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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– Deve ter sido algo muito grave para esperar esses anos todos. Não deve ter sido uma coisa pequena.

– Acho que isso o acompanhou a vida inteira. Não deve ter saído nunca da cabeça dele.

– Mas se um homem tinha um perigo rondando, e sabia do que se tratava, o senhor não acha que ele deveria pedir proteção à polícia?

– Talvez fosse um tipo de perigo contra o qual não pudesse ser protegido. Há uma coisa que o senhor precisa saber. Ele sempre andava armado. Seu revólver estava sempre no bolso. Mas, por falta de sorte, ele estava de roupão e deixara a arma no quarto, ontem à noite. Com a ponte erguida, ele deve ter achado que estava seguro.

– Eu gostaria de ter essas datas mais precisas – disse MacDonald. – Faz seis anos que Douglas saiu da Califórnia. O senhor viajou no ano seguinte, não foi?

– Exatamente.

– Ele estava casado havia cinco anos. O senhor deve ter chegado na época do casamento?

– Um mês antes. Eu era seu melhor amigo.

– O senhor conhecia a sra. Douglas antes do casamento?

– Não, não conhecia. Fiquei fora da Inglaterra durante dez anos.

– Mas esteve com ela muitas vezes depois.

Barker olhou de modo severo para o detetive.

– O vi muitas vezes depois – respondeu ele. – Se eu a vi foi porque não se pode visitar um homem sem deixar de conhecer sua esposa. Se o senhor acha que existe alguma ligação...

– Eu não acho nada, sr. Barker. Estou fazendo todas as perguntas que possam ajudar no caso. Mas não quero ofender ninguém.

– Algumas perguntas são ofensivas – Barker respondeu, irritado.

– Só queremos os fatos. É no seu interesse, e no interesse de todos, que eles devem ser esclarecidos. O sr. Douglas aprovava inteiramente sua amizade com a esposa dele?

Barker ficou mais pálido, e suas mãos grandes e musculosas estavam contraídas.

– O senhor não tem o direito de fazer uma pergunta dessas! – ele gritou. – O que isso tem a ver com o caso que o senhor está investigando?

– Vou repetir a pergunta.

– Recuso-me a responder.

– O senhor pode se recusar a responder, mas deve saber que sua recusa já é uma resposta, pois o senhor não se recusaria a responder se não tivesse nada a esconder.

Barker ficou imóvel por um momento, com o rosto contraído, perdido em reflexões. Depois ergueu os olhos, sorrindo.

– Bem, acho que os senhores estão fazendo apenas seu serviço, afinal de contas, e não tenho o direito de dificultar as coisas. Só pediria que os senhores não preocupassem a sra. Douglas com esse assunto, pois tudo o que houve já é demais. Posso dizer-lhes que o pobre do Jack só tinha um defeito na vida, e esse defeito era o ciúme. Ele gostava muito de mim – ninguém poderia gostar mais de um amigo. E era dedicado à sua esposa. Ele gostava que eu viesse aqui e estava sempre mandando me chamar. Mesmo assim, se a esposa dele e eu conversássemos ou se ele notasse alguma simpatia entre nós, era dominado por uma onda de ciúme e perdia a cabeça, dizendo as piores coisas do mundo. Mais de uma vez eu jurei nunca mais vir aqui por este motivo, mas então ele me enviava cartas arrependidas, suplicantes, dizendo que eu precisava vir. Mas podem acreditar em mim, senhores, que nenhum homem jamais teve uma esposa mais adorável e fiel. E lhes digo também: nenhum amigo jamais foi mais leal do que eu.

Isso foi dito de modo veemente e emocionado, mas mesmo assim o inspetor MacDonald não pôde encerrar o assunto.

– O senhor sabe – ele disse – que a aliança do morto foi tirada de seu dedo?

– É o que parece – disse Barker.

– O que o senhor quer dizer com “parece”? O senhor sabe que isso é um fato.

O homem pareceu confuso e hesitante.

– Quando eu disse “parece”, quis dizer que era possível que ele mesmo tivesse tirado a aliança.

– O simples fato de a aliança ter sumido, independentemente de quem a tirou do dedo, pode sugerir a qualquer um que o casamento e a tragédia têm ligação. Ou será que não?

Barker sacudiu seus ombros largos.

– Não posso afirmar o que isso sugere – ele respondeu. – Mas se o senhor quer dar a entender que isso poderia se refletir de algum modo no comportamento desta senhora – seus olhos chamejaram por um instante e depois, com um esforço evidente, ele controlou suas emoções – bem, o senhor está no caminho errado, é o que penso.

– Acho que não tenho mais nada para lhe perguntar, por enquanto – disse MacDonald em tom seco.

– Há um pequeno detalhe – disse Sherlock Holmes. – Quando o senhor entrou no escritório havia apenas uma vela acesa na mesa, não é?

– Sim, é isso mesmo.

– Apenas com a luz dessa vela o senhor viu que algo de terrível havia acontecido?

– Exatamente.

– O senhor imediatamente tocou a campainha para pedir ajuda?

– Sim.

– E essa ajuda chegou logo?

– Em cerca de um minuto.

– No entanto, quando os outros chegaram, a vela já estava apagada e a lâmpada acesa. Isso parece notável.

Novamente Barker mostrou sinais de indecisão.

– Não vejo o que isso tem de notável, sr. Holmes – ele respondeu depois de uma pausa. – A vela tem uma luz muito fraca. Minha primeira idéia foi ter uma iluminação melhor. O abajur estava na mesa, e então eu o acendi.

Holmes não perguntou mais nada e Barker, olhando alternadamente para cada um de nós, com um jeito que me pareceu desafiador, virou-se e saiu da sala.

O inspetor MacDonald enviara um recado à sra. Douglas dizendo que aguardaria por ela em seu quarto, mas ela respondeu que nos encontraria na sala de jantar. Ela entrou na sala finalmente, uma mulher alta e bonita com cerca de 30 anos, reservada e controlada, muito diferente da figura trágica e confusa que eu imaginara. É bem verdade que seu rosto estava pálido e com um ar cansado, demonstrando ter sofrido um grande choque, mas seus modos eram tranqüilos e suas mãos bem desenhadas, que ela pôs sobre a mesa, estavam tão firmes quanto as minhas. Seus olhos tristes e atraentes olhavam para cada um de nós de um jeito curiosamente inquisitivo. Aquela expressão interrogativa transformou-se repentinamente em palavras.

– Os senhores descobriram alguma coisa? – ela perguntou.

Seria apenas fruto da minha imaginação achar que havia um indício de medo, em vez de esperança, naquela pergunta?

– Tomamos todas as providências possíveis, sra. Douglas – disse o inspetor. – A senhora pode ter certeza de que nada será negligenciado.

– Não economize dinheiro – ela disse num tom de voz desanimado, monocórdio. – Meu desejo é que sejam feitos todos os esforços.

– Talvez a senhora possa nos dizer algo que esclareça o problema.

– Não se preocupe, tudo que eu sei contarei aos senhores.

– Soubemos pelo sr. Cecil Barker que a senhora na verdade não viu... Que a senhora não entrou no cômodo onde ocorreu a tragédia.

– É verdade. Ele fez com que eu voltasse lá para cima. Pediu que eu voltasse para o meu quarto.

– Exatamente. A senhora tinha ouvido o tiro e desceu imediatamente.

– Vesti meu roupão e desci.

– Quando o sr. Barker interceptou a senhora na escada, já havia passado quanto tempo desde a hora do tiro?

– Alguns minutos. É difícil calcular o tempo numa hora dessas. Ele implorou que eu não entrasse no escritório. E garantiu que eu não poderia fazer nada. Então a sra. Allen, a governanta, levou-me lá para cima. Tudo parecia um pesadelo.

– A senhora pode nos dar alguma idéia de quanto tempo seu marido ficou aqui embaixo antes que a senhora escutasse o tiro?

– Não, não sei dizer. Antes de descer ele estava no seu quarto de vestir e por isso não ouvi quando desceu. Toda noite ele percorria a casa inteira, pois tinha medo de incêndio. Era a única coisa, que eu saiba, de que ele tinha medo.

– É aí que eu quero chegar, sra. Douglas. A senhora só conheceu seu marido na Inglaterra, não é?

– Sim. Estávamos casados há cinco anos.

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