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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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Ao chegar à Casa Senhorial, o sargento encontrou a ponte abaixada, as janelas abertas e toda a casa num estado de completa confusão e agitação. Os criados, pálidos, estavam todos juntos no hall e o assustado mordomo, com as mãos agitadas, aguardava na entrada. Somente Cecil Barker parecia manter o autocontrole e dominar suas emoções. Abrira a porta que ficava mais perto da entrada e fizera sinal para o sargento segui-lo. Nesse instante chegou o dr. Wood, o jovial e competente clínico geral do vilarejo. Os três homens entraram no local da tragédia ao mesmo tempo, enquanto o horrorizado mordomo os seguiu para fechar a porta e evitar que as criadas vissem a cena terrível.

O morto estava estendido de costas, com os membros esticados, no centro do escritório. Estava vestido apenas com um roupão rosado, que encobria suas roupas de dormir. Havia chinelos de feltro nos seus pés descalços. O médico ajoelhou-se ao lado dele e aproximou o abajur que estava sobre a mesa. Uma olhada na vítima foi o suficiente para mostrar ao doutor que sua presença era dispensável. O homem fora atingido violentamente. Ao lado do seu peito estava uma arma curiosa, uma espingarda com os canos serrados perto dos gatilhos. Estava claro que ela fora disparada de perto, e que ele recebera o tiro no rosto, reduzindo a cabeça quase a pó. Os gatilhos tinham sido amarrados, de modo que o disparo simultâneo fosse mais destruidor.

O policial estava nervoso e preocupado com a tremenda responsabilidade que caíra sobre ele de repente.

– Não vamos tocar em nada até meus superiores chegarem – ele disse com a voz abafada, olhando aterrorizado para aquela cabeça mutilada.

– Não se tocou em nada até agora – disse Cecil Barker. – Eu me responsabilizo por isso. Os senhores encontraram tudo exatamente como estava.

– Quando aconteceu? – O sargento apanhara seu caderno de anotações.

– Logo depois das 23:30h. Eu ia começar a me trocar, ainda estava sentado no quarto, junto à lareira, quando ouvi o estampido. Não foi muito alto; parecia ter sido abafado. Eu corri logo. Acho que cheguei aqui em menos de trinta segundos.

– A porta estava aberta?

– Sim, estava aberta. O coitado do Douglas estava estirado, assim como os senhores vêem agora. A vela que ele trouxera para o escritório estava sobre a mesa. Eu acendi as luzes pouco depois.

– O senhor não viu ninguém?

– Não. Ouvi a sra. Douglas descendo a escada atrás de mim, e corri para evitar que ela se deparasse com esse espetáculo chocante. A sra. Allen, a governanta, chegou e levou-a dali. Ames já tinha chegado também e voltamos ao escritório.

– Mas tenho certeza de ter ouvido que a ponte ficava suspensa a noite toda.

– Sim, estava levantada até que eu a descesse.

– Então como um assassino poderia ter fugido? É impossível. O sr. Douglas deve ter se matado.

– Essa foi a nossa primeira idéia. Mas veja bem. – Barker abriu a cortina e mostrou que a grande janela, em forma de diamante, estava totalmente aberta. – E veja isso. – Ele levantou o abajur e mostrou uma marca de sangue que parecia a pegada de alguém sobre o parapeito de madeira. Alguém pisou aqui na hora da fuga.

– O senhor quer dizer que alguém conseguiu atravessar o fosso?

– Exatamente.

– Então, se o senhor chegou ao quarto em menos de meio minuto depois do crime, essa pessoa ainda devia estar na água nessa hora.

– Não duvido disso. Por Deus, como eu gostaria de ter chegado até a janela. Mas a cortina estava fechada, como podem ver, de modo que não me passou pela cabeça. Então ouvi os passos da sra. Douglas, e não podia deixá-la entrar no quarto. Seria muito penoso para ela.

– Horrível mesmo! – disse o médico, olhando a cabeça espatifada e as terríveis marcas em volta. – Nunca vi nada assim desde aquele acidente ferroviário de Birlstone.

– Mas escute – observou o sargento, que com seu jeito lento e rude ainda estava com a mente voltada para a janela aberta. – Está bem que o senhor diga que um homem fugiu atravessando o fosso, mas o que eu pergunto é: como ele conseguiu entrar na casa se a ponte estava suspensa?

– Ah, esse é o problema – disse Barker.

– A que horas ela foi levantada?

– Por volta das seis da tarde – disse Ames, o mordomo.

– Eu tinha informações – disse o sargento – de que ela era suspensa ao pôr-do-sol. Isso quer dizer por volta de 16:30h, e não às seis, nessa época do ano.

– O sr. Douglas teve visitas para o chá – disse Ames. – Só pude suspendê-la depois que todos foram embora. Então, eu mesmo a levantei.

– Então temos o seguinte – disse o sargento. – Se entrou alguém estranho, se é que entrou, deve ter passado pela ponte antes das 18 horas e se escondido, até que o sr. Douglas viesse para o quarto, depois das 23 horas.

– Exatamente. Todas as noites o sr. Douglas percorria tudo aí por fora antes de entrar para ver se as luzes estavam apagadas. Então ele entrou aqui. O homem estava esperando por ele e o atingiu. Depois fugiu pela janela, deixando a arma. É assim que eu vejo a coisa; nada vai se encaixar melhor.

O sargento apanhou um cartão que estava no chão, ao lado do morto. As iniciais V. V. e embaixo o número 341 estavam rabiscados a tinta.

– O que é isto? – ele perguntou.

Barker olhou com curiosidade.

– Não o tinha visto ainda – disse ele. – O assassino deve tê-lo deixado aí.

– V.V. 341. Isso não me diz nada.

O sargento ficou virando o cartão entre seus dedos compridos.

– O que é V.V.? Talvez as iniciais de alguém. O que o senhor encontrou aí, dr. Wood?

Era um martelo grande que estava sobre o tapete em frente à lareira. Um martelo bem grande e bem-acabado. Cecil Barker apontou para uma caixa de metal que estava sobre o consolo da lareira.

– O sr. Douglas estava mudando os quadros de lugar ontem – disse ele. – Eu mesmo o vi sobre aquela cadeira colocando o quadro na parede. Isso explica a presença do martelo.

– É melhor colocarmos o martelo novamente sobre o tapete onde o encontramos – disse o sargento, coçando a cabeça com uma expressão intrigada. – Vamos precisar das melhores cabeças da polícia para desvendar tudo. Vamos precisar da ajuda de Londres. – Ele levantou o abajur e caminhou lentamente pelo quarto. – Ei! – ele gritou com a voz excitada, puxando as cortinas para um dos lados. – A que horas essas cortinas foram puxadas?

– Quando as lâmpadas foram acesas – disse o mordomo. – Devia passar um pouco das quatro horas.

– Alguém esteve escondido aqui, tenho certeza. – Ele aproximou o abajur e as marcas de sapatos enlameados ficaram visíveis no canto da parede. – Estou achando que isso confirma a sua teoria, sr. Barker. Parece que o homem entrou na casa depois das quatro horas, quando as cortinas já estavam puxadas; e antes das seis, quando a ponte foi suspensa. Ele entrou nesse cômodo porque foi o primeiro que encontrou. Não havia outro lugar em que pudesse se esconder, de modo que se enfiou atrás das cortinas. Tudo agora parece claro. É provável que sua idéia principal fosse assaltar a casa, mas o sr. Douglas apareceu, e então ele o matou e fugiu.

– É assim que vejo a coisa – disse Barker. – Mas não estamos perdendo minutos preciosos? Não podemos começar a vasculhar o país antes que o sujeito desapareça?

O sargento ficou pensativo por um momento.

– Não há trem antes das seis da manhã, de modo que ele não pode fugir de trem. Se for pela estrada a pé, com as pernas molhadas, com toda certeza alguém vai estranhar. De qualquer modo, não posso sair daqui até que seja dispensado. E acho que nenhum dos senhores deve sair antes que examinemos mais atentamente tudo isso.

O médico pegou o abajur e estava examinando o corpo mais detidamente.

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