Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– O homem era espanhol. Eu acho que “D” significa Dolores, um nome de mulher bastante comum na Espanha.
– Bom, Watson, muito bom, mas totalmente inadmissível. Quem escreveu este bilhete certamente é inglês. Um espanhol escreveria a outro em espanhol mesmo. Bem, precisamos ter paciência até que o inspetor volte. Nesse meio-tempo, podemos agradecer ao nosso destino por nos resgatar por algumas horas da insuportável fadiga do tédio.
A resposta ao telegrama de Holmes chegou antes da volta do detetive de Surrey. Sherlock leu o texto e ia guardá-lo no seu caderno quando notou a curiosidade no meu rosto. Jogou-o para mim, dizendo:
– Estamos andando em altas esferas – disse ele.
O telegrama era uma lista de nomes e endereços:
Lorde Harringby, The Dingle; sir George Ffolliott, Oxshott Towers; sr. Hynes Hynes, J. P., Purdey Place; sr. James Baker Williams, Forton Old Hall; sr. Henderson, High Gable; Rev. Joshua Stone, Nether Walsling.
– Esta é uma forma bem prática de limitar nosso campo de operação – disse Holmes. – Sem dúvida, Baynes, com sua mente metódica, já adotou um plano igual.
– Não estou entendendo.
– Bem, meu caro amigo, já chegamos à conclusão de que o bilhete que Garcia recebeu no jantar era um encontro ou uma indicação. Agora, se a interpretação estiver correta, é necessário subir uma escada principal e localizar a sétima porta de um corredor para se chegar ao local indicado; vê-se, portanto, que se trata de um lugar bem grande. Também é certo que a casa não deve ficar a mais de 2 ou 3 quilômetros de Oxshott, já que Garcia estava andando naquela direção e, de acordo com minha interpretação dos fatos, esperava estar de volta à Vila Glicínia a tempo de ter um álibi que valeria até uma hora. Como deve haver poucas casas grandes perto de Oxshott, adotei o método óbvio de telegrafar aos corretores mencionados por Scott Eccles para obter uma lista delas. Estão aqui, neste telegrama, e a outra ponta de nossa meada complicada deve estar entre elas.
Eram quase 18 horas quando chegamos à bela vila de Esher, com o inspetor Baynes nos acompanhando. Holmes e eu havíamos levado coisas para passar a noite e encontramos aposentos confortáveis no Hotel Bull. Finalmente saímos, na companhia do detetive, para nossa visita à Vila Glicínia. Era uma noite escura e fria de março, com o vento cortante e a chuva batendo em nossos rostos, um cenário adequado à região inóspita pela qual passava nosso caminho e ao destino trágico a que nos levava.
2. O Tigre de San Pedro
Depois de uma caminhada gelada e melancólica, chegamos a um portão alto de madeira, que dava para uma avenida sombria de castanheiros. Um caminho sinuoso nos levou até uma casa baixa e escura, que se destacava contra o céu cinza. Vimos uma luz trêmula que saía de uma janela à esquerda da porta.
– Há um policial de plantão – disse Baynes. – Vou bater na janela.
Caminhou pela grama e bateu com os dedos na vidraça. Pude ver, pelo vidro embaçado, um homem dar um pulo da cadeira perto da lareira e escutei um grito áspero vindo de dentro. Pouco depois um policial pálido de susto e ofegante abriu a porta, com uma vela nas mãos que tremiam.
– Qual é o problema, Walters? – perguntou Baynes com rispidez.
O policial enxugou a testa com o lenço e deu um profundo suspiro de alívio.
– Estou contente que o senhor tenha vindo. Foi uma vigília interminável e eu acho que meus nervos já não são tão bons como eram antigamente.
– Seus nervos, Walters? Nunca pensei que você tivesse um nervo sequer no corpo.
– Bem, senhor, é esta solidão, esta casa silenciosa e o negócio esquisito na cozinha. Quando o senhor bateu na janela, pensei que ele tivesse voltado...
– Quem tivesse voltado?
– O demônio, senhor, pelo que sei. Ele estava na janela.
– O que estava na janela, e quando?
– Aconteceu há duas horas, mais ou menos. Eu estava lendo, sentado na cadeira. Não sei o que me fez levantar a cabeça, mas havia uma cara me olhando pela vidraça. E que cara, senhor! De hoje em diante vou vê-la sempre em meus sonhos.
– Ora, Walters, isto não é conversa de um policial.
– Eu sei, senhor, eu sei, mas ela me assustou e não adianta negá-lo. Não era preta nem branca, não era de nenhuma cor que eu conheça, mas uma espécie de barro com leite. E também o tamanho dela – tinha duas vezes o tamanho da sua, inspetor. E o olhar – dois olhos esbugalhados e uns dentes de fera faminta. Vou lhe dizer, senhor, não consegui mexer nem um dedo nem respirar enquanto ela não sumiu. Corri para fora e dei uma busca nas folhagens, mas graças a Deus ela tinha sumido.
– Se eu não soubesse que você é um bom homem, Walters, eu teria que fazer um relatório contra você por causa disso. Se fosse o próprio demônio, um policial não deveria dar graças a Deus por não tê-lo agarrado. Suponho que tudo isso tenha sido um abalo nervoso e não uma visão real...
– Isso tudo, pelo menos, pode ser facilmente verificado – disse Holmes, acendendo sua lanterna de bolso. – Sim – continuou Holmes, depois de examinar a grama – sapato número 45, eu diria. Se o tamanho for proporcional ao pé, com toda a certeza era um gigante.
– O que aconteceu com ele?
– Parece que passou pelos arbustos e pegou a estrada.
– Bem – disse o inspetor, com uma cara séria e pensativa –, quem quer que tenha sido, e o que pretendia, por enquanto sumiu e nós temos coisas mais urgentes para tratar. Sr. Holmes, com sua permissão, vou mostrar-lhe a casa.
Depois de um exame minucioso, os vários quartos e salas não revelaram quase nada. Aparentemente os inquilinos haviam trazido pouca coisa com eles, ou nada, e toda a mobília tinha sido alugada juntamente com a casa. Havia muita roupa deixada ali, com a marca Marx and Co., High Holborn. Já tinham sido feitas perguntas por telegrama, mas Marx nada sabia de seu cliente a não ser que era um bom pagador. Entre a bugiganga deixada havia cachimbos, alguns romances, dois deles em espanhol, um revólver antiquado e um violão.
– Nada nisso tudo – disse Baynes, andando de quarto em quarto, carregando a vela. – Mas agora, sr. Holmes, chamo sua atenção para a cozinha.
Era um aposento na parte de trás da casa, sombrio e de teto alto, com uma padiola de palha num canto, que, aparentemente, servira de cama para o cozinheiro. Na mesa, restos do jantar da noite anterior e pratos sujos.
– Veja isto – disse Baynes. – O que acha?
Aproximou a vela de um objeto estranho que estava no fundo do armário. Era difícil dizer o que tinha sido, de tão enrugado, murcho e seco que estava. Podia-se apenas dizer que era preto e de couro, e que tinha alguma semelhança com uma figura humana anã. No começo, quando o examinei, pensei que era um negrinho mumificado, depois pensei tratar-se de um macaco muito velho e torcido. Finalmente fiquei em dúvida se era animal ou humano. No meio estava enrolada uma fileira de conchas brancas.
– Muito interessante; de fato, muito interessante – disse Holmes, olhando a relíquia sinistra. – Alguma coisa mais?
Baynes, em silêncio, foi até a pia e levantou a vela. Os membros e o corpo de uma ave grande e branca, selvagemente despedaçada, ainda com as penas, ainda estava ali. Holmes apontou para as estacas na cabeça cortada.
– Um galo branco – disse ele. – Interessantíssimo!
– Na verdade, é um caso bem curioso.
Mas o inspetor Baynes tinha deixado seu trunfo mais sinistro para o final. Apanhou um balde com sangue que estava embaixo da pia. Depois pegou na mesa uma bandeja com pequenos pedaços de ossos carbonizados.
– Alguma coisa foi morta e queimada. Tiramos tudo isso da lareira. Um médico esteve aqui esta manhã. Diz que não são humanos.