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O jardim de Rama

Электронная книга - «O jardim de Rama». Краткое содержание книги:

Nesta sequência de O Enigma de Rama, é mostrada a vida dos astronautas que foram deixados a bordo da espaçonave extraterrestre Rama. Em sua interação com esse estranho habitat vão descobrir que existem outros tripulantes que os acompanham na viagem para fora do Sistema Solar.
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“E o que quer que eu diga a ela?”, respondeu Richard após um breve silêncio. “Que a vida não é feita de um momento excitante após outro?… E por que razão deveria eu pedir-lhe que não se retirasse para seu mundo de fantasia em seu próprio quarto? É provável que ele seja mais interessante do que este.

Infelizmente, não há nada de muito excitante para uma mulher jovem como Katie em parte alguma do Novo Éden, neste momento.” “Esperava que você fosse um pouco mais compreensivo”, respondeu Nicole um tanto amuada. “Preciso de sua ajuda, Richard… e Katie reage melhor a você.”

Novamente Richard ficou em silêncio. “Está bem”, acabou dizendo, em tom frustrado, e tornando a deitar-se. “Levarei Katie para esquiar na água amanhã — ela adora — e pedirei que ela ao menos tenha um pouco mais de consideração com os outros membros da família.”

“Muito bom. Ótimo”, disse Richard, quando acabou de ler todo o material no caderno eletrônico de Patrick. Desligando a força, ele olhou para o filho, que estava sentado defronte do pai, um pouco nervoso. “Você aprendeu álgebra muito depressa, e positivamente tem um dom para a matemática. Quando chegarem os outros humanos no Novo Éden, você estará quase pronto para cursos universitários — pelo menos em matemática e ciência.”

“Mas mamãe diz que ainda estou muito atrasado com o meu inglês”, respondeu Patrick. “Ela diz que minhas redações parecem de criança.”

Nicole ouviu a conversa e aproximou-se, vindo da cozinha. “Patrick, querido, Garcia 041 diz que você não leva suas redações a sério. Sei que você não pode aprender tudo do dia para a noite, mas não quero que fique embaraçado quando encontrarmos os outros humanos.”

“Mas eu gosto mais de matemática e ciência”, protestou Patrick. “Nosso robô Einstein disse que poderia ensinar-me cálculo em três ou quatro semanas — se eu não tivesse de estudar tantas outras matérias.”

A porta da frente abriu-se de repente e Katie e Ellie entraram brincando.

O rosto de Katie estava brilhando e vivo. “Desculpem o atraso, mas tivemos um dia ótimo.” Voltou-se para Patrick e acrescentou: “Eu guiei o barco sozinha, e atravessei todo o lago Shakespeare. Deixamos Garcia na margem.”

Ellie não estava tão entusiasmada quanto a irmã. Na verdade, parecia um pouquinho emburrada. “Você está bem, querida?” perguntou Nicole baixinho à caçula, enquanto Katie regalava o resto da família com suas histórias da aventura no lago.

Ellie acenou com a cabeça, mas não disse nada.

“O excitante, mesmo”, vibrava Katie, “foi cruzar nossas próprias ondas em alta velocidade. Bam-bam-bam, íamos batendo de uma onda para outra. Às vezes, parecia que estávamos voando.”

“Aqueles barcos não são brinquedos”, comentou Nicole alguns momentos mais tarde, ao chamar todos para que viessem jantar. Benjy, que estivera na cozinha pegando uns pedacinhos de salada com as mãos, foi o último a se sentar.

“O que é que você faria se o barco virasse?”, perguntou Nicole depois de estarem todos sentados.

“As Garcias iriam nos salvar”, respondeu Katie, sem dar muita importância ao assunto. “Havia três nos olhando da praia… Afinal, é para isso que elas servem… Além do que, estamos usando salva-vidas, e de qualquer modo eu sei nadar.”

“Mas sua irmã não sabe”, retrucou imediatamente Nicole, em tom crítico.

“E você sabe que ela teria ficado apavorada se tivesse sido atirada na água.” Katie tentou argumentar, mas Richard interferiu e mudou de assunto, antes que a discussão pegasse fogo. Na verdade, toda a família andava um pouco nervosa. Rama havia entrado na órbita de Marte fazia um mês, mas ainda não havia qualquer sinal do contingente humano que supostamente eles deveriam encontrar. Nicole sempre supusera que seu encontro com os outros terráqueos teria lugar logo após sua inserção na órbita de Marte.

Depois do jantar, toda a família foi para o pequeno observatório de Richard no quintal da casa, para olhar para Marte. O observatório tinha acesso a todos os sensores externos de Rama (porém a nenhum dos internos fora do perímetro do Novo Éden — a Águia fora muito firme quanto a esse ponto durante suas discussões sobre o desenho da nave) e podia portanto apresentar vistas telescópicas esplêndidas de cada parte do dia do Planeta Vermelho.

Benjy gostava particularmente dessas sessões de observação com Richard.

Sentia muito orgulho de poder apontar os vulcões da região de Tharsis, o grande desfiladeiro chamado Valles Marineris, e a área Chryse, onde a primeira nave Viking pousara havia mais de duzentos anos. Uma tempestade de pó estava-se formando ao sul da Estação Mutch, centro da grande colônia marciana abandonada nos dias incertos que se seguiram ao Grande Caos. Richard especulou que o pó poderia espalhar-se por todo o planeta, já que estava na estação certa para esse tipo de tempestade global.

“O que acontecerá se os outros terráqueos não aparecerem?”, indagou Katie durante um momento de pausa nas observações de Marte. “E por favor, mamãe, dê uma resposta clara, desta vez; nós não somos mais crianças.”

Nicole ignorou o tom desafiador do comentário de Katie. “Se me lembro corretamente, o plano básico reza que devemos esperar aqui na órbita de Marte por seis meses”, respondeu. “Se não houver encontro dentro desse período, Rama irá na direção da Terra.” Fez uma pausa de vários segundos. “Nem seu pai nem eu sabemos qual será o procedimento a partir desse ponto. A Águia nos disse que se forem postos em marcha quaisquer dos planos de emergência, eles nos dirão, no momento certo, tudo o que precisamos saber.”

A sala ficou quieta por quase um minuto, enquanto imagens de Marte em várias resoluções apareciam na gigantesca tela na parede. “Onde é a Terra?”

perguntou Benjy.

“É o planeta que fica logo para dentro de Marte, isto é, é o que fica mais perto do sol, logo a seguir de Marte”, respondeu Richard. “Não se lembra de que eu lhe mostrei na fila de planetas, na sub-rotina do meu computador?”

“Não é isso que eu quis dizer”, respondeu Benjy muito devagar. “Eu quero ver a Terra.”

Era um pedido bastante simples. Jamais ocorrera a Richard, embora houvesse trazido a família ao observatório várias vezes, que as crianças pudessem se interessar por aquela luz mal e mal azulada no céu da noite marciana. “A Terra não é muito imponente vista desta distância”, disse Richard, interrogando seu banco de dados para obter o melhor resultado do sensor. “Na verdade, parece bastante com qualquer outro objeto brilhante, como Sirius, por exemplo.”

Richard não captara o significado da coisa. Uma vez identificada a Terra em um quadro celestial específico, e centrada a sua imagem em torno daquele reflexo aparentemente insignificante, as crianças todas ficaram fascinadas olhando para ela, com a maior atenção.

Aquele é seu planeta natal, pensou Nicole, fascinada pela repentina mudança de clima na sala, muito embora jamais tenham estado lá. Imagens da Terra, guardadas na memória, inundaram Nicole, enquanto olhava para aquele pontinho no centro da tela. Teve então consciência de uma profunda saudade, de um desejo de voltar àquele abençoado planeta oceânico transbordante de tanta beleza. Lágrimas encheram-lhe os olhos e, aproximando-se das crianças, ela abriu os braços e envolveu todas elas.

“Seja para onde for que nós tenhamos de ir neste espantoso universo”, disse ela suavemente, “tanto agora quanto no futuro, aquele pontinho azul será sempre a nossa casa.”

2

Nai Buatong despertou na escuridão que antecede a aurora. Enfiou-se em um vestido de algodão sem mangas, parou momentaneamente para apresentar seus respeitos a seu Buda pessoal no hawng pra adjacente à sala de estar, depois abriu a porta da frente sem despertar os outros membros da família. Na brisa, pôde sentir o cheiro de flores misturado com temperos Tai — alguém na vizinhança já estava preparando o desjejum.

As sandálias dela não faziam barulho no caminho de terra fofa. Nai caminhava devagar, com a cabeça virando para a direita e a esquerda, seus olhos absorvendo todas as sombras familiares que em breve se transformariam em lembranças. Meu último dia, pensou ela. Finalmente chegou.

Após alguns minutos, ela dobrou à direita, para a rua asfaltada que levava ao pequeno distrito comercial de Lamphum. Ocasionalmente uma bicicleta passava por ela, mas de modo geral a manhã estava calma. Nenhuma das lojas se abrira, ainda.

Ao aproximar-se de um templo, Nai passou por dois monges budistas, um de cada lado da rua. Ambos os monges estavam vestidos com a rotineira roupa açafrão, e ambos carregavam grandes urnas metálicas. Procuravam seu desjejum, exatamente como faziam toda manhã na Tailândia inteira. Uma mulher apareceu na porta de uma loja, bem defronte a Nai, e derramou um pouco de comida na urna do monge. Nem trocaram palavras e nem a expressão do monge alterou-se de forma perceptível para acusar o recebimento da doação.

Eles não possuem nada, ficou pensando Nai, nem sequer aquele trapo que os veste. E no entanto são felizes. Ela recitou rapidamente o princípio básico, “A causa do sofrimento é o desejo”, e lembrou-se da incrível riqueza da família de seu novo marido, no bairro de Higashiyama, nos arredores de Kioto, no Japão.

Kenjy diz que sua mãe tem tudo, menos paz. Esta a escapa porque ela não a pode comprar.

Por um momento a lembrança recente da imponente casa dos Watanabes encheu sua mente, afastando a imagem da singela rua Tai ao longo da qual ela caminhava. Nai ficara dominada pela opulência da mansão em Kioto. Mas para ela o lugar não tinha sido amistoso. Ficara imediatamente óbvio que os pais de Kenjy a encaravam como uma intrometida, uma estrangeira inferior que se casara com seu filho sem o beneplácito deles. Não foram maus, somente frios.

Haviam-na dissecado com perguntas sobre seus antecedentes familiares e de educação, feitas com precisão lógica e sem emoção. Kenjy a consolara mais tarde salientando que sua família não estaria com eles em Marte.

Ela parou na rua em Lamphun e olhou para o templo da rainha Chamatevi. Era seu local predileto da cidade, provavelmente seu local predileto em toda a Tailândia. Partes do templo já tinham mil e quinhentos anos; suas silenciosas sentinelas de pedra haviam testemunhado uma história tão diferente da atual que poderia ter tido lugar em algum outro planeta.

Nai atravessou a rua e parou no pátio logo dentro dos muros do templo.

Era uma manhã excepcionalmente clara, e logo acima do chedi mais alto do velho templo Tai uma forte luz brilhou no escuro céu matinal. Nai se deu conta de que aquela luz era Marte, seu destino futuro. A justaposição era perfeita. Por todos os 26 anos de sua vida (com exceção dos quatro que passara na Universidade de Chiang Mai), a cidade de Lamphun fora seu lar. Dentro de seis semanas ela estaria a bordo de uma gigantesca espaçonave que a levaria à sua residência pelos próximos cinco anos, em uma colônia espacial no Planeta Vermelho.

Nai sentou-se em posição de lótus em um canto do pátio e olhou fixamente para a luz no céu. Como é justo, pensou ela, que Marte me esteja olhando esta manhã. E iniciou a respiração rítmica que era o prelúdio de sua meditação matinal. Mas ao preparar-se para a paz e a calma que geralmente a “centravam”

para o dia que começava, Nai admitiu que havia muitas emoções fortes e não resolvidas dentro dela.

Primeiro tenho de refletir, pensou Nai, resolvendo abandonar sua meditação temporariamente. Neste dia, o último que passo em casa, tenho de fazer as pazes com os acontecimentos que mudaram completamente a minha vida.

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