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A Tormenta de Espadas

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A Tormenta de Espadas
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– Os velhos deuses movimentam-se e não querem me deixar dormir – ouviu a mulher dizer. – Sonhei ver uma sombra com um coração em chamas matando um veado dourado, sim. Sonhei com um homem sem rosto, à espera numa ponte que oscilava e balançava. Em seu ombro estava empoleirado um corvo afogado, com algas penduradas nas asas. Sonhei com um rio rugindo e uma mulher que era um peixe. Estava à deriva, morta, com lágrimas vermelhas nas faces, mas quando seus olhos se abriram, oh, acordei aterrorizada. Tudo isso sonhei, e mais ainda. Têm presentes para mim, para me pagar pelos sonhos?

– Sonhos – resmungou Limo Manto Limão –, de que servem os sonhos? Mulheres-peixe e corvos afogados. Eu também tive um sonho na noite passada. Estava beijando uma moça de taberna que conheci. Vai me pagar por isso, velha?

– A moça está morta – sibilou a mulher. – Só os vermes podem beijá-la agora. – E depois disse a Tom Sete-Cordas: – Quero a minha canção, caso contrário quero vocês fora daqui.

E assim o cantor tocou para ela, uma canção muito suave e triste, mas Arya só ouviu fragmentos das palavras, embora a melodia lhe fosse vagamente familiar. Sansa iria reconhecê-la, aposto. A irmã conhecia todas as canções, e até sabia tocar um pouco, e cantava com toda a doçura. Tudo que eu consegui alguma vez fazer foi gritar as palavras.

Na manhã seguinte, não se via a pequena mulher branca em lugar algum. Enquanto selavam os cavalos, Arya perguntou a Tom Sete-Cordas se os filhos da floresta ainda habitavam o Coração Alto. O cantor soltou um risinho.

– Você a viu, foi?

– Era um fantasma?

– Os fantasmas reclamam de como as suas articulações rangem? Não, ela é só uma velha anã. Mas é estranha, e tem olhos diabólicos. E sabe coisas que não devia saber, e às vezes nos diz se gosta de nosso aspecto.

– Ela gostou do seu aspecto? – perguntou Arya de modo duvidoso.

O cantor riu.

– Pelo menos gostou do meu som. Mas obriga-me a cantar sempre a mesma maldita canção. Não é ruim, veja bem, mas conheço outras que são igualmente boas. – Balançou a cabeça. – O que importa é que agora temos o cheiro. Aposto que em breve irá ver Thoros e o senhor do relâmpago.

– Se são homens deles, por que se escondem de vocês?

Tom Sete-Cordas rolou os olhos ao ouvir aquilo, mas Harwin deu-lhe uma resposta.

– Eu não chamaria isso de esconder, senhora, mas é verdade, Lorde Beric desloca-se muito e raramente revela seus planos. Assim, ninguém pode traí-lo. A essa altura, nós, os homens que lhe prestamos juramento, devemos ser centenas, talvez milhares, mas não seria bom se andássemos todos atrás dele. Deixaríamos os campos nus para nos alimentarmos, ou seríamos massacrados numa batalha por alguma tropa maior. Da maneira como estamos espalhados em pequenos bandos, podemos atacar uma dúzia de locais ao mesmo tempo, e partir para qualquer outro antes que eles saibam o que aconteceu. E quando um de nós é pego e levado a interrogatório, bem, não lhes pode dizer onde encontrar Lorde Beric, façam eles o que fizerem. – Hesitou. – Sabe o que significa ser levado a interrogatório?

Arya assentiu com a cabeça.

– Chamavam isso de fazer cócegas. O Polliver, o Raff e os outros. – Contou-lhes tudo sobre a aldeia nas margens do Olho de Deus onde ela e Gendry tinham sido capturados e sobre as perguntas que Cócegas fazia. “Há ouro escondido na aldeia?”, era sempre como começava. “Prata, pedras preciosas? Há comida? Onde está Lorde Beric? Quais dos habitantes da aldeia o ajudaram? Para onde foi? Quantos homens estavam com ele? Quantos cavaleiros? Quantos arqueiros? Quantos estavam montados? Como estavam armados? Quantos feridos? Para onde disse que foram?” Só de pensar naquilo conseguia ouvir de novo os gritos, e sentir o fedor de sangue, merda e carne queimada. – Ele fazia sempre as mesmas perguntas – disse solenemente aos fora da lei –, mas todos os dias mudava a forma de fazer cócegas.

– Nenhuma criança devia ser obrigada a aguentar isso – disse Harwin quando ela terminou. – Ouvimos dizer que a Montanha perdeu metade de seus homens no Moinho de Pedra. Pode ser que esse Cócegas agora esteja flutuando Ramo Vermelho abaixo, com peixes mordiscando sua cara. Se não, bem, é mais um crime pelo qual hão de responder. Ouvi sua senhoria dizer que esta guerra começou quando a Mão lhe ordenou que levasse a justiça do rei a Gregor Clegane, e é assim que pretende que termine. – Deu-lhe uma palmadinha de encorajamento no ombro. – É melhor que monte, senhora. É um longo dia de viagem até o Solar de Bolotas, mas quando terminarmos teremos um teto sobre nossa cabeça e sopa quente na barriga.

E foi um longo dia de viagem, mas ao anoitecer vadearam um riacho e chegaram ao Solar de Bolotas, com suas muralhas exteriores de pedra e a grande fortaleza de carvalho. Seu senhor andava longe, lutando na companhia do senhor dele, Lorde Vance, e deixara os portões do castelo fechados e trancados em sua ausência. Mas a senhora sua esposa era uma velha amiga de Tom Sete-Cordas, e Anguy dizia que um dia tinham sido amantes. Anguy viajava com frequência ao lado de Arya; de todos, era quem mais se aproximava de sua idade, salvo Gendry, e contava-lhe histórias engraçadas sobre a Marca de Dorne. Mas nunca a enganou. Ele não é meu amigo. Só fica por perto para me vigiar e certificar-se de que não voltarei a fugir. Bem, Arya também sabia vigiar. Syrio Forel ensinara-lhe a fazer isso.

A Senhora Smallwood deu as boas-vindas aos fora da lei com bastante gentileza, embora lhes tenha dado um sermão por arrastarem uma garotinha pela guerra. Ficou mais irada ainda quando Limo deixou escapar que Arya era bem-nascida.

– Quem vestiu a pobre criança com esses farrapos dos Bolton? – exigiu saber. – Esse símbolo... há muitos homens que a enforcariam em meio segundo por usar um homem esfolado no peito. – Arya foi prontamente levada para cima, forçada a entrar numa banheira, e mergulhada em água escaldante. As aias da Senhora Smallwood esfregaram-na com tanta força que Arya se sentiu como se elas a estivessem esfolando. Até derramaram uma coisa qualquer com um fedor adocicado de flores.

E depois, insistiram para que se vestisse com coisas de menina, meias marrons de lã, uma combinação leve de linho e, por cima disso, um vestido verde-claro com bolotas bordadas em fio castanho por todo o corpete, e mais bolotas ao longo da bainha da saia.

– Minha tia-avó é septã num convento em Vilavelha – disse a Senhora Smallwood enquanto as mulheres atavam o vestido ao longo das costas de Arya. – Mandei minha filha para lá quando a guerra começou. Quando voltar, certamente já estará grande demais para usar essas coisas. Gosta de dançar, filha? A minha Carellen é uma ótima dançarina. Também canta lindamente. O que é que você gosta de fazer?

Arya arrastou os pés nas esteiras.

– Trabalhos de agulha.

– São muito relaxantes, não são?

– Bem – disse Arya –, da maneira como eu os faço, não.

– Não? Sempre os achei relaxantes. Os deuses oferecem a cada uma de nós pequenos dons e talentos, e é sua intenção que os usemos, diz sempre a minha tia. Qualquer ato pode ser uma prece, se for desempenhado tão bem quanto formos capazes. Não é um pensamento adorável? Lembre-se dele da próxima vez que trabalhar com a agulha. Trabalha todos os dias?

– Trabalhava até perder a Agulha. A nova não é tão boa.

– Em tempos como estes, todos temos de nos arranjar o melhor possível. – A Senhora Smallwood ajeitou o corpete do vestido. – Agora já parece uma jovem senhora como deve ser.

Não sou uma senhora, Arya quis lhe dizer, sou uma loba.

– Não sei quem você é, filha – disse a mulher –, e talvez ainda bem que não saiba. Alguém importante, temo. – Alisou o colarinho de Arya. – Em tempos como estes, é melhor ser insignificante. Bem que gostaria de poder ficar com você aqui. Mas não seria seguro. Tenho muralhas, mas homens insuficientes para defendê-las. – Suspirou.

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