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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Por enquanto sim – disse o inspetor, e Holmes assentiu.

– Então, talvez agora os senhores gostassem de ouvir o depoimento de algumas pessoas da casa. Podemos usar a sala de jantar, Ames. Por favor, você será o primeiro. Diga o que sabe.

O relato do mordomo foi simples e claro, e deu uma impressão de sinceridade. Ele fora contratado havia cinco anos, na primeira vez em que o sr. Douglas veio a Birlstone. Sabia que o sr. Douglas era rico e que fizera fortuna na América. Ele sempre fora um patrão amável e atencioso – não do tipo ao qual Ames estava acostumado, mas não se pode ter tudo. Ele jamais vira algum sinal de apreensão no sr. Douglas – ao contrário, ele era o mais destemido dos homens que conhecera. Ele havia

ordenado que a ponte levadiça fosse suspensa toda noite porque era um antigo costume da velha casa, e ele gostava de conservar os costumes antigos. O sr. Douglas raramente ia a Londres ou saía do vilarejo, mas no dia anterior ao crime estivera fazendo compras em Tunbridge Wells. Ele, Ames, havia observado certa inquietação e nervosismo por parte do sr. Douglas naquele dia, pois ele parecia impaciente e irritável, o que não era seu estado normal. Ele não havia ido se deitar naquela noite, mas estava na copa, que fica na parte de trás da casa, guardando as pratarias, quando ouviu o sino tocar de modo insistente. Não ouviu disparos, mas dificilmente ouviria, já que a copa e a cozinha ficam bem no final da casa, e havia muitas portas fechadas e um longo corredor antes de chegar lá. A governanta saíra do seu quarto devido ao toque insistente do sino. Eles foram até a frente da casa juntos. Quando chegaram ao pé da escada, viram a sra. Douglas descendo. Não, ela não estava correndo – não lhe pareceu que estivesse especialmente agitada. Quando ela chegou ao final da escada, o sr. Barker saiu correndo do escritório e pediu a ela que subisse novamente.

– Pelo amor de Deus, volte para o seu quarto! – ele gritou. – O coitado do Jack está morto. Não há nada a fazer. Pelo amor de Deus, suba!

Depois de ser convencida, a sra. Douglas subiu. Ela não gritou. Também não disse nada. A sra. Allen, a governanta, levou-a para cima e ficou com ela no quarto. Ames e o sr. Barker voltaram ao escritório, onde encontraram tudo exatamente como a polícia viu. A vela não estava acesa naquela hora, mas a lâmpada estava ligada. Olharam pela janela, mas a noite estava muito escura e não puderam ver nem ouvir nada. Correram então para o hall, onde Ames acionou o maquinismo que baixava a ponte. O sr. Barker então correu para chamar a polícia.

Esse, em linhas gerais, foi o depoimento do mordomo.

O relato da sra. Allen, a governanta, foi, de certo modo, uma confirmação do que dissera seu colega. O quarto da governanta ficava mais perto da frente da casa do que a copa onde Ames estava trabalhando. Ela estava se preparando para deitar quando o toque da campainha despertou sua atenção. Sua audição era um pouco deficiente. Talvez por isso não tivesse ouvido o disparo, mas, de qualquer modo, o escritório ficava um pouco distante. Ela ouviu um som que imaginou ser o de uma porta batendo. Isso foi bem antes – pelo menos meia hora antes de o sino tocar. Quando o sr. Ames correu para a parte da frente da casa, ela foi com ele. Viu o sr. Barker, muito pálido e agitado, saindo do escritório. Ele interceptou a sra. Douglas, que estava descendo a escada. Ele lhe pediu que subisse novamente e ela disse alguma coisa, mas que não conseguiu ouvir.

– Leve-a para cima. Fique com ela! – ele dissera à sra. Allen.

Ela então levou-a para o quarto e procurou tranqüilizá-la. A sra. Douglas estava muito agitada, tremendo todo o corpo, mas não tentou descer novamente. Ela apenas se sentou diante da lareira do quarto, vestida com o roupão, e afundou a cabeça nas mãos. A sra. Allen ficou com ela a maior parte da noite. Quanto aos outros criados, todos já tinham ido dormir e só foram acordados pouco antes de a polícia chegar. Eles estavam dormindo na outra extremidade da casa e com certeza não puderam ouvir nada.

Essa foi a governanta – que não acrescentou nada no interrogatório, a não ser lamentações e manifestações de surpresa.

O sr. Barker falou depois da sra. Allen como testemunha. Quanto às ocorrências da noite anterior, ele tinha muito pouco a acrescentar ao que já dissera à polícia. Pessoalmente, ele estava convencido de que o assassino fugira pela janela. A mancha de sangue era conclusiva, na sua opinião, quanto a isso. Além do mais, já que a ponte estava suspensa, não havia outro modo de fugir. Não sabia explicar o que acontecera ao assassino ou por que não levara a bicicleta, se é que realmente era dele. Com toda a certeza não poderia ter-se afogado no fosso, que em nenhum ponto tinha mais de 1 metro de profundidade.

Ele tinha uma teoria definitiva sobre o assassinato. Douglas era um homem reservado, e havia algumas passagens de sua vida sobre as quais ele nunca falara. Emigrara da Irlanda para a América quando era muito jovem. Conseguira subir na vida, e Barker o conheceu na Califórnia, onde os dois se tornaram sócios numa próspera mineração, num lugar chamado Benito Canyon. Eles se saíam muito bem, mas Douglas de repente vendeu tudo e partiu para a Inglaterra. Ele era viúvo nessa época. Barker, posteriormente, já com dinheiro, veio morar em Londres. Desse modo retomaram a amizade. Douglas dava-lhe a impressão de que havia algum perigo rondando sua cabeça e sempre pensava em sua súbita partida da Califórnia e no fato de ele ter uma casa num local tão tranqüilo da Inglaterra como algo relacionado com esse perigo. Pensava que alguma sociedade secreta, alguma organização implacável estava na pista de Douglas, e que não se deteria até matá-lo. Algumas observações do outro deram-lhe esta impressão, embora nunca lhe tivesse dito que sociedade era nem de que modo ele a provocara. Ele só podia supor que a inscrição no cartão tinha alguma relação com essa sociedade secreta.

– Quanto tempo o senhor ficou com Douglas na Califórnia? – perguntou o inspetor MacDonald.

– Cinco anos ao todo.

– O senhor disse que ele era solteiro?

– Viúvo.

– O senhor sabia de onde era a primeira esposa dele?

– Não. Lembro-me de ele ter dito que ela era de origem alemã e cheguei a ver o retrato dela. Era uma mulher muito bonita. Ela morreu de febre tifóide um ano antes de eu o conhecer.

– O senhor associa o passado dele a alguma região da América?

– Eu o ouvi falar de Chicago. Ele conhecia bem a cidade e havia trabalhado lá. Eu o ouvi falar das zonas de carvão e ferro. Ele viajou muito naquela época.

– Ele era político? Essa sociedade tem alguma coisa a ver com política?

– Não. Ele não ligava para política.

– O senhor tem algum motivo para pensar que essa sociedade seja ligada ao mundo do crime?

– Ao contrário. Nunca encontrei um homem mais correto em minha vida.

– Havia alguma coisa curiosa sobre a vida dele na Califórnia?

– Ele preferia trabalhar e ficar no nosso garimpo, lá no alto das montanhas. Jamais ia aos lugares em que os outros iam, se pudesse evitar. Foi por isso que pensei logo que alguém estava atrás dele. Depois, quando partiu tão repentinamente para a Europa, tive certeza de que era isso mesmo. Acredito que ele recebeu algum tipo de aviso. Uma semana depois que ele viajou apareceram alguns homens perguntando por ele.

– Que tipo de homens?

– Bem, eram do tipo fortão. Chegaram ao garimpo e queriam saber onde ele estava. Eu disse que tinha ido para a Europa e que eu não sabia onde encontrá-lo. Eles não estavam com boa intenção, quanto a isso não tive dúvida.

– Eles eram americanos? Da Califórnia?

– Bem, não conheço muito bem o pessoal da Califórnia. Eles eram americanos, sim. Mas não eram mineiros. Não sei o que eram e fiquei muito feliz quando os vi pelas costas.

– Isso foi há seis anos?

– Quase sete.

– E o senhor e ele ficaram juntos cinco anos na Califórnia, de modo que esse negócio foi há mais de dez anos?

– Exatamente.

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