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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Holmes sorriu e esfregou as mãos.

– Devo dar-lhe os parabéns pelo modo proveitoso como está conduzindo este caso, inspetor. Sua capacidade, se posso dizer isso sem ofensa, parece superior às suas oportunidades.

Os olhinhos do inspetor Baynes brilharam de satisfação.

– Tem razão, sr. Holmes. Vegeta-se no interior. Um caso como este aqui dá uma oportunidade a gente, e eu espero resolvê-lo. O que acha destes ossos?

– Um cordeiro, eu diria, ou um cabrito.

– E o galo branco?

– Curioso, sr. Baynes, muito curioso. Eu diria mesmo inédito.

– Sim, senhor, nesta casa devia haver gente muito estranha, com costumes bem estranhos. Uma delas está morta. Será que seus companheiros a seguiram e a mataram? Se o fizeram, vamos pegá-los, porque todos os portos estão vigiados. Mas minhas opiniões são diferentes. Sim, senhor, são muito diferentes.

– Então o senhor tem uma teoria?

– E vou trabalhar nela sozinho, sr. Holmes. Devo  fazer isso para ganhar prestígio. O senhor tem o nome feito, mas eu ainda tenho que fazer o meu. Ficarei contente em poder dizer no final que eu resolvi o caso sem a sua ajuda.

Holmes, de bom humor, riu.

– Ora, ora, inspetor – ele disse. – Siga o seu caminho que eu seguirei o meu. Meus resultados sempre estarão à sua disposição, se quiser. Acho que já vi tudo o que queria nesta casa e meu tempo pode ser mais bem aproveitado em outro lugar. Au revoir e boa sorte!

Eu podia dizer, diante de vários sinais sutis, que podiam ter passado despercebidos para todos, menos para mim, que Holmes estava numa pista quente. Impassível como sempre para o observador casual, havia, mesmo assim, ansiedade e indicação de tensão em seus olhos brilhantes e no jeito mais vivo, o que me dizia que o jogo estava em andamento. Como era seu hábito, nada disse, e eu, como meu hábito, nada perguntei. Bastava-me participar do jogo e dar minha humilde contribuição para a prisão, sem distrair aquele cérebro concentrado com interrupções desnecessárias. No devido tempo, tudo me seria contado.

Assim, esperei – mas para meu desapontamento crescente, esperei em vão. Os dias estavam passando e meu amigo não fez mais nada. Passou uma manhã na cidade e eu soube por uma referência casual que ele tinha visitado o Museu Britânico. Com exceção desse passeio, ele passava os dias em longas caminhadas, ou conversando com mexeriqueiros da cidade, com os quais fizera amizade.

– Tenho certeza, Watson, de que uma semana no campo fará bem a você – ele disse. – É muito agradável ver os primeiros brotos verdes nascendo nas sebes e os amentilhos nas aveleiras novamente. Com uma pá, um balde e um livro elementar de botânica, pode-se passar dias proveitosos.

Ele mesmo saía com esse material, mas a amostra de plantas que trazia para casa à noite era bem pobre.

Encontrávamos de vez em quando, nos nossos passeios, o inspetor Baynes. Quando cumprimentava meu companheiro, seu rosto se abria em sorrisos e seus olhinhos brilhavam. Falava pouco do caso, mas desse pouco víamos que ele não estava insatisfeito com o rumo dos acontecimentos. Entretanto devo admitir que eu fiquei um pouco surpreso quando, uns cinco dias depois do crime, abri o jornal da manhã e vi, em letras garrafais:

O MISTÉRIO DE OXSHOTT

UMA SOLUÇÃO

PRISÃO DO SUPOSTO ASSASSINO

Holmes pulou da cadeira como se tivesse levado uma ferroada quando li a manchete.

– Meu Deus! – exclamou. – Você quer dizer que Baynes o pegou?

– Parece que sim – eu disse, e li o seguinte relato:

Quando se soube ontem à noite que foi feita uma prisão relacionada com o assassinato de Oxshott, houve grande sensação em Esher e arredores. Como se sabe, o sr. Garcia, da Vila Glicínia, foi encontrado morto em Oxshott Common, com sinais de extrema violência no corpo, e naquela mesma noite seu criado e o cozinheiro desapareceram, o que demonstra a participação deles no crime. Pensava-se, mas não se conseguiu provar, que o cavalheiro morto tivesse objetos de valor na casa, e que o roubo fora o motivo do crime. O inspetor Baynes envidou todos os esforços, já que está encarregado do caso, para localizar o esconderijo dos fugitivos, e ele tem bons motivos para crer que eles não estavam longe e ficaram escondidos em um local previamente preparado. Mas sabia-se desde o começo que eles seriam presos, mais cedo ou mais tarde, já que o cozinheiro, segundo o depoimento de um ou dois fornecedores que o viram pela janela, era um homem de aparência que chamava atenção – um mulato imenso e medonho, com traços acentuados do tipo negróide. Ele foi visto depois do crime, porque foi notado e perseguido pelo policial Walters na mesma noite, quando teve a audácia de retornar à Vila Glicínia. O inspetor Baynes, achando que esse retorno deve ter algum objetivo e que poderia, portanto, voltar a acontecer, saiu da casa, mas deixou uma emboscada no matagal próximo. O homem caiu na armadilha e foi capturado ontem à noite, depois de uma luta na qual o policial Downing foi gravemente ferido por uma dentada do selvagem. Espera-se que uma ordem de prisão seja solicitada pela polícia quando o prisioneiro for levado à justiça, e esperam-se grandes progressos a partir desta prisão.

– Temos de ver Baynes imediatamente – exclamou Holmes, apanhando o chapéu. – Vamos pegá-lo antes que parta.

Saímos correndo pela rua do lugarejo e o encontramos, como supúnhamos, quando ele estava saindo.

– Leu o jornal, sr. Holmes? – perguntou, com um exemplar na mão.

– Sim, Baynes, eu o li. Espero que não se ofenda se eu lhe der uma palavra de advertência.

– De advertência, sr. Holmes?

– Estive analisando este caso com muito cuidado e acho que o senhor não está no caminho certo. Não gostaria que se expusesse tanto, a menos que tenha certeza.

– É bondade sua, sr. Holmes.

– Asseguro-lhe que falo pelo seu próprio bem.

Tive a impressão de que uma espécie de piscada surgiu rapidamente em um dos olhinhos apertados do sr. Baynes.

– Combinamos que cada um trabalharia a seu modo, sr. Holmes. E é exatamente isso que estou fazendo.

– Oh, muito bem – disse Holmes. – Não me culpe.

– Não, senhor. Tenho certeza de que não fez por mal. Mas nós temos nossos próprios sistemas, sr. Holmes. O senhor tem o seu, eu tenho o meu.

– Bem, vamos esquecer o assunto.

– Disponha sempre de minhas descobertas. Esse sujeito é um perfeito selvagem, forte como um cavalo e feroz como o diabo. Ele mastigou o polegar de Downing até quase arrancá-lo antes de ser dominado. Mal fala uma palavra em inglês e só conseguimos extrair grunhidos dele.

– Acha que tem prova de que foi ele que matou o patrão?

– Eu não disse isso, sr. Holmes, eu não disse isso. Temos nossos métodos. Siga os seus e eu seguirei os meus. O acordo é este.

Holmes encolheu os ombros quando nos afastamos.

– Não estou entendendo o homem. Ele dá a impressão de que vai falhar. Bem, como ele diz, cada um deve seguir seu próprio caminho e ver no que vai dar. Mas há qualquer coisa no inspetor Baynes que eu não estou entendendo.

– Sente-se nessa cadeira, Watson – disse Holmes, quando voltamos ao nosso aposento no hotel. – Quero deixá-lo a par da situação, já que vou precisar de sua ajuda hoje à noite. Vou mostrar-lhe a evolução do caso até onde eu pude segui-lo. Embora pareça simples em seus aspectos principais, tem dificuldades surpreendentes para uma prisão. Há falhas nessa direção e nós temos de saná-las. Vejamos o bilhete que foi entregue a Garcia na noite de sua morte. Vamos esquecer a teoria de Baynes de que os criados de Garcia estão envolvidos no assunto. A prova disso reside no fato de que foi ele, Garcia, que fez com que Scott Eccles estivesse na sua casa, o que só pode ter sido feito com o intuito de um álibi. Era Garcia, portanto, que tinha uma tarefa a cumprir e, aparentemente, uma tarefa criminosa naquela noite, durante a qual foi morto. Eu disse “criminosa” porque somente um homem com um intuito criminoso desejaria criar um álibi. Quem, então, poderia matá-lo? Com toda a certeza a pessoa contra a qual existia o intuito criminoso. Até aqui, parece que estamos pisando em terreno firme. Podemos ver agora um motivo para o desaparecimento da criadagem de Garcia. Todos estavam metidos na mesma missão desconhecida. Se fosse bem-sucedida, Garcia voltaria e qualquer suspeita seria descartada pelo testemunho do inglês, e tudo ficaria bem. Mas o negócio era perigoso e, se Garcia não voltasse em determinada hora, era provável que estivesse morto. Então ficou estabelecido que, nesse caso, os dois criados deveriam ir para um lugar já combinado, de onde poderiam escapar das investigações e numa situação de tentar novamente mais tarde. Isso explica tudo, não?

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