A Tormenta de Espadas
- Автор: Мартин Джордж Рэймонд Ричард
- Год: 2006
- Язык: португальский
- Год: Leya
- ISBN: 9788580442625
- Переводчик: Jorge Candeias
- Жанр: Прочая древняя литература
Электронная книга - «A Tormenta de Espadas». Краткое содержание книги:
Soluçando, Sam deu mais um passo. Havia tanto tempo que sentia frio que estava se esquecendo de como era sentir-se quente. Usava três pares de meias, duas camadas de roupa de baixo por sob uma túnica dupla de lã de carneiro e, por cima disso tudo, um espesso casaco almofadado, que o protegia do aço frio de sua cota de malha. Sobre a camisa usava um sobretudo largo, e por cima disso um manto de tripla espessura com um botão de osso que se prendia bem abaixo de seu queixo. O capuz tombava para a frente, por cima de sua testa. Grossas luvas de peles cobriam suas mãos, por cima de finas luvas de lã e couro, um cachecol estava bem enrolado em volta da metade inferior do rosto, e, por baixo do capuz, tinha um apertado gorro forrado com velo puxado sobre as orelhas. E mesmo assim tinha frio. Especialmente nos pés. Agora nem sequer os sentia, mas no dia anterior tinham doído tanto que quase não conseguia se manter em pé, muito menos caminhar. Cada passo fazia-o querer gritar. Teria sido no dia anterior? Não se lembrava. Não dormira desde o Punho, nem uma única vez desde que o berrante tinha soprado. A menos que tivesse dormido enquanto caminhava. Poderia um homem caminhar enquanto dorme? Sam não sabia, ou, se sabia, tinha se esquecido.
Soluçando, deu outro passo. A neve caía, rodopiando, à sua volta. Às vezes, caía de um céu branco e, às vezes, de um negro, mas isso era tudo o que restava do dia e da noite. Levava-a nos ombros como um segundo manto, e ela empilhava-se num grande monte sobre a mochila que ele transportava, tornando-a ainda mais pesada e difícil de carregar. Seu lombo doía abominavelmente, como se alguém tivesse espetado nele uma faca e a mexesse de um lado para o outro a cada passo. Seus ombros estavam em agonia por causa do peso da cota de malha. Teria dado quase tudo para tirá-la, mas tinha medo de fazer isso. E, de qualquer forma, teria de despir o manto e o capote para chegar à cota de malha, e então o frio o pegaria.
Se eu ao menos fosse mais forte... Mas não era, e não valia a pena desejar ser. Sam era fraco, e gordo, tão gordo que quase não conseguia aguentar o próprio peso, e a cota de malha era demais para ele. Sentia-se como se ela estivesse deixando seus ombros em carne viva, apesar das camadas de tecido e forro que havia entre o aço e a pele. A única coisa que podia fazer era chorar, e, quando chorava, as lágrimas congelavam em seu rosto.
Soluçando, deu outro passo. A crosta de neve estava rachada nos locais em que colocava os pés, caso contrário não julgaria que pudesse ter se movido. À esquerda e à direita, entrevistos através das árvores silenciosas, os archotes transformavam-se em vagos halos cor de laranja na neve que caía. Quando virava a cabeça, conseguia vê-los, deslizando em silêncio pela floresta, balançando para cima e para baixo e de um lado para o outro. O anel de fogo do Velho Urso, lembrou a si mesmo, e desgraçado daquele que o deixar. Enquanto caminhava, parecia-lhe que perseguia os archotes da frente, mas eles também possuíam pernas, mais longas e mais fortes do que as dele, então nunca conseguia alcançá-los.
No dia anterior, suplicou-lhes que o deixassem ser um dos portadores dos archotes, mesmo que isso significasse caminhar fora da coluna, com a escuridão se aproximando. Sam desejava o fogo, sonhava com ele. Se eu tivesse fogo, não teria frio. Mas alguém lembrou a ele de que tivera um archote no início, mas o deixou cair na neve e apagou o fogo. Sam não se lembrava de ter deixado cair nenhum archote, mas supunha que devia ser verdade. Estava fraco demais para manter o braço erguido por muito tempo. Teria sido Edd quem o lembrou do archote, ou Grenn? Também não conseguia se lembrar disso. Gordo, fraco e inútil, agora até os meus miolos estão congelando. Deu mais um passo.
Tinha enrolado o cachecol por cima do nariz e da boca, mas agora estava coberto de ranho e tão duro que temia que tivesse congelado e ficado preso em seu rosto. Até respirar era difícil, e o ar estava tão frio que doía inspirá-lo.
– Mãe, tenha piedade – murmurou, numa voz abafada e rouca, por baixo da máscara gelada. – Mãe, tenha piedade, Mãe, tenha piedade, Mãe, tenha piedade. – A cada prece dava mais um passo, arrastando as pernas pela neve. – Mãe, tenha piedade, Mãe, tenha piedade, Mãe, tenha piedade.
A mãe dele encontrava-se mil léguas para sul, em segurança, com as irmãs e o irmão mais novo, Dickon, na fortaleza em Monte Chifre. Ela não pode me ouvir, e a Mãe no Céu também não. A Mãe era misericordiosa, os septões eram unânimes em afirmá-lo, mas os Sete não tinham poder para lá da Muralha. Ali eram os velhos deuses que governavam, os deuses sem nome das árvores, dos lobos e das neves.
– Piedade – sussurrou então, para qualquer deus que estivesse ouvindo, velho ou novo, ou até para demônios –, oh, piedade, piedade de mim, piedade de mim.
Maslyn gritou por piedade. Por que teria se lembrado subitamente daquilo? Não era nada que quisesse recordar. O homem tinha tropeçado para trás, deixando cair a espada, suplicando, rendendo-se, chegando mesmo a arrancar a grossa luva negra e atirando-a à sua frente como se fosse uma manopla. Ainda guinchava, pedindo trégua, quando a criatura o ergueu no ar pelo pescoço e quase arrancou sua cabeça. Nos mortos, não resta qualquer piedade, e os Outros... não, não devo pensar nisso, não pense, não se lembre, limite-se a andar, limite-se a andar, limite-se a andar.
Soluçando, deu outro passo.
Uma raiz escondida sob a neve pegou na ponta de seu pé, e Sam tropeçou e caiu pesadamente sobre um joelho com tanta força que mordeu a língua. Sentiu o sabor do sangue na boca, mais quente do que qualquer outra coisa que havia saboreado desde o Punho. Este é o fim, pensou. Agora que caíra, não parecia ser capaz de encontrar as forças necessárias para voltar a se levantar. Tateou um ramo de árvore e agarrou-o com força, tentando puxar-se e ficar de pé, mas suas pernas enrijecidas não conseguiam aguentá-lo. A cota de malha era pesada demais, e ele gordo demais, e fraco demais, e estava cansado demais.
– Fique em pé, Porquinho – rosnou alguém ao passar, mas Sam não ligou. Vou apenas ficar deitado na neve e fechar os olhos. Não seria assim tão ruim morrer ali. Não havia como ser mais frio e, após algum tempo, não seria capaz de sentir a dor na parte de baixo das costas ou a terrível dor nos ombros, assim como já não sentia os pés. Não serei o primeiro a morrer, eles não poderão dizer que fui. Centenas de homens tinham morrido no Punho, tinham morrido por toda a sua volta, e muitos morreram depois, ele viu. Tremendo, Sam largou a árvore e deixou-se cair na neve. Sabia que era fria e úmida, mas quase não conseguia senti-la através de todas as suas roupas. Fixou os olhos no alto, no céu branco, enquanto flocos de neve pousavam na sua barriga, no seu peito e nas suas pálpebras. A neve vai me cobrir como uma espessa manta branca. Ficarei quente sob a neve e, se falarem de mim, terão de dizer que morri como um homem da Patrulha da Noite. Foi o que fiz. Foi o que fiz. Cumpri meu dever. Ninguém pode dizer que quebrei o juramento. Sou gordo, fraco e covarde, mas cumpri o meu dever.
Os corvos estavam sob sua responsabilidade. Foi por isso que o trouxeram. Sam não queria vir, lhes dissera que não, revelara a todos o grande covarde que era. Mas Meistre Aemon era muito velho e também cego, por isso enviaram Sam para cuidar dos corvos. O Senhor Comandante dera-lhe as suas ordens quando acamparam no Punho.