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O jardim de Rama

Электронная книга - «O jardim de Rama». Краткое содержание книги:

Nesta sequência de O Enigma de Rama, é mostrada a vida dos astronautas que foram deixados a bordo da espaçonave extraterrestre Rama. Em sua interação com esse estranho habitat vão descobrir que existem outros tripulantes que os acompanham na viagem para fora do Sistema Solar.
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Do lado de fora, na alameda, Nicole parou por um momento junto à grade das bicicletas. Hesitou, olhando para sua bicicleta, depois virou-se e tomou o caminho do quintal dos fundos. Um minuto mais tarde, já cruzara a área relvada atrás da casa e tomara a trilha que serpenteava pelo Monte Olimpo.

Nicole caminhava depressa, afundada em pensamento. Durante muito tempo, sequer prestou atenção ao que a cercava. Sua mente saltava de um assunto para outro, dos problemas que atormentavam o Novo Éden para seus estranhos esquemas de sonho, para suas preocupações com os filhos, em particular com Katie.

Chegou a uma bifurcação na trilha. Um cartaz pequeno e de bom gosto explicava que o caminho da esquerda levava à estação do bondinho a cabo, a oitenta metros de distância, em que se podia viajar até o alto do Monte Olimpo. A presença de Nicole na bifurcação fora eletronicamente detectada, fazendo com que uma robô Garcia se aproximasse, vindo da estação.

“Não se incomode”, gritou Nicole. “Eu vou a pé.”

A vista tornou-se cada vez mais espetacular à medida que o caminho ia e voltava subindo a face da montanha que dava para o resto da colônia. Nicole parou em um dos belvederes, a quinhentos metros de altitude e a pouco menos de três quilômetros da casa dos Wakefields, e olhou para todo o Novo Éden. A noite estava clara, com pouca ou nenhuma umidade no ar.

Hoje não chove, pensou ela, sabendo que as manhãs dos dias de chuva eram sempre úmidas com vapor d’água. Logo abaixo dela estava a aldeia Beauvois — as luzes da nova fábrica de mobília lhe permitiam identificar a maior parte dos edifícios da região que lhe eram familiares, mesmo àquela distância. Ao norte, a aldeia de San Miguel estava escondida pela massa da montanha. Mas do outro lado da colônia, para além da Cidade Central ainda escura, Nicole conseguia vislumbrar os focos de luz que marcavam a Vegas de Nakamura.

Ela ficou imediatamente de mau humor. Aquela droga daquele lugar fica aberto a noite inteira, resmungou ela, desperdiçando energia em situação crítica e oferecendo divertimentos repugnantes.

Impossível não pensar em Katie ao olhar para Vegas, refletiu Nicole, com uma abafada dor no coração acompanhando a lembrança da filha. Não podia deixar de se perguntar se Katie ainda estaria acordada naquela brilhante vida de fantasia do outro lado da colônia. Que desperdício monumental, pensou Nicole, sacudindo a cabeça.

Richard e ela discutiam muitas vezes o caso de Katie. Só havia dois assuntos em torno dos quais eles brigavam — Katie e política no Novo Éden. E nem era inteiramente correto dizer que brigavam no caso da política. Richard considerava que basicamente todos os políticos com exceção de Nicole e talvez de Watanabe, eram basicamente destituídos de princípios. Seu método de discussão era o de fazer grandes afirmações genéricas a respeito dos insípidos acontecimentos no Senado, ou até mesmo no próprio tribunal de Nicole, e depois se recusar a sequer tornar a falar sobre o assunto. Katie era uma outra questão. Richard sempre argumentava que Nicole era dura demais em relação a Katie. Ele também me culpa, refletiu Nicole, enquanto olhava as luzes distantes, por não passar tempo suficiente com ela. Alega que ao me atirar na política da colônia eu deixei as crianças com uma mãe de tempo parcial no que seria o mais crucial período de suas vidas.

Katie raramente aparecia em casa, agora. Ela ainda tinha um quarto na casa dos Wakefields, mas passava a maior parte de suas noites em um dos apartamentos enfeitados que Nakamura construíra dentro do complexo de Vegas.

“Como é que você paga o aluguel?”, perguntara Nicole à filha certa noite, pouco antes de costumeira cena desagradável.

“Como é que você acha, mamãe?”, respondeu Katie, agressiva. “Eu trabalho. Eu tenho muito tempo; só estou fazendo três disciplinas na universidade.”

“Que tipo de trabalho você faz?”

“Sou anfitriã, divirto os outros… você sabe, faço qualquer coisa que seja preciso”, respondeu Katie, bem vaga.

Nicole afastou o olhar de Vegas. Naturalmente, é perfeitamente compreensível que Katie esteja confusa. Ela não teve adolescência. Mas, mesmo assim, ela não parece estar apresentando qualquer melhora… Nicole começou a andar rapidamente montanha acima, tentando se livrar de uma tristeza crescente.

Entre os quinhentos e os mil metros de altitude, a montanha estava coberta com grossas árvores que já alcançavam cinco metros de altura. Aqui o caminho para o topo corria entre a montanha e a parede externa da colônia, em um trecho muito escuro que se estendia por mais ou menos um quilômetro. Só havia uma quebra nesse negror, perto do final, um belvedere voltado para o norte.

Nicole já alcançara o ponto mais alto em sua subida. Parando no belvedere, ela olhou para San Miguel, na distância. Está ali a prova de que nós fracassamos do Novo Éden, pensou ela, sacudindo a cabeça. Apesar dos pesares, há pobreza e desespero no Paraíso.

Ela antevira o aparecimento do problema, chegara mesmo a fazer uma previsão bastante precisa no final de seu mandato de um ano como governadora provisória. Por ironia, o processo que produzira San Miguel, onde o nível de vida era apenas a metade do que existia nas outras três aldeias do Novo Éden, começara logo após a chegada da Pinta. O primeiro grupo de coloniais se estabelecera principalmente na aldeia do sudeste que se transformaria em Beauvois, criando um precedente que se acentuara depois que Nicole chegou a Rama. A medida que ia sendo implementado o plano de assentamento livre, quase todos os orientais resolveram instalar-se juntos em Hakone; os europeus, americanos brancos e os do Oriente Médio escolheram ou Positano ou o que restava de Beauvois. Os mexicanos, outros hispânicos, americanos pretos e africanos haviam todos gravitado para San Miguel.

Como governadora, Nicole tentara resolver essa segregação de fato na colônia com um plano utópico de reassentamento que colocaria em cada uma das quatro aldeias percentagens raciais que espelhassem a colônia como um todo.

Sua proposta poderia ter sido aceita logo no início da história da colônia, em particular logo depois dos dias no sonário, quando a maioria dos outros cidadãos viam em Nicole uma espécie de deusa. Mas, ao fim de um ano, já era tarde demais. A livre iniciativa já criara diferenças tanto de riqueza pessoal quanto de valores imobiliários. Até mesmo os mais leais seguidores de Nicole perceberam a impossibilidade de seu conceito de reassentamento àquela altura.

Depois de seu período como governadora, o Senado aprovara calorosamente a designação por Kenji de Nicole como um dos cinco juizes permanentes do Novo Éden. No entanto, sua imagem na colônia sofreu bastante quando circularam comentários feitos por ela em defesa do reassentamento fracassado.

Nicole argumentara que seria essencial para os coloniais viver em pequenos bairros integrados a fim de que desenvolvessem uma real apreciação das diferenças raciais e culturais. Seus críticos julgaram sua posição “inacreditavelmente ingênua”.

Nicole ficou olhando para as tremulantes luzes de San Miguel durante os vários minutos em que também descansou do esforço da subida. Logo antes de se virar para começar a descer na direção de sua casa em Beauvois, ela repentinamente lembrou-se de outro conjunto de luzes tremulantes, na cidade suíça de Davos, no planeta Terra. Durante as últimas férias de esqui de Nicole, ela e sua filha Geneviève jantaram na montanha acima de Davos e, depois de comer, as duas haviam ficado de mãos dadas no revigorante frio na varanda do restaurante. As luzes de Davos brilhavam como pequenas jóias a muitos quilômetros abaixo delas. Lágrimas assomaram aos olhos de Nicole, ao lembrarse da graça e do humor de sua primeira filha, a quem não via já fazia tantos anos. Mais uma vez obrigada, Kenji, balbuciou ela quando recomeçou a andar, lembrando-se das fotografias que seu amigo trouxera da Terra, por compartilhar comigo a sua visita a Geneviève.

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