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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– O senhor já leu a respeito de Jonathan Wild?

– Bem, o nome me parece familiar. Personagem de um romance, não é? Eu não ligo muito para os detetives de romances. São uns sujeitos que fazem as coisas e não deixam a gente ver como eles fazem. Eles fazem tudo por intuição e não com técnica.

– Jonathan Wild não era detetive, nem personagem de romance. Ele foi um mestre do crime. Viveu no século passado, em 1750 ou coisa assim.

– Então não me serve. Sou um homem prático.

– Sr. Mac, a coisa mais prática que o senhor faria na vida seria ficar calado por três meses e ler a historiografia do crime. Tudo acontece em ciclos, até o professor Moriarty. Jonathan Wild era a força oculta dos criminosos de Londres, aos quais vendia suas idéias e sua organização por uma comissão de 15%. A velha roda continua a girar e tudo que desce torna a subir. Já aconteceu tudo isso antes e acontecerá novamente. Vou contar-lhe uma ou duas coisas sobre Moriarty que lhe interessarão.

– É tudo muito interessante.

– Acontece que eu conheço o primeiro elo da cadeia. Uma cadeia com esse Napoleão fracassado numa das pontas e centenas de bandidos, batedores de carteira, chantagistas e trapaceiros na outra ponta, com todo tipo de crime entre as duas. O comandante-em-chefe é o coronel Sebastian Moran, tão distante, protegido e inacessível à justiça quanto ele mesmo. Quanto o senhor acha que ele lhe paga?

– Gostaria de saber.

– Seis mil libras por ano. É o salário pago pelo seu cérebro, dentro do espírito americano de negócios. Eu soube desse detalhe por acaso. É mais do que os vencimentos do primeiro-ministro. Isso lhe dá uma idéia dos rendimentos de Moriarty e da escala em que ele opera. Um outro ponto. Eu me dei ao trabalho de investigar alguns dos últimos cheques emitidos por Moriarty. Apenas cheques corriqueiros com os quais ele paga as contas de casa. Eram de seis bancos diferentes. Isso lhe diz alguma coisa?

– Na verdade é muito estranho. Mas o que o senhor deduz disso?

– Que ele não queria comentários sobre sua fortuna. Ninguém ficaria sabendo, desse modo, quanto ele possui. Não tenho dúvida alguma de que ele possui vinte contas bancárias. O grosso da sua fortuna está no exterior, muito provavelmente no Deutsche Bank ou no Crédit Lyonnais. Quando tiver tempo, eu lhe recomendo uma investigação sobre o professor Moriarty.

O inspetor MacDonald ficava mais impressionado com o assunto à medida que a conversa prosseguia. Ele havia se deixado desviar do assunto que o levara até lá. Agora sua inteligência escocesa prática levou-o de volta ao assunto que tinha a tratar.

– Mas ele pode se esquivar – disse o inspetor. – O senhor nos desviou do assunto com suas histórias interessantes, sr. Holmes. O que realmente interessa é sua observação de que existe alguma ligação entre o professor e o crime. Isso o senhor ficou sabendo pela mensagem que recebeu de Porlock. Será que, para nosso interesse prático imediato, poderemos conseguir mais do que isso?

– Podemos alinhavar algumas idéias quanto ao motivo do crime. É, segundo pude deduzir de suas observações iniciais, um crime inexplicável, ou pelo menos inexplicado. Agora, supondo que a origem do crime seja a que suspeitamos, pode haver dois motivos diferentes. Em primeiro lugar, posso dizer-lhe que Moriarty controla seu pessoal com mão de ferro. A disciplina dele é tremenda. Só há uma punição em seu código. A morte. Agora, podemos supor que este homem que foi assassinado (esse Douglas, cuja morte iminente já era do conhecimento de um dos subordinados do chefão do crime) de algum modo traiu o chefe. Sua punição seria uma conseqüência natural, e do conhecimento de todos – mesmo que fosse apenas para incutir-lhes o medo da morte.

– Bem, essa é uma sugestão, sr. Holmes.

– A outra é que o assassinato tenha sido engendrado por Moriarty no curso normal dos negócios. Houve algum roubo?

– Não soube de nada a esse respeito.

– Se houve roubo, isso iria contrariar a primeira hipótese e reforçaria a segunda. Moriarty pode ter planejado tudo com a promessa de receber parte do lucro, ou então foi muito bem pago para executá-lo. As duas são possíveis. Mas, qualquer que tenha sido, ou se foi uma terceira combinação, é lá em Birlstone que devemos investigar. Conheço muito bem nosso homem para supor que tenha deixado alguma coisa aqui que pudesse nos levar até ele.

– Então, vamos a Birlstone! – exclamou MacDonald, saltando da cadeira. – Puxa! É mais tarde do que eu pensava. Senhores, dou-lhes cinco minutos para se arrumarem, e nada mais.

– É muito para nós dois – disse Holmes ao se levantar da cadeira para ir tirar o roupão e vestir o casaco. – Quando estivermos a caminho, sr. MacDonald, vou pedir-lhe que tenha a bondade de me contar tudo sobre o caso.

 “Tudo sobre o caso” na verdade era muito pouco, embora houvesse evidências de que o caso que tínhamos em mãos merecia uma grande atenção dos especialistas. Ele se mostrou animado e esfregou as mãos magras enquanto ouvia os detalhes, poucos mas valiosos. Até aquele dia, tínhamos passado uma série de semanas sem movimento algum e agora, finalmente, surgia algo interessante para aquele extraordinário talento que, como todos os dons especiais, torna-se desinteressante se não estiver em uso. A lâmina do cérebro fica cega e enferruja se não for usada. Os olhos de Sherlock Holmes reluziram, seu rosto pálido adquiriu uma leve cor e todo o seu rosto inquieto brilhou quando recebeu o chamado para o serviço. No cabriolé, inclinado para a frente, ouvia atentamente a curta narrativa sobre o problema que nos esperava em Sussex. O inspetor baseava-se, segundo nos explicou, numa mensagem que lhe foi enviada pelo trem da manhã. White Mason, o oficial local, era seu amigo, e por isso MacDonald fora avisado mais rapidamente do que era normal na Scotland Yard quando alguém do interior necessitava de sua ajuda. Quando um agente da capital é chamado para o caso, geralmente as pistas já foram desfeitas.

“Prezado Inspetor MacDonald”, dizia a carta que ele leu para nós. “Segue num envelope anexo uma requisição oficial pedindo seus serviços. Esta é uma carta pessoal. Telegrafe avisando em que trem poderá vir para Birlstone e eu irei esperá-lo. Ou mandarei alguém se estiver muito ocupado. Este caso é dos grandes. Não perca tempo. Se conseguir trazer o sr. Holmes, será ótimo, pois ele pode descobrir alguma coisa. Tudo daria a impressão de uma cena de teatro se não houvesse aquele homem morto. Puxa, esse é dos grandes!”

– Seu amigo não é tolo – observou Holmes.

– Não é mesmo. White Mason é um homem muito esperto, se é que posso julgar alguém.

– Bem, o senhor sabe de mais alguma coisa?

– Só que ele nos dará todos os detalhes quando chegarmos lá.

– Como o senhor ficou sabendo do sr. Douglas e que ele havia sido horrivelmente assassinado?

– Estava no relatório oficial anexo. Lá não diz “horrível”. Esse não é um termo usado oficialmente. Dava o nome de John Douglas. Mencionava que os ferimentos eram na cabeça, causados pelo disparo de uma espingarda. Mencionava também a hora do alarme, que foi por volta da meia-noite de ontem. Acrescentava que o caso, sem sombra de dúvida, era assassinato, mas que ninguém fora detido, e que apresentava características intrigantes e fora do comum. Isso é tudo o que temos até agora, sr. Holmes.

– Então, com sua permissão, vamos deixar assim, sr. Mac. A tentação de elaborar teorias prematuras com base em dados insuficientes é o mal de nossa profissão. Só vejo duas coisas concretas no momento: um grande cérebro em Londres e um homem morto em Sussex. A ligação que existe entre essas duas coisas é o que vamos investigar.

A Tragédia de Birlstone

E agora, por um momento, vou pedir licença para retirar minha insignificante pessoa e narrar os fatos que ocorreram antes de chegarmos ao local, e segundo informações que obtivemos depois. Só desse modo posso fazer com que o leitor avalie as pessoas envolvidas e o estranho ambiente em que seu destino as lançou.

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