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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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– Nenhum. – Seria com Mormont que estava zangada, ou com aquela cidade e o seu obstinado calor, seus fedores, suores e tijolos em ruína? – Vendem eunucos, não homens. Eunucos feitos de tijolo, como o resto de Astapor. Devo comprar oito mil eunucos de tijolo com olhos mortos que nunca se movem, que matam bebês de peito por causa de um chapéu com um espigão e estrangulam os próprios cães? Nem sequer têm nomes. Portanto não os chame de homens, sor.

Khaleesi – disse ele, surpreendido com a sua fúria –, os Imaculados são escolhidos ainda garotos e treinados...

– Já ouvi tudo que quero ouvir a respeito do treino. – Dany sentiu lágrimas jorrando de seus olhos, súbitas e indesejadas. Sua mão saltou e atingiu com força o rosto de Sor Jorah. Era isso ou gritar.

Mormont tocou a bochecha que ela havia estapeado.

– Se desagradei à minha rainha...

Desagradou. Desagradou-me muito, sor. Se fosse meu cavaleiro leal, nunca teria me trazido a esta vil pocilga. – Se fosse meu leal cavaleiro, nunca teria me beijado, ou olhado meus seios como fez, ou...

– Às ordens de Vossa Graça. Direi ao Capitão Groleo que se prepare para zarpar na maré da noite, rumo a uma pocilga menos vil.

– Não – disse Dany. Groleo observava-os do castelo de proa, e sua tripulação também assistia. Barba-Branca, seus companheiros de sangue, Jhiqui, todos tinham parado o que estavam fazendo ao ouvir a bofetada. – Quero zarpar agora, e não na maré, quero navegar para longe e depressa e não olhar para trás. Mas não posso, não é? Há oito mil eunucos de tijolo à venda, e tenho que arranjar uma maneira de comprá-los. – E com aquilo o deixou e foi para baixo.

Atrás da porta de madeira esculpida da cabine do capitão, seus dragões estavam inquietos. Drogon ergueu a cabeça e soltou um grito, com fumaça clara saindo de suas narinas, e Viserion voou para ela e tentou se empoleirar em seu ombro, como fazia quando era menor.

– Não – disse Dany, tentando afastá-lo com suavidade. – Agora é grande demais para isso, querido. – Mas o dragão enrolou a sua cauda branca e dourada em volta de um braço e enterrou garras negras no tecido de sua manga, agarrando-se bem. Impotente, Dany afundou-se na grande cadeira de couro de Groleo, aos risinhos

– Estiveram agitados enquanto esteve fora, khaleesi – disse-lhe Irri. – Viserion arrancou lascas da porta com as garras, vê? E Drogon tentou escapar quando os feitores vieram vê-los. Quando agarrei sua cauda para detê-lo, ele se virou e me mordeu. – Mostrou a Dany as marcas dos dentes do dragão em sua mão.

– Algum deles tentou libertar-se pelo fogo? – isso era o que mais assustava Dany.

– Não, khaleesi. Drogon soltou seu fogo, mas para o ar. Os negociantes de escravos tiveram medo de se aproximar dele.

Beijou a mão de Irri no local onde Drogon a mordera.

– Sinto muito que ele a tenha machucado. Os dragões não foram feitos para ficar trancados numa pequena cabine de navio.

– Nisso, os dragões são como os cavalos – disse Irri. – E também como os cavaleiros. Os cavalos relincham lá embaixo, khaleesi, e dão coices nas paredes de madeira. Eu ouço. E Jhiqui diz que as velhas e os pequenos também gritam quando não está aqui. Não gostam desta carroça de água. Não gostam do negro mar salgado.

– Eu sei – disse Dany. – Sei mesmo.

– A minha khaleesi está triste?

– Sim – admitiu Dany. Triste e perdida.

– Deverei dar prazer à khaleesi?

Dany afastou-se dela.

– Não. Irri, não precisa fazer isso. O que aconteceu naquela noite, quando você acordou... não é escrava de cama, eu libertei-a, lembra? Você...

– Sou aia da Mãe de Dragões – disse a moça. – É uma grande honra dar prazer à minha khaleesi.

– Eu não quero – insistiu Dany. – Não quero. – Virou-se num movimento brusco. – Agora deixe-me. Quero ficar sozinha. Para pensar.

A escuridão tinha começado a cair sobre as águas da Baía dos Escravos quando Dany voltou ao convés. Parou junto à amurada e olhou para Astapor. Daqui parece quase bela, pensou. As estrelas estavam aparecendo, no céu, e as lanternas de seda também, na terra, tal como a tradutora de Kraznys prometera. As pirâmides de tijolo tremeluziam com a luz. Mas embaixo está escuro, nas ruas, praças e arenas de luta. E onde a escuridão é maior é nas casernas, onde algum garotinho está dando restos de comida a um cachorro que lhe deram quando roubaram sua virilidade.

Houve um passo suave atrás dela.

Khaleesi. – A voz dele. – Posso falar com franqueza?

Dany não se virou. Não conseguia suportar olhá-lo naquele momento. Se o fizesse, poderia voltar a estapeá-lo. Ou chorar. Ou beijá-lo. E não chegar a saber o que era certo, o que era errado e o que era uma loucura.

– Diga o que quiser, sor.

– Quando Aegon, o Dragão, pisou na costa de Westeros, os Reis do Vale, do Rochedo e da Campina não correram para lhe entregar suas coroas. Se quer se sentar no seu Trono de Ferro, terá de conquistá-lo, tal como ele fez, com aço e fogo de dragão. E isso significa ter sangue nas mãos antes de tudo acabar.

Sangue e fogo, pensou Dany. As palavras da Casa Targaryen. Conhecera-as por toda a vida.

– Derramarei com satisfação o sangue de meus inimigos. O sangue de inocentes é outra coisa. Querem me oferecer oito mil Imaculados. Oito mil bebês mortos. Oito mil cães estrangulados.

– Vossa Graça – disse Jorah Mormont –, eu vi Porto Real depois do Saque. Também foram massacrados bebês nesse dia, e também velhos e crianças que brincavam. Foram violadas mais mulheres do que é possível contar. Há um animal selvagem em todos os homens, e quando se dá a esse homem uma espada ou uma lança e esse homem é enviado para a guerra, o animal acorda. O cheiro de sangue é o suficiente para acordá-lo. Mas nunca ouvi dizer que esses Imaculados tivessem violado, ou dizimado uma cidade com a espada, ou sequer saqueado, exceto por ordem expressa daqueles que os lideravam. Até podem ser de tijolo, como diz, mas se os comprar, daqui em diante os únicos cães que matarão serão aqueles que a senhora quiser mortos. E, se bem me lembro, a senhora tem alguns cães que quer ver mortos.

Os cães do Usurpador.

– Sim. – Dany fitou as suaves luzes coloridas e permitiu que a fresca brisa salgada a acariciasse. – Fala de saquear cidades. Responda-me uma coisa, sor: por que os dothraki nunca saquearam esta cidade? – apontou. – Olhe para as muralhas. É possível ver onde já começaram a ruir. Ali e ali. Vê algum guarda naquelas torres? Eu não. Estarão escondidos, sor? Vi hoje esses filhos da harpia, todos os seus orgulhosos guerreiros de alto nascimento. Vestem-se com saia de linho, e a coisa mais feroz neles era os cabelos. Até um khalasar modesto conseguiria rachar esta Astapor como uma noz e derramar seu conteúdo podre. Diga-me, portanto, por que é que aquela feia harpia não está às margens do caminho dos deuses em Vaes Dothrak entre os outros deuses roubados?

– Possui um olho de dragão, khaleesi, vê-se isso claramente.

– Quero uma resposta, não um elogio.

– Há dois motivos. Os bravos defensores de Astapor não passam de palha, isso é verdade. Nomes antigos e bolsas gordas que se vestem com açoites ghiscari para fingir que ainda dominam um vasto império. Todos eles são oficiais de elevada patente. Nos dias de festa travam guerras de mentira nas arenas, para demonstrar como são brilhantes comandantes, mas são os eunucos que morrem. Da mesma forma, qualquer inimigo que quisesse saquear Astapor teria de saber que defrontaria Imaculados. Os senhores de escravos colocariam a guarnição inteira a serviço da defesa da cidade. Os dothraki não atacam Imaculados desde que deixaram as tranças aos portões de Qohor.

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