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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]

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Sherlock Holmes - Edicao completa [calibre 0.9.23]
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– É bem provável. A que distância você acha que está?

– Longe, junto à Rocha da Fenda, eu acho.

– Entre 1,5 a 3 quilômetros de distância.

– Mal chega a tanto.

– Bem, não pode ser longe, se Barrymore tinha de levar a comida até lá. E ele está esperando, esse vilão, ao lado daquela vela. Com os diabos, Watson, eu vou sair para pegar esse homem!

A mesma idéia havia me ocorrido. Não era como se os Barrymores nos tivessem feito uma confidência. O segredo deles fora confessado à força. O homem era um perigo para a comunidade, um patife consumado para quem não havia piedade nem desculpa. Estaríamos apenas cumprindo o nosso dever se aproveitássemos essa oportunidade de pô-lo de volta no lugar onde não pudesse fazer nenhum mal. Com a sua natureza brutal e violenta, outras pessoas teriam de pagar o preço se lavássemos nossas mãos. Qualquer noite, por exemplo, nossos vizinhos, os Stapletons, poderiam ser atacados por ele, e deve ter sido este pensamento que deixou sir Henry tão entusiasmado pela aventura.

– Também vou – eu disse.

– Então pegue o seu revólver e calce suas botas. Quanto mais cedo partirmos, melhor, já que o sujeito pode apagar sua luz e ir embora.

Em cinco minutos estávamos do lado de fora da casa, começando a nossa expedição. Corremos por entre os arbustos escuros, cercados pelo gemido monótono do vento do outono e o farfalhar das folhas que caíam. O ar da noite estava pesado com o cheiro de umidade e podridão. De vez em quando a lua aparecia entre as nuvens por um instante, mas elas estavam se movendo pelo céu, e exatamente quando saímos no pântano, uma chuva fina começou a cair. A luz ainda brilhava firmemente adiante.

– Você está armado? – perguntei.

– Tenho um chicote de caça.

– Precisamos nos aproximar dele rapidamente, porque dizem que é um sujeito desesperado. Devemos pegá-lo de surpresa e dominá-lo antes que ele possa resistir.

– Eu pergunto, Watson – disse o baronete –, o que Holmes diria a respeito disto? E quanto à hora da escuridão em que a força do mal está exaltada?

Como se fosse uma resposta às suas palavras, ergueu-se de repente da vasta sombra do pântano aquele estranho grito que eu já ouvira nas margens do grande charco de Grimpen. Ele veio com o vento através do silêncio da noite, um murmúrio longo e profundo, depois um uivo crescente, e em seguida o gemido triste que desapareceu aos poucos. Ele repetiu-se várias vezes, com todo o ar pulsando com ele, estridente, selvagem e ameaçador. O baronete agarrou minha manga e seu rosto surgia branco na escuridão.

– Meu Deus, o que é isso, Watson?

– Não sei. É um som que eles têm no pântano. Eu o ouvi uma vez antes.

Ele desapareceu, e um silêncio absoluto nos envolveu. Ficamos parados, prestando atenção, mas não ouvimos mais nada.

– Watson – disse o baronete –, foi o grito de um cão.

Meu sangue gelou nas veias, porque houve uma pausa em sua voz que revelou o horror súbito que havia se apoderado dele.

– Como eles chamam este som? – perguntou ele.

– Quem?

– Os moradores da região?

– Oh, eles são pessoas ignorantes. Por que você deveria se importar com o modo como eles o chamam?

– Diga-me, Watson. O que dizem dele?

Eu hesitei mas não pude fugir à pergunta.

– Eles dizem que é o grito do Cão dos Baskervilles.

Ele gemeu e ficou em silêncio por alguns instantes.

– Era um cão – ele disse por fim –, mas parecia vir de quilômetros de distância, lá de longe, eu acho.

– Era difícil dizer de onde vinha.

– Ele aumentava e diminuía com o vento. Não é essa a direção do grande charco de Grimpen?

– Sim, é.

– Bem, foi lá. Diga, Watson, você não acha que era o grito de um cão? Não sou criança. Você não precisa ter medo de dizer a verdade.

– Stapleton estava comigo quando o ouvi da última vez. Ele disse que podia ser o chamado de uma ave estranha.

– Não, não, era um cão. Meu Deus, será que há alguma verdade em todas estas histórias? Será possível que eu esteja realmente em perigo por um motivo tão misterioso? Você não acredita nisso, acredita, Watson?

– Não, não.

– Mas uma coisa é rir disso em Londres, e outra é ficar parado aqui fora na escuridão do pântano e ouvir um grito desses. E meu tio! Havia a pegada do cão ao seu lado no lugar onde ele estava caído. Tudo se encaixa. Não acho que eu seja um covarde, Watson, mas esse som pareceu congelar meu próprio sangue. Sinta a minha mão!

Estava fria como um bloco de mármore.

– Você estará bem amanhã.

– Acho que não vou conseguir tirar esse grito da minha cabeça. O que você acha que devemos fazer agora?

– Vamos voltar?

– Não, com os diabos; saímos para pegar o nosso homem e faremos isso. Nós atrás do condenado, e um cão do inferno, muito provavelmente, atrás de nós. Venha! Levaremos isso até o fim mesmo que todos os demônios do inferno estejam soltos no pântano.

Fomos caminhando, aos tropeções, lentamente pela escuridão, com o vulto negro das colinas escarpadas à nossa volta e o pontinho amarelo de luz aceso firmemente adiante. Não há nada tão ilusório quanto a distância de uma luz numa noite escura como breu, e às vezes o brilho parecia estar longe no horizonte e outras, a alguns passos de nós. Mas, finalmente, conseguimos ver de onde ele vinha, e então ficamos sabendo que estávamos muito perto. Uma vela gotejante estava enfiada numa fenda das rochas que a ladeavam para evitar o vento e também para impedir que fosse vista, a não ser na direção da Mansão Baskerville. Um pedaço enorme de granito ocultou a nossa aproximação, e agachados atrás dele, olhamos para o sinal luminoso. Era estranho ver esta única vela queimando ali no meio do pântano, sem nenhum sinal de vida perto dela, apenas a chama isolada, reta, amarela, e o brilho da pedra de cada lado dela.

– O que faremos agora? – sussurrou sir Henry.

– Espere aqui. Ele deve estar perto desta luz. Vamos ver se conseguimos enxergá-lo.

Mal as palavras saíram da minha boca, nós dois o vimos. Sobre as rochas, na fenda em que a vela queimava, projetava-se um rosto amarelo perverso, um rosto terrível de animal, todo enrugado e marcado de paixões vis. Sujo de lama, com uma barba eriçada e cabelos emaranhados, podia ter pertencido a um daqueles antigos selvagens que habitavam nas tocas das encostas das colinas. A luz embaixo dele refletia-se em seus olhos pequenos e astutos, que olhavam ferozmente para a direita e a esquerda através da escuridão, como um animal manhoso e selvagem que ouviu os passos dos caçadores.

Alguma coisa, evidentemente, havia despertado suas suspeitas. Talvez Barrymore tivesse algum sinal particular que deixara de dar, ou o sujeito podia ter algum outro motivo para achar que nem tudo estava bem, mas pude perceber os seus receios no seu rosto cruel. A qualquer momento ele poderia apagar

a luz e desaparecer na escuridão. Portanto, saltei para a frente, e sir Henry fez o mesmo. No mesmo instante o condenado gritou uma praga para nós e atirou uma pedra que se espatifou contra o granito que havia nos protegido. Vi de relance seu vulto baixo, agachado, de constituição forte, quando ficou de pé num pulo e virou-se para fugir. No mesmo momento, por um acaso feliz, a lua apareceu entre as nuvens. Corremos pelo alto da colina, e lá estava o nosso

homem descendo a grande velocidade pelo outro lado, saltando sobre as pedras em seu caminho com a agilidade de um cabrito montês. Um tiro certeiro do meu revólver poderia tê-lo aleijado, mas eu o trouxera apenas para me defender se fosse atacado, e não para atirar num homem desarmado que estava fugindo.

Nós dois éramos corredores velozes e razoavelmente bem treinados, mas logo vimos que não tínhamos nenhuma possibilidade de alcançá-lo. Nós o vimos durante muito tempo ao luar, até ele se transformar apenas num pontinho que corria entre as rochas na encosta de uma colina distante. Corremos até ficarmos completamente sem fôlego, mas a distância entre nós era cada vez maior. Finalmente paramos e nos sentamos, ofegantes, sobre duas rochas, enquanto o víamos desaparecendo na distância.

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