Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– Mas isto é loucura, Holmes.
– Apenas duas horas, Watson. Eu lhe prometo que poderá sair às seis. Pode esperar?
– Não tenho outra alternativa.
– E não tem mesmo, Watson. Obrigado, não preciso de ajuda para arrumar as cobertas. Mantenha distância, por favor. E agora, Watson, há uma outra condição que vou impor. Você vai procurar ajuda, mas não do médico que mencionou; será daquele que eu indicar.
– Está bem, então.
– Estas são as três primeiras palavras sensatas que você diz desde que entrou neste quarto, Watson. Ali na estante você vai encontrar alguns livros. Eu estou exausto; fico imaginando como uma bateria se sente quando joga eletricidade num mau condutor. Às seis horas, Watson, continuaremos nossa conversa.
Mas a conversa estava destinada a ser retomada muito antes da hora combinada, e em circunstâncias que me provocaram um tremendo susto, igual ao que levei quando ele trancou a porta. Eu havia ficado de pé durante algum tempo olhando a figura silenciosa na cama. O rosto estava quase todo coberto e ele parecia dormir. Incapaz de me concentrar em leituras, eu fiquei andando lentamente pelo quarto, olhando os retratos de criminosos famosos que adornavam as paredes. Finalmente, nessa minha perambulação, aproximei-me do consolo da lareira. Vários cachimbos, bolsas de fumo, seringas, canivetes, cartuchos de revólver e outros objetos estavam espalhados ali em cima. No meio de tudo isso havia uma caixinha branca e preta de marfim, com uma tampa móvel. Era um objeto bonito e eu estendi a mão para pegá-lo e examiná-lo mais de perto quando... Ele deu um grito horrível, um berro que deve ter sido ouvido na rua inteira. Quando me virei, vi um rosto convulso e olhos desvairados. Fiquei paralisado, com a caixinha na mão.
– Largue isso aí! Agora, Watson, agora!
Quando recoloquei o objeto no lugar, ele afundou de novo a cabeça no travesseiro e deu um suspiro de alívio.
– Detesto que mexam nas minhas coisas, Watson. Você sabe disso. Pare de me atormentar. Você, um médico, é capaz de mandar uma pessoa para o hospício... Sente-se, homem, e deixe-me descansar!
O incidente deixou em mim uma impressão extremamente desagradável. A excitação, violenta e injustificada, seguida pela brutalidade das palavras, normalmente gentis, tudo me demonstrou sua profunda desorganização mental. De todas as desgraças, a ruína de um cérebro privilegiado é a mais deplorável. Fiquei sentado, numa silenciosa mortificação, até chegar a hora marcada.
Ele parecia ter ficado de olho no relógio, como eu, porque eram quase 18 horas quando começou a falar com a mesma animação febril de antes.
– Agora, Watson – disse. – Tem dinheiro trocado?
– Tenho.
– Moedas?
– Bastante.
– Quantas meias-coroas?
– Cinco.
– Oh, muito pouco! Muito pouco! Que azar, Watson! Mas você pode colocá-las no bolsinho do relógio. Ponha o resto do seu dinheiro no bolso da calça. Obrigado. Isso vai ajudá-lo a manter seu equilíbrio.
Estava delirando! Estremeceu e novamente fez um som meio tosse, meio soluço.
– Acenda o bico de gás, Watson, mas tenha todo o cuidado para que ele não passe, nem por um momento, da metade de sua potência. Excelente. Não, não precisa fechar as cortinas. Agora, por favor, ponha algumas cartas e jornais nesta mesa, aqui perto. Obrigado. Agora, um pouco do material do consolo da lareira. Excelente, Watson. Ali está uma pinça para os tabletes de açúcar. Pegue com ela a caixinha de marfim. Coloque aqui entre os jornais. Está ótimo! Agora pode ir e trazer o sr. Culverton Smith, que mora em Lower Burke Street, no 13.
Para dizer a verdade, minha vontade de ir buscar um médico tinha diminuído, porque o pobre Holmes estava delirando e me pareceu perigoso deixá-lo sozinho. Entretanto, agora ele estava tão ansioso para consultar aquela pessoa como estivera obstinado em não aceitar antes.
– Nunca ouvi falar neste nome – eu disse.
– Possivelmente não, meu bom Watson. Talvez fique surpreso ao saber que o homem que mais entende dessa doença no mundo não é um médico, mas um agricultor. O sr. Culverton Smith é um conhecido fazendeiro residente em Sumatra, agora em visita a Londres. Um surto desta moléstia em sua plantação, distante de qualquer assistência médica, obrigou-o a estudá-la profundamente, com resultados impressionantes. É uma pessoa muito metódica e eu não queria que você fosse buscá-lo antes das seis horas porque sei que não o encontraria em casa. Se você puder convencê-lo a vir aqui, com sua excepcional experiência da doença – assunto que se tornou seu passatempo predileto –, tenho certeza de que ele poderá me ajudar.
Transcrevo as palavras de Holmes sem quebrar a seqüência, não mostrando como eram interrompidas pela falta de ar, e as mãos crispadas que indicavam a dor que estava sofrendo. A aparência dele havia piorado nas poucas horas em que eu estivera ali no quarto. As manchas vermelhas no rosto estavam maiores, os olhos mais brilhantes nas cavidades ainda mais escuras e um suor frio surgira na testa. Mas ainda mantinha o tom imperioso ao falar. Até o último suspiro ele seria sempre o mestre.
– Conte-lhe exatamente como me deixou. Transmita a impressão que você tem de mim... um homem agonizante... em delírios... Para falar a verdade, não consigo entender por que o leito do mar não é uma massa sólida feita de ostras, já que elas parecem proliferar tanto. Oh, estou delirando de novo... É estranho como o cérebro controla o cérebro! O que eu estava dizendo, Watson?
– Instruções para minha conversa com o sr. Culverton Smith.
– Ah, sim, eu me lembro agora. Minha vida depende disso. Insista com ele, Watson. Não estamos em boas relações. Seu sobrinho... eu desconfiei de algo irregular... e fiz com que ele visse isso. O rapaz teve uma morte horrível. Ele tem mágoa de mim. Você vai convencê-lo, Watson. Implore, suplique, traga-o aqui de qualquer maneira. Ele pode me salvar – só ele!
– Eu o trarei num carro, mesmo que tenha de arrastá-lo!
– Nem pense em fazer uma coisa assim! Você tem de convencê-lo a vir. E volte sozinho, antes dele. Dê uma desculpa qualquer, mas não venha com ele. Não se esqueça, Watson. Não me decepcione. Você nunca me falhou antes. Não há dúvida de que existem inimigos naturais que limitam o aumento das criaturas. Você e eu, Watson, fizemos a nossa parte. O mundo deve, então, ser invadido por ostras? Não, não, é horrível! Você vai transmitir tudo o que está na sua mente!
Deixei-o e saí com a imagem de um intelecto magnífico tagarelando como uma criança retardada. Levei a chave, com medo de ele se trancar no quarto. A sra. Hudson, trêmula e chorosa, me aguardava no corredor. Quando passei por ela, ainda ouvi a voz aguda e penetrante de Holmes numa cantoria delirante. Na rua, enquanto chamava um carro, um homem aproximou-se de mim em meio à neblina.
– Como está o sr. Holmes? – perguntou.
Era um velho conhecido, o inspetor Morton, da Scotland Yard.
– Ele está muito doente – respondi.
Ele me fitou de um modo estranho. Se não fosse perverso demais, eu diria ter visto em seu rosto, à luz do lampião, uma espécie de alegria...
– Ouvi falar – ele comentou.
O cabriolé se aproximou e eu fui embora. Lower Burke Street era uma fila de belas casas, situadas num trecho entre Notting Hill e Kensington. A casa, diante da qual o cocheiro parou, tinha um aspecto de sóbria respeitabilidade, com grades de ferro de estilo antigo, porta maciça de folha dupla, ornatos de bronze reluzente. Tudo combinava com o solene mordomo que apareceu, enquadrado numa claridade rósea de uma lâmpada atrás dele.
– Sim, o sr. Culverton Smith está. Dr. Watson? Muito bem, senhor, vou levar-lhe o seu cartão.
Meu nome e meu título humildes pareceram não impressionar o sr. Culverton Smith. Pela porta entreaberta ouvi uma voz alta, petulante, penetrante.
– Quem é ele? O que quer? Ora, Staples, quantas vezes eu tenho de lhe dizer que não quero ser incomodado nas minhas horas de estudo?