Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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Seguiu-se uma série de desculpas do mordomo.
– Bem, não vou recebê-lo, Staples. Não posso interromper meu trabalho desta forma. Não estou em casa. Diga-lhe isso. Diga-lhe para voltar amanhã de manhã, se realmente precisa falar comigo.
Novamente ouvi o murmúrio respeitoso.
– Bem, bem, diga-lhe isso. Ele pode vir de manhã, ou não vir. Meu trabalho não pode ser interrompido.
Pensei em Holmes, se contorcendo doente na cama e talvez contando os minutos até eu poder levar-lhe ajuda. Não era hora para cerimônias. A vida dele dependia de minha presteza. Antes que o mordomo constrangido me desse o recado, eu o empurrei e entrei na sala.
Com um grito estridente de raiva, um homem levantou-se da espreguiçadeira ao lado da lareira. Vi um rosto amarelo e grande, grosseiro e gorduroso, com uma papada acentuada e os olhos ameaçadores sob as sobrancelhas espessas e grisalhas fixos em mim. A cabeça pontuda e calva tinha um pequeno barrete de veludo inclinado sobre um dos lados do crânio rosado. A cabeça era grande, mas quando olhei para ele, vi, com espanto, que o corpo do homem era pequeno e frágil, curvado nos ombros e nas costas, como alguém que tivesse sofrido de raquitismo na infância.
– O que significa isso? – perguntou numa voz alta e estridente. – O que significa esta intromissão? Não mandei lhe dizer que só o receberia amanhã cedo?
– Lamento muito – eu disse –, mas o assunto não pode ser adiado. Sherlock Holmes...
A menção ao nome do meu amigo produziu um efeito extraordinário no homenzinho. A raiva estampada no rosto sumiu de repente. Sua expressão ficou tensa e alerta.
– Você vem da parte de Holmes?
– Acabei de deixá-lo.
– E Holmes, como está?
– Terrivelmente doente. Vim por causa disso.
Ele indicou-me uma cadeira e voltou para o seu lugar. Quando eu estava para me sentar, vi o rosto dele refletido no espelho sobre a lareira. Podia jurar que vi um sorriso malicioso e diabólico. Mesmo assim tentei convencer-me de que se tratava de algum tique nervoso, porque logo em seguida ele se virou para mim com uma expressão de verdadeira preocupação no rosto.
– Sinto muito ouvi-lo dizer isso. Só conheço o sr. Holmes por causa de uns negócios que mantivemos, mas tenho grande respeito pelo seu talento e caráter. Ele é um estudioso do crime como eu o sou das doenças. Para ele, o criminoso, para mim, o micróbio. Lá estão minhas prisões.
Ao dizer isso, apontou para uma fila de frascos e tubos de ensaio que estavam sobre uma mesa.
– No meio daquelas culturas gelatinosas estão cumprindo pena alguns dos piores malfeitores do mundo.
– É por causa do seu conhecimento especial que Sherlock deseja vê-lo. Ele o tem em alta conta e acha que é o único homem em Londres que pode salvá-lo.
O homenzinho estremeceu e o elegante barrete caiu no chão.
– Por quê? – perguntou. – Por que o sr. Holmes acha que eu poderia ajudá-lo agora?
– Por causa de seus conhecimentos sobre doenças orientais.
– Mas por que ele acha que a doença que contraiu seja oriental?
– Ele trabalhou recentemente entre marinheiros chineses, nas docas, num caso qualquer.
O sr. Culverton sorriu com satisfação e pegou o barrete do chão.
– Oh, é isso então, hein? Acho que o caso pode não ser tão grave quanto o senhor supõe. Há quanto tempo ele está doente?
– Faz uns três dias.
– Tem tido delírios?
– De vez em quando.
– Ora, ora, isto me parece grave. Seria desumano não atender ao seu pedido de socorro. Não gosto de interromper os meus estudos, dr. Watson, mas este caso é, de fato, excepcional. Irei imediatamente com o senhor.
Lembrei-me da recomendação de Holmes.
– Tenho outro compromisso – desculpei-me.
– Muito bem, irei sozinho, então. Tenho seu endereço anotado. Prometo que estarei lá dentro de meia hora, no máximo.
Com o coração apreensivo, voltei ao quarto de Holmes. Temia que o pior tivesse acontecido na minha ausência. Para meu grande alívio, porém, ele tinha melhorado bastante desde que eu saíra. Sua aparência ainda era horrível, mas não estava mais delirando e falava com uma voz fraca, é verdade, porém com mais lucidez e vivacidade do que o normal.
– E então, esteve com ele, Watson?
– Sim, ele está a caminho.
– Formidável, Watson! Formidável! Você é o melhor dos mensageiros!
– Ele queria vir comigo.
– Mas de maneira alguma. Isto não poderia ser. Ele lhe perguntou o que tenho?
– Eu falei dos chineses no East End...
– Ótimo! Bem, Watson, você fez tudo o que um bom amigo podia fazer. Pode sair de cena agora.
– Tenho de esperar para ouvir o diagnóstico dele, Holmes.
– Claro que sim. Mas tenho motivos para supor que a opinião dele será muito mais franca e valiosa se ele pensar que estamos sozinhos. Há espaço suficiente para você se esconder atrás da cabeceira da cama, Watson.
– Holmes!...
– Receio que não haja alternativa, meu amigo. O lugar não despertará suspeita, pois não é próprio para servir de esconderijo. Creio que é o único lugar em que você poderá ficar.
Sentou-se de repente, com uma expressão rígida no rosto descarnado.
– Aí está ele, Watson. Depressa, homem, se gosta de mim! E não se mexa, aconteça o que acontecer, seja lá o que for, ouviu bem? Não diga uma palavra! Não faça um movimento! Apenas fique atento.
Logo em seguida, seu repentino acesso de energia sumiu, e sua fala, autoritária e dominadora, transformou-se no murmúrio vago e baixo de uma pessoa delirante.
Do esconderijo onde me instalei rapidamente, ouvi passos subindo a escada, a porta do quarto sendo aberta e fechada. Então, para minha surpresa, houve um longo silêncio, quebrado apenas pela respiração pesada e ofegante do doente. Eu podia imaginar o visitante de pé ao lado da cama, olhando para o meu amigo sofredor. Finalmente, o estranho silêncio foi rompido.
– Holmes! Holmes! – chamou o visitante, no tom insistente de alguém que acorda um dorminhoco. – Pode me ouvir, Holmes?
Ouvi em seguida um farfalhar de panos, como se ele estivesse sacudindo o doente vigorosamente pelos ombros.
– É o sr. Smith? – murmurou Holmes. – Duvidava que viesse.
O outro riu.
– Eu já sabia – respondeu. – E mesmo assim, como vê, aqui estou. Retribuição! Retribuição!
– Foi muita bondade... muito nobre de sua parte. Eu respeito os seus conhecimentos especiais.
O visitante riu, sarcástico.
– Verdade? Felizmente, você é o único homem em Londres que o aprecia. Sabe o que há com você?
– A mesma doença – murmurou Holmes.
– Ah, então você reconhece os sintomas?
– Demais... demais...
– Bem, eu não deveria ficar surpreso, Holmes. Eu não deveria ficar surpreso se fosse a mesma doença. Pior para você, se for ela. O pobre Victor morreu no quarto dia – um jovem forte e saudável. Como você disse, na verdade foi surpreendente que ele tivesse contraído uma remota doença asiática, em pleno coração de Londres – doença sobre a qual fiz um estudo especial. Estranha coincidência, Holmes. Você foi muito esperto em tê-la notado mas foi falta de caridade sugerir que entre os dois fatos existia relação de causa e efeito...
– Eu sabia que você a havia provocado.
– Oh, sabia, não? Bem, não podia provar, de qualquer modo. Mas o que acha de ficar me difamando e depois vir rastejando aos meus pés na hora em que está com problemas? Que tipo de jogo é esse, hein?
Ouvi a respiração difícil e entrecortada do doente.
– Quero água! – ele arquejou.
– Você está no fim, meu caro, mas não quero que morra sem escutar algumas coisas que tenho para lhe dizer. É por isso que vou dar-lhe a água. Aí está... não a beba de uma vez... está bom. Está entendendo o que eu digo?
– Faça o que puder por mim – Sherlock murmurou. – Águas passadas não movem moinho. Vou tirar da cabeça o que eu sei, juro que vou. Apenas me cure... e eu esquecerei o que sei...