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O jardim de Rama

Электронная книга - «O jardim de Rama». Краткое содержание книги:

Nesta sequência de O Enigma de Rama, é mostrada a vida dos astronautas que foram deixados a bordo da espaçonave extraterrestre Rama. Em sua interação com esse estranho habitat vão descobrir que existem outros tripulantes que os acompanham na viagem para fora do Sistema Solar.
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Poderia haver maior dedicação a seus companheiros de espécie?

Ao pensar no desprendimento de Benita Garcia, uma imagem de sua mãe apareceu no cérebro de Ellie. Uma montagem de imagens de Nicole emergiu logo a seguir. Ellie viu sua mãe, com sua toga de juiz falando articuladamente ante o Senado. Depois, Nicole massageava o pescoço do pai de Ellie tarde da noite, no escritório, ou pacientemente ensinava Benjy a ler, dia após dia, ou saía de bicicleta com Patrick para uma partida de tênis no parque, ou dizia a Linc o que preparar para o jantar. Na última imagem, Nicole estava sentada à beira da cama de Ellie, à noite, respondendo perguntas sobre a vida e o amor. Minha mãe é uma heroína, compreendeu Ellie, repentinamente. Ela é tão desprendida quanto Benita Garcia.

“… Imaginem, por exemplo, uma mocinha mexicana de dezesseis anos, chegando em casa do colégio interno para passar as férias, a subir lentamente os degraus da Pirâmide do Mágico em Uxmal. A seus pés, na manhã de primavera que já está morna, iguanas brincam entre as rochas e as ruínas…”

Eponine acenou a cabeça para Ellie. Estava na hora de seu poema. Ela se levantou e recitou.

Você já viu tudo, lagarto, Nossa alegria e o nosso pranto, Os nossos corações quando sonham Nossos desejos mais terríveis. Será que alguma coisa muda? A índia mãe de minha mãe Sentou aqui nestes degraus Já faz pelo menos mil anos Contando a você as paixões Que ninguém mais conheceria?
Eu olho as estrelas à noite E ouso ver-me estar com elas. O meu coração voa livre Entre o possível e as pirâmides. Benita, os iguanas disseram Sim a você e à sua avó Cujos sonhos de tantos anos Vão concretizar-se em você.

Quando Ellie terminou, suas faces brilhavam com as lágrimas silenciosas que lhe haviam rolado. A professora e os colegas provavelmente julgaram que ela ficara profundamente comovida com o poema e a palestra sobre Benita Garcia.

Não poderiam compreender que Ellie acabara de experimentar uma epifania emocional, que ela acabara de descobrir a profundidade de seu amor e respeito por sua mãe.

Aquela era a última semana de ensaios para a peça teatral da escola.

Eponine escolhera uma peça antiga, Esperando Godot, do ganhador do Prêmio Nobel no século XX Samuel Beckett, por seu tema ser tão próximo ao Novo Éden.

Os dois personagens principais, ambos vestidos em trapos durante toda a obra, seriam interpretados por Ellie Wakefield e Pedro Martinez, um bonito rapaz de dezenove anos que fora um dos adolescentes “perturbados” incorporados ao contingente que partia para a colônia nos últimos meses antes do lançamento.

Eponine não poderia ter produzido a peça sem os Kawabatas. Os biomas desenharam e executaram tanto o cenário quanto os figurinos, ficavam encarregados da luz e chegavam mesmo a dirigir ensaios quando ela não podia estar presente. A escola tinha quatro Kawabatas ao todo, e três deles ficavam sob a jurisdição de Eponine durante as seis semanas que precediam a estréia da peça.

“Trabalharam muito bem”, disse Eponine alto, aproximando-se dos alunos que estavam no palco. “Acho que chega por hoje.”

“Srta Wakefield”, disse o Kawabata 052, “houve três momentos nos quais suas palavras não foram inteiramente corretas. Na fala que começa…”

“Diga a ela amanhã”, interrompeu Eponine, fazendo um delicado sinal para que os biomas se afastassem. “Será melhor para ela.” Virando-se para o pequeno elenco. “Alguma pergunta?”

“Sei que já passamos por tudo isso antes, srta. Eponine”, disse Pedro Martinez, meio hesitante, “mas seria de grande ajuda para mim se pudéssemos discuti-lo novamente… A senhorita disse que Godot não era uma pessoa, que ele, ou essa coisa seria apenas um conceito, ou uma fantasia… que todos nós estamos sempre esperando por alguma coisa… Sinto muito, mas é difícil para mim compreender exatamente o que…”

“A peça toda é, basicamente, um comentário a respeito do absurdo da vida”, respondeu Eponine após alguns segundos. “Rimos porque nos vemos naqueles vagabundos no palco, ouvimos nossas palavras quando eles falam. O que Beckett captou é o anseio essencial do espírito humano. Seja ele quem for, Godot fará tudo sair bem. De algum modo, ele haveria de transformar nossas vidas e nos fazer felizes.”

“Godot não poderia ser Deus?”, perguntou Pedro.

“Naturalmente”, disse Eponine. “Ou até mesmo os extraterrestres superavançados que construíram Rama e supervisionam O Nodo onde Ellie e sua família ficaram. Qualquer poder ou força ou ser que for uma panacéia para todos os nossos sofrimentos poderia ser Godot. É por isso que a peça é universal.”

“Pedro”, uma voz autoritária gritou do fundo do pequeno auditório, “já acabou?”

“Só um momento, Mariko”, respondeu o rapaz. “Estamos tendo uma discussão muito interessante. Por que não vem juntar-se a nós?”

A moça japonesa continuou de pé junto à porta. “Não”, disse ela com grosseria. “Não quero — agora vamos”.

Eponine dispensou o elenco e Pedro saltou do palco. Ellie aproximou-se da professora quando o rapaz correu para a porta. “Por que ele haveria de deixar que ela se comporte assim?” indagou-se Ellie em voz alta.

“Não me pergunte”, retrucou Eponine, dando de ombros. “Eu é que não sou nenhuma especialista em relacionamentos.”

Aquela tal Kobayashi é um problema, pensou Eponine, lembrando-se de como Mariko havia tratado a ela e a Ellie como se fossem, insetos, certa noite depois de ensaios. Os homens são tão estúpidos, algumas vezes.

“Eponine”, perguntou Ellie, “você se importa se os meus pais vierem ao ensaio geral? Beckett é um dos dramaturgos favoritos de meu pai e…”

“Seria ótimo”, respondeu Eponine. “Seus pais são bem-vindos a qualquer momento. Além do mais, quero agradecer a eles…”

“Srta. Eponine”, uma jovem voz de homem gritou do outro lado da sala.

Era Derek Brewer, um dos alunos de Eponine que nutria uma paixonite escolar por ela. Derek correu alguns passos, depois gritou novamente. “Já ouviu a novidade?”

Eponine sacudiu a cabeça. Derek estava obviamente excitadíssimo. “O juiz Mishkin julgou o uso das braçadeiras inconstitucional!”

Eponine levou alguns segundos para absorver a informação. A essa altura, Derek já estava a seu lado, encantado por ser ele a lhe dar a notícia. “Você… tem certeza?”, perguntou Eponine.

“Acabamos de ouvir no rádio do escritório.”

Eponine estendeu a mão para o braço, odiando sua braçadeira vermelha.

Olhou para Derek e Ellie e com um movimento rápido arrancou a tira do braço e jogou-a para longe. Ao observar o arco que esta percorreu até cair no chão, seus olhos encheram-se de lágrimas.

“Obrigada, Derek”, disse ela.

Em poucos instantes, Eponine sentiu quatro jovens braços que a envolviam e abraçavam.

“Parabéns”, disse Ellie suavemente.

4

O quiosque de hambúrgueres na Cidade Central era totalmente operado por biomas. Dois Lincolns administravam o restaurante sempre muito freqüentado e quatro Garcias tomavam nota dos pedidos dos fregueses. A preparação da comida era feita por uma dupla de Einsteins, e o local era mantido imaculadamente limpo por uma única Tiasso. O quiosque gerava um lucro enorme para seu proprietário, porque não havia custos depois da conversão inicial do prédio e da matéria-prima.

Ellie sempre comia ali na quinta-feira à noite, quando trabalhava no hospital como voluntária. No dia em que se soube do que veio a ser conhecido como a Proclamação Mishkin, Ellie encontrou-se no quiosque com sua professora Eponine, agora sem braçadeira. “Não sei por que nunca a encontro no hospital”, disse Eponine, mordendo uma batata frita. “O que é que você faz lá, afinal?”

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