Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
- Автор: Конан Дойл Артур
- Серия: Aventura #14
- Год: 2000
- Язык: португальский
- Жанр: Классические детективы
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– A senhora alguma vez o ouviu falar sobre alguma coisa que tivesse acontecido com ele na América e que pudesse representar algum perigo para ele?
A sra. Douglas ficou pensativa antes de responder.
– Sim – ela disse, finalmente. – Sempre senti que havia algum perigo a rondá-lo. Ele se recusava a falar sobre isso comigo. Não era por falta de confiança – havia o mais completo amor e confiança entre nós –, mas por seu desejo de me manter afastada de qualquer coisa que pudesse me assustar. Ele achava que isso poderia me preocupar, se eu ficasse sabendo de tudo, e então permanecia calado.
– Como a senhora ficou sabendo, então?
O rosto da sra. Douglas iluminou-se com um súbito sorriso.
– É possível um homem manter um segredo por toda a vida e a esposa que o ama nunca suspeitar? Eu soube disso de várias maneiras. Soube pelo modo como se recusava a conversar sobre alguns episódios da época em que morou na América. Soube por causa de certas precauções que ele tomava. Soube pelo modo como ele observava certas pessoas estranhas. Eu estava convencida de que ele tinha alguns inimigos perigosos, que acreditava estarem em sua pista e contra os quais estava sempre prevenido. Eu tinha tanta certeza disso que durante anos ficava aterrorizada quando ele demorava a chegar a casa.
– Posso saber – perguntou Holmes – quais foram as palavras que chamaram a sua atenção?
– “O Vale do Medo” – a senhora respondeu. – Foi essa a expressão que ele usou quando eu lhe perguntei sobre isso. “Estive no Vale do Medo. Ainda não saí de lá.” “Será que não se consegue sair nunca do Vale do Medo?”, eu perguntei isso quando o vi mais sério do que o normal. “Às vezes eu acho que nunca mais sairemos”, ele me respondeu, então.
– Certamente a senhora lhe perguntou o que ele queria dizer com Vale do Medo.
– Perguntei. Mas seu rosto ficou muito sombrio e ele abanou a cabeça. “Já é muito ruim que um de nós tenha estado em suas trevas”, ele disse. “Queira Deus que isso nunca aconteça com você.” Era algum vale que realmente existe e no qual ele vivera, e onde algo de terrível lhe acontecera, quanto a isso tenho certeza, mas não posso lhes dizer mais nada.
– Ele nunca mencionou nomes?
– Sim. Ele estava delirando de febre uma vez, quando sofreu um acidente durante uma caçada. Lembro-me bem que havia um nome que surgia constantemente em sua boca. Ele o pronunciava com raiva e uma espécie de horror. McGinty era o nome: chefe McGinty. Eu lhe perguntei, quando ficou bom, quem era esse chefe McGinty e de que ele era chefe. “Não é meu chefe, graças a Deus!”, respondeu. Mas há uma ligação entre o chefe McGinty e o Vale do Medo.
– Há um outro ponto também – disse o inspetor MacDonald. – A senhora conheceu o sr. Douglas numa pensão de Londres, não foi? E ficaram noivos lá. Havia alguma coisa secreta ou misteriosa sobre o casamento?
– Só havia o amor. Sempre o amor. Nada de mistério.
– Ele não tinha nenhum rival?
– Não. Eu era livre...
– A senhora certamente ficou sabendo que a aliança dele sumiu. Isso sugere alguma coisa? Supondo que algum inimigo do passado o tenha seguido e cometido o crime, que motivo ele poderia ter para levar sua aliança?
Por um instante eu juraria que a sombra de um sorriso passou pelos lábios dela.
– Realmente não sei dizer – ela respondeu. – Com certeza é uma coisa extraordinária.
– Bem, não vamos retê-la por mais tempo e sentimos muito ter-lhe causado este incômodo agora – disse o inspetor. – Há outros detalhes, naturalmente, mas falaremos com a senhora à medida que for necessário.
Ela se levantou e novamente percebi aquele olhar rápido, inquisidor, com o qual ela nos sondava: “Que impressão meu depoimento causou em vocês?” era uma pergunta que certamente passara por sua cabeça. Depois, com um ligeiro aceno de cabeça, ela saiu da sala.
– Ela é uma mulher bonita, muito bonita – disse MacDonald, pensativo, depois que a porta se fechou atrás dela. – Esse Barker com certeza vinha aqui muitas vezes. É do tipo que deve ser atraente para as mulheres. Ele admitiu que o morto era ciumento, e talvez soubesse que motivos tinha para ser ciumento. E há também a questão da aliança. Não se pode passar por cima disso. O homem que tira
a aliança de um morto... O que o senhor acha disso, sr. Holmes?
Meu amigo estava sentado com a cabeça apoiada nas mãos, mergulhado em reflexões. Ele então se levantou e tocou a campainha.
– Ames – ele disse, quando o mordomo entrou –, onde está o sr. Cecil agora?
– Vou ver, senhor.
Voltou pouco depois para dizer que o sr. Barker estava no jardim.
– Você se lembra, Ames, o que o sr. Barker estava calçando quando você se encontrou com ele ontem à noite no escritório?
– Sim, sr. Holmes. Estava usando chinelos de feltro. Eu lhe trouxe as botas quando ele ia sair para ir à polícia.
– Onde estão os chinelos agora?
– Ainda estão embaixo da cadeira, no hall.
– Ótimo, Ames. Realmente é importante saber quais são as pegadas do sr. Barker e as pegadas de pessoas que vieram de fora.
– Sim, senhor. Posso dizer que percebi que os chinelos estavam manchados de sangue. E os meus também estavam.
– Isso é muito natural, considerando-se as condições do escritório. Ótimo, Ames. Chamaremos outra vez se precisarmos de você.
Pouco depois estávamos no escritório. Holmes trouxera os chinelos que estavam no hall. Como observara Ames, as solas dos dois pés estavam escuras de sangue.
– Estranho! – Holmes murmurou ao chegar à janela e examinar os chinelos minuciosamente. – Muito estranho mesmo!
Com uma de suas pinças ele colocou o chinelo sobre a mancha de sangue que havia no peitoril. As duas correspondiam perfeitamente. Ele sorriu em silêncio para seus colegas.
O inspetor ficou transfigurado de excitação. Seu sotaque parecia ter ficado mais acentuado ainda.
– Puxa! – ele exclamou – não há a menor dúvida! Barker fez essa marca aí na janela. É muito maior do que a marca de qualquer bota. Lembro-me de que o senhor disse que era um pé chato, e aqui está a explicação. Mas o que houve afinal, sr. Holmes? O que houve?
– Bem, o que houve? – meu amigo repetiu, pensativo.
White Mason ria e esfregava as mãos gordas com uma satisfação profissional.
– Eu disse que era um caso dos grandes! – ele exclamou. – E é mesmo dos grandes!
A primeira luz
Os três detetives tinham muitos detalhes para investigar, de modo que voltei sozinho para nossas modestas acomodações na hospedaria do vilarejo. Mas antes de ir para lá dei uma volta pelo curioso jardim de outros tempos que cercava a casa. Filas de teixos muito antigos, cortados em desenhos estranhos, a rodeavam. Na parte interna havia um bonito gramado com um antigo relógio de sol no centro. Esse cenário tinha um efeito repousante que fazia muito bem aos meus nervos um tanto perturbados. Naquela atmosfera absolutamente tranqüila pode-se esquecer de tudo ou lembrar-se apenas com um fantástico pesadelo daquele escritório sinistro com aquele homem cheio de sangue estendido no chão. Mesmo assim, enquanto eu caminhava pelo jardim e tentava mergulhar a alma nessa calma, ocorreu um estranho incidente que me levou de volta à tragédia e deixou uma impressão sinistra em minha mente.
Eu disse que uma seqüência de teixos orlava o jardim. Na parte que ficava mais distante da casa eles eram menos espaçados e formavam uma cerca viva densa. Do outro lado dessa cerca viva, oculto da visão de quem viesse do lado da casa, havia um banco de pedra. Ao me aproximar do local, ouvi vozes, distinguindo depois a voz grave de um homem e o riso de uma mulher. Pouco depois cheguei ao final da cerca de teixos e meus olhos bateram na sra. Douglas e em Barker antes que eles percebessem a minha presença. A aparência dela chocou-me. Na sala de jantar ela estava séria e discreta. Agora toda a simulação de tristeza desaparecera. Seus olhos brilhavam com a alegria de viver, e o rosto ainda balançava, divertido, por causa de alguma observação engraçada de seu companheiro. Ele estava inclinado para a frente, com as mãos apertadas e os antebraços apoiados nos joelhos, com um sorriso no rosto atrevido e belo. Num instante – mas já tarde demais – eles recolocaram suas máscaras sérias quando me viram. Eles trocaram uma ou duas palavras apressadas e então Barker levantou-se e veio na minha direção.