelo do réptil e o arrancou do medonho poleiro, levando-o a distância para o cofre de ferro, onde o trancou.

Esses são os verdadeiros fatos da morte do Dr. Grimesby Roylott de Stoke Moran. Não é necessário prolongar uma narrativa que já se tomou por demais extensa para dizer como demos a triste notícia à moça apavorada, como a levamos no trem da manhã para a casa de sua boa tia em Harrow e como o lento processo de inquérito policial chegou à conclusão de que o Doutor havia encontrado a morte quando brincava imprudentemente com um perigoso réptil de estimação. O pouco que ainda não soa sobre o caso me foi dito por Sherlock Holmes quando voltávamos à cidade no dia seguinte.

- Eu chegara - disse ele - a uma conclusão totalmente errada, o que demonstra, meu caro Watson, como é perigoso raciocinar com bases insufici-entes. A presença dos ciganos, o uso da palavra “banda” pela pobre moça para explicar o que vira de vislumbre à luz de um fósforo foram suficientes para me botar em uma pista inteiramente errada. Só posso me dar o mérito de que reconsiderei minha posição imediatamente quando ficou claro que qualquer perigo que ameaçasse o ocupante do quarto não poderia vir nem da janela nem da porta. Minha atenção foi atraída rapidamente para a abertura de ventilação e para o cordão da campainha pendurado ao lado da cama, corno já comentei com você. A descoberta de que o cordão era simulado e que a estava presa ao chão dera origem à suspeita de que o cordão servia de ponte para alguma coisa que passasse pela abertura e viesse até a cama. Ocorreu-me logo a idéia de uma cobra e quando soube que o Doutor tinha uma série de animais da Índia, achei que estava na pista certa. A idéia de usar uma forma de veneno que não pudesse ser descoberta por nenhum teste químico era exatamente a que ocorreria a um homem inteligente e inescrupuloso que havia exercido a Medicina no Oriente. A rapidez com que esse veneno tivesse efeito também era, de seu ponto de vista, uma vantagem. E qual seria o policial que ia descobrir os dois pequenos pontinhos que mostravam onde as duas presas venenosas haviam feito seu serviço. Pensei, então, no assovio. É claro que tinha de chamar a cobra de volta antes que a luz do dia a revelasse à vítima. Treinou-a, provavelmente usando o pires de leite que vimos, a voltar quando chamada. Colocava-a no buraco de ventilação a hora que julgasse, apropriada, certo de que ela deslizaria pela corda e cairia na cama. Poderia ou não morder a ocupante, talvez essa escapasse todas as noites, durante uma semana, mas mais cedo ou mais tarde a cobra a atacaria.

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