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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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- O magistrado encarregado de casos de morte suspeita investigou o caso com muito cuidado, pois a conduta do Dr. Roylott há muito tempo tinha se tomado notória em todo o Condado, mas não conseguiu encontrar nenhuma causa de morte satisfatória. Meu testemunho mostrou que a porta havia sido trancada por dentro e que as janelas estavam bloqueadas por persianas antigas com barras largas de ferro, que eram também trancadas todas as noites. As paredes foram sondadas e ficou provado que eram sólidas, e o chão também foi examinado minuciosamente, com o mesmo resultado. A chaminé é larga, mas é vedada por quatro barras. É absolutamente certo, portanto, que minha irmã estava completamente sozinha quando morreu. Além disso, não havia nenhuma marca de violência nela.

- E quanto à possibilidade de ser veneno?

- Os médicos a examinaram, mas não encontraram nada.

- Então de que acha que essa pobre moça morreu?

- Creio que ela morreu de medo e de choque nervoso, embora não saiba o que a amedrontou.

- Os ciganos estavam acampados na propriedade nessa ocasião?

- Sim, quase sempre tem alguns acampados lá.

- Ah, e o que deduziu dessa referência a uma banda, uma banda pintada?

- Às vezes penso que foi somente um delírio, outras que talvez estivesse se referindo a uma banda de pessoas, talvez os próprios ciganos. Talvez os lenços pintados que usam na cabeça tivesse sugerido essas estranhas palavras.

Holmes sacudiu a cabeça como um homem que está longe de ter encontrado uma solução satisfatória.

- Está bastante obscuro - comentou. - Por favor, continue.

- Passaram-se dois anos desde então e minha vida, até há pouco, tem sido mais solitária que nunca. Mas há um mês, um amigo querido, que conheço há muitos anos, deu-me a honra de me pedir em casamento. O nome dele é Armitage, Percy Armitage, o segundo filho do Sr. Armitage, de Crane Water, perto de Reading. Meu padrasto não fez nenhuma oposição ao casamento e a cerimônia será na primavera. Há dois dias começaram a fazer uns consertos na ala Oeste do prédio e a parede de meu quarto foi parcialmente demolida, assim tive de me mudar para o quarto em que morreu minha irmã e dormir na mesma cama em que ela dormia. Imagine, então, meu arrepio de horror quando à noite passada, enquanto tentava dormir, pensando em seu terrível destino, subitamente ouvi no silêncio da noite o assovio que fora o prenúncio de sua morte. Pulei da cama e acendi a lâmpada, mas não vi nada no quarto. Fiquei abalada demais para voltar para a cama, então me vesti e assim que o dia clareou, saí de mansinho, peguei um carro na Estalagem Crown, que fica em frente, e fui até Leatherhead, de onde vim esta manhã só para ver o senhor e pedir seu auxílio.

- Fez muito bem - disse meu amigo. - Mas contou tudo que sabe?

- Sim, tudo.

Srta. Stoner, não é verdade. A senhora está Protegendo seu padrasto. - O que quer dizer com isso?

Em resposta, Holmes puxou para trás o babado de renda preta que encobria a mão que nossa visitante repousava sobre o joelho. Cinco pequenas manchas lívidas, as marcas de quatro dedos e um polegar, estavam gravadas no punho alvo.

- Isso é uma crueldade - disse Holmes.

A moça enrubesceu e cobriu o punho machucado. - Ele é um homem muito duro - disse. - Talvez não conheça sua própria força.

Houve um longo silêncio, enquanto Holmes descansava o queixo nas mãos e contemplava o fogo crepitante.

- É um assunto bem complexo - disse finalmente. - Há milhares de detalhes que gostaria de conhecer antes de decidir o que fazer. No entanto, não temos um minuto a perder. Se fôssemos a Stoke Moran hoje, seria possível vermos os quartos sem que seu padrasto soubesse?

- Por coincidência, ele disse que vinha à cidade hoje para tratar de assuntos importantes. É provável que fique o dia inteiro e nesse caso não haveria nenhum problema. Temos uma empregada agora, mas é velha e tola e é fácil desviar sua atenção.

- Excelente. Você não faz nenhuma objeção a essa viagem, Watson?

- De maneira nenhuma.

- Então iremos ambos. E a senhora, o que vai fazer?

- Já que estou aqui, há uma ou duas coisas que gostaria de fazer. Mas voltarei pelo trem das doze horas e estarei lá à sua espera.

- Pode nos aguardar tarde. Eu também tenho algumas coisas a fazer. Não quer esperar e tomar café?

- Não, preciso ir. Já me sinto mais leve, desde que confiei meu problema aos senhores. Será um prazer revê-los hoje à tarde. - Desceu o véu sobre o rosto e se retirou da sala.

- E o que acha disso tudo, Watson? - perguntou Sherlock Holmes, reclinando-se na poltrona.

- Parece ser urna história profundamente sinistra.

- Bastante sinistra.

- No entanto, se a moça está certa em dizer que o chão e as paredes são sólidas e que a porta, janela e chaminé são impenetráveis, então sua irmã estava sem dúvida alguma sozinha quando chegou a seu estranho fim.

- E o que diz dos assovios noturnos e das palavras tão esquisitas da moça ao morrer?

- Não sei o que pensar.

- Quando você combina a idéia de assovios durante a noite, a presença de um bando de ciganos que são íntimos desse velho médico e o fato de que temos todas as razões para acreditar que o médico está interessado em evitar o casamento de sua enteada, a referência, à hora da morte, a uma banda, ou um bando, e, finalmente, o fato de que a Srta. Helen Stoner ouviu um barulho metálico, que poderia ter sido causado por uma dessas barras de metal que seguram as venezianas ao voltar a sua posição, acho que temos base suficiente para pensar que o mistério pode ser esclarecido seguindo essa linha.

- Mas o que foi que os ciganos fizeram?

- Não posso imaginar.

- Vejo muitas objeções a essa teoria.

- Eu também. E precisamente por essa razão que vamos a Stoke Moran esta tarde. Quero ver se as objeções são fatais ou se podem ser explicadas. Mas o que é isso, diabos!

A exclamação fora arrancada de meu companheiro porque a porta havia sido abruptamente aberta e um homem enorme surgira no vão. Suas roupas eram uma mistura curiosa de profissional e agricultor, uma cartola preta, um casaco de fraque comprido, perneiras altas e um chicote pendendo da mão. Era tão alto que a cartola tocava o topo do vão da porta e a largura dos ombros quase bloqueava a abertura. Um rosto grande, riscado de mil rugas, queimado pelo sol em uma tonalidade amarela e marcado por todos os sentimentos malignos, virava de um para o outro, enquanto os olhos fundos, biliosos e o nariz afilado e descamado lhe davam um ar de ave de rapina feroz.

- Qual dos senhores é Holmes? - perguntou esse fantasma.

- Meu nome, senhor, mas gostaria de saber o seu - disse meu companheiro, com toda calma.

- Dr. Grímesby Roylott, de Stoke Moran.

- Muito prazer, Doutor - disse Holmes, com suavidade. - Tenha a bondade de sentar.

- Nada disso. Minha enteada esteve aqui. Eu a segui. O que ela lhe contou?

- Está um pouco frio para essa época do ano - disse Holmes.

- O que ela lhe contou? - berrou o velho, furioso.

- Mas ouvi dizer que as flores da primavera estão brotando - continuou meu amigo, imperturbável.

- Ha! Está querendo me enganar, não é? - disse nosso novo visitante, dando um passo à frente e sacudindo o chicote. - Conheço o senhor, seu bandido! Já ouvi falar do senhor. É Holmes, o intrometido.

Meu amigo sorriu.

- Holmes, o intruso!

O sorriso ficou mais pronunciado.

- Holmes, o empregadinho da Scotland Yard.

Holmes riu gostosamente. - Sua conversa é muito divertida - disse. - Quando sair, tenha a bondade de fechar a porta, pois está criando uma corrente de ar.

- Vou quando tiver dito o que vim dizer. Não ouse se intrometer em meus negócios. Sei que a Srta. Stoner esteve aqui. Eu a segui! Sou um inimigo perigoso. Olhe só. - Avançou rapidamente, pegou o atiçador de fogo e vergou-o ao meio com as enormes mãos morenas.

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